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A vulnerabilidade nos extremos

Com poucas políticas públicas pensadas para pessoas vulneráveis, crianças, idosos e PcDs enfrentam precariedades na saúde e educação durante eventos climáticos

Camila Saraiva, Fernanda Germano e Isabele Galvão

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 O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou um estudo que indica que 6.333.727 pessoas foram atingidas pelas enchentes no estado gaúcho. Créditos: Leonardo Severo/Agência Brasil

A crise climática não chega da mesma forma para todas as pessoas. Quando a água invade uma cidade, uma criança perde meses de aula. Quando o calor bate recordes, um idoso corre mais riscos de morte. Quando a fumaça das queimadas cobre o céu, Pessoas com Deficiência (PcDs) enfrentam barreiras ainda maiores para acessar serviços de saúde, transporte e segurança.

Crianças, idosos e PcDs estão na linha de frente de uma crise que expõe falhas de planejamento, ausência de políticas públicas e desigualdades socialmente estruturadas. Essas pessoas dependem de adaptações de acessibilidade para receber informações, proteção e alcançar serviços de emergência durante as crises climáticas recorrentes em solo brasileiro.

Os números ajudam a dimensionar o problema. Segundo o Fundo das Nações Unidas para Crianças (Unicef), cerca de 40 milhões de crianças no Brasil estão expostas a riscos relacionados às mudanças climáticas. Apesar disso, as necessidades específicas desses grupos ainda recebem pouca ou nenhuma atenção nas políticas públicas voltadas ao enfrentamento e prevenção dos eventos extremos.

As consequências na vida das crianças vão muito além das perdas materiais. Enchentes, secas e queimadas podem interromper a rotina escolar, afetar o desenvolvimento físico e provocar transtornos psicológicos que podem deixar marcas duradouras. Os efeitos são ainda mais severos para recém-nascidos e crianças pequenas, que possuem sistemas imunológicos e mecanismos de regulação do corpo ainda em desenvolvimento, como afirma a cartilha Crianças, Adolescentes e Mudanças Climáticas no Brasil, da Unicef.

Neste cenário, as instituições de ensino desempenham um papel que ultrapassa os limites da educação formal. Além de garantir a continuidade das atividades escolares durante os períodos de crise, elas são espaços fundamentais para a construção da consciência ambiental e para a preparação das novas gerações diante dos desafios climáticos. As escolas também desempenham um papel de referência para a comunidade, já que muitas vezes impulsionam apoio durante desastres climáticos, por meio de doações de itens básicos de sobrevivência, alojamento e assistência comunitária.

Em 25 de junho de 2024, dois meses após as enchentes do Rio Grande do Sul, foi sancionada a Lei 14.926 que altera a Política Nacional de Educação Ambiental (Pnea Lei 9.795, de 1999). A lei acrescenta mudanças do clima, proteção da biodiversidade e riscos de desastres socioambientais aos objetivos oficiais da Educação Ambiental Nacional. A alteração ainda estipulou o prazo de 120 dias para as instituições de ensino se adaptarem às novas diretrizes.

Segundo Frederico Neves, 46, professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e pesquisador das mudanças climáticas, o Brasil possui um amplo material e políticas públicas voltadas para o ensino ambiental. O desafio está em transformar essas políticas em práticas efetivas dentro das escolas e garantir a formação adequada de professores para ensinar sobre mudança climática em sala de aula. O pesquisador também destaca a importância da educação no combate à desinformação e ao negacionismo climático.

As dificuldades também atingem as Pessoas com Deficiência. O estudo Capacitismo Ambiental, publicado em 2025 por Laís Silveira Costa, doutora em saúde pública e por Vitória Bernardes, psicóloga, aponta que quase 19 milhões de brasileiros com deficiência estão expostos a riscos durante eventos climáticos extremos. Quando uma enchente obriga famílias a deixarem suas casas ou uma onda de calor exige atendimento médico urgente, a falta de planejamento inclusivo e de adaptação em abrigos emergenciais pode transformar uma situação de risco em uma ameaça ainda maior.

Entre os idosos, os impactos também são agravados por fatores que muitas vezes passam despercebidos. O envelhecimento natural do organismo reduz a capacidade de adaptação às temperaturas extremas e aumenta os riscos associados a doenças cardiovasculares e respiratórias. Dados apresentados pelo artigo Olhares Sobre a Crise Climática, do Serviço Social do Comércio São Paulo (SESC/SP), indicam que cerca de 48 mil mortes foram associadas ao calor excessivo no Brasil entre 2000 e 2018, sendo a maior parte delas registradas entre pessoas com 65 anos ou mais. O estudo também destaca que o aumento das temperaturas representa uma ameaça crescente à população idosa, mais vulnerável à hipertermia em ondas de calor.

Na tentativa de amenizar os impactos das mudanças climáticas, o Governo Federal, através do Ministério da Saúde, está buscando estruturar estratégias de adaptação do Sistema Único de Saúde (SUS). Entre elas, foi criado o Plano Setorial de Adaptação à Mudança do Clima para a Saúde (AdaptaSUS), que integra o Plano Clima e prevê ações para fortalecer a vigilância na área da saúde, orientar os municípios e os estados e educar a população para entenderem os efeitos da crise climática. Waleska Teixeira Calaiffa, 70, médica, professora titular aposentada da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (FM/UFMG) e coordenadora do Observatório de Saúde Urbana de Belo Horizonte (OSUBH), acredita que o país ainda está no processo inicial de preparação e adaptação prática do Plano Setorial. “Quando você vê a preocupação do Ministério da Saúde com o VIGISUS, toda a questão do AdaptaSUS, isso tudo é a ideia de estar preparado para essa questão climática do ponto de vista da saúde. Eu acho que nós estamos chegando tarde. Mas a gente tem que apressar. A gente não consegue trabalhar na mitigação e pouco na adaptação na mesma rapidez que as mudanças estão vindo. Essa é a questão, está desequilibrado”. Para a pesquisadora, embora a formação de políticas públicas estejam sendo pensadas, a velocidade das ações não acompanha o ritmo dos impactos das alterações climáticas.

Apesar da gravidade do contexto, ainda existem dificuldades de dimensionar o problema, principalmente pela ausência de coleta de dados sobre os grupos vulneráveis durante eventos extremos. Os boletins oficiais dos estados afetados por desastres climáticos contabilizam o número de vítimas e pessoas afetadas, mas não categorizam idade, grupos sociais ou se possuíam algum tipo de deficiência. O Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2ID) também calcula o número de vítimas, mas não destaca as características físicas e sociais de cada um deles. Sem esses dados, crianças, idosos e PcDs continuam invisíveis nas estatísticas, tornando ainda mais difícil justificar investimentos e planejamentos pensados nos grupos vulneráveis.

Da falha de planejamento ao desastre nacional

Entre os meses de abril e maio de 2024, o Rio Grande do Sul sofreu inúmeros danos estruturais e econômicos devido ao grande volume de chuvas contínuas que atingiram o estado naquele ano. A Defesa Civil estadual estima que as ocorrências de enchentes, deslizamentos de terra e de lama atingiram 478 cidades, o que corresponde à 95% dos municípios gaúchos. Durante o período chuvoso, cerca de 2,4 milhões de pessoas foram afetadas, registrando 185 óbitos, 806 enfermos, 23 desaparecidos e mais de 581 mil desalojados.

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Em Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre, a inundação do Rio dos Sinos chegou ao teto das residências dos bairros Mathias Velho e Rio Branco. Créditos: Fotógrafo não identificado/Arquivo pessoal de Telma Ribeiro

Diante do cenário de calamidade, estradas ficaram bloqueadas e serviços essenciais foram impactados, como fornecimento de água, telefonia e eletricidade, impossibilitando que muitas pessoas se deslocassem das áreas atingidas e recebessem itens de sobrevivência após perderem bens pessoais. Escolas e universidades tiveram aulas suspensas e o ensino de crianças e Pessoas com Deficiência ficou temporariamente prejudicado. Algumas instituições de ensino  tiveram o retorno das aulas apenas em julho e outras sofreram impactos materiais que impossibilitaram a volta das atividades. Segundo o relatório de Avaliação dos efeitos e impactos das inundações do Rio Grande do Sul, escrito pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), os danos totais das inundações somaram R$ 3,04 bilhões no setor da educação. Dentro deste valor, R$ 2,46 bilhões correspondem às perdas nas infraestruturas, mobiliários, equipamentos e materiais de escolas e universidades, R$ 476 milhões relacionados à interrupção de receitas do ensino privado e ao pagamento de salários a professores e funcionários e R$ 107 milhões aos custos adicionais de limpeza e remoção de escombros.

As chuvas intensas afetaram também diversas unidades de saúde e dificultaram os atendimentos hospitalares aos atingidos pelo evento climático. Segundo a Nota Técnica do Observatório de Clima e Saúde, cerca de 1.170 estabelecimentos especializados, essenciais para o tratamento de condições crônicas e emergências médicas, sofreram abalos devido às enchentes.

Distribuição das unidades de saúde localizadas em áreas de inundação no estado do Rio Gran

Distribuição das unidades de saúde localizadas em áreas de inundação no estado do Rio Grande do Sul. Créditos: Observatório de Clima e Saúde/Fundação Oswaldo Cruz

Com os obstáculos para atender os afetados, pessoas doentes e que convivem com doenças crônicas foram impossibilitadas de receberem medicamentos e mantimentos relacionados à saúde pós-desastre. Dentre a população atingida, os idosos sofreram grandes impactos durante a crise. No levantamento organizado pela Universidade Lasalle e pela Cruz Vermelha, a estimativa é de que 202,5 mil idosos tenham sofrido algum tipo de dano com as chuvas de 2024.

O comprometimento estrutural das casas e das unidades de saúde alterou também a rotina das crianças e bebês do estado. Para Gabriela Dutra Cristiano, 36, assistente social e integrante da Rede Estadual pela Primeira Infância do Rio Grande do Sul (Pepi/RS), muitas delas perderam suas principais referências do cotidiano durante o período de desenvolvimento cognitivo e emocional. Com a sobrecarga das famílias, as crianças acabam ficando invisibilizadas nos planos de ação. “As pessoas costumam pensar assim: ‘Ai, pelo menos ele não tá entendendo o que tá acontecendo’. E a gente sabe que ao contrário. O bebê vai entender de um outro jeito e vai comunicar a partir de um outro lugar e de uma outra linguagem, mas ele está vivendo no corpo toda aquela angústia, tudo aquilo que tá acontecendo”, comenta a especialista em Saúde da Família.

Ana Paula Jasper, 40, também integrante da Pepi/RS e assistente social com trabalhos voltados para as áreas de políticas públicas, completa que a vulnerabilidade das crianças aos eventos extremos, somado à falta de orientação  do cotidiano, pode potencializar mais o trauma do que a vivência do próprio evento. “A criança acaba se submetendo a um estresse tóxico. Ela vai produzir cortisol, vai produzir hormônios que vão limitar até o processamento sináptico dela. Ela vai ter alguma dificuldade de aprendizagem por causa disso. Mas, às vezes, não é o evento em si que causa o trauma, mas toda essa resposta tem em torno dela”.

Após observar os resultados das enchentes em 2024, o Pepi/RS produziu os guias Princípios e Diretrizes para a Atuação com a Primeira Infância em Situações de Emergência e Caminhos para Bebês, que reúnem orientações e recomendações para estados e municípios na tentativa de incluir bebês, crianças, gestantes e puérperas aos planos de contingência. O objetivo dos documentos é ampliar a capacitação de profissionais da saúde, educação e assistência social, criar espaços seguros para o brincar nos abrigos, garantir continuidade do cuidado em saúde e fortalecer as políticas públicas que já existem.

No período das chuvas incessantes, outras instituições também serviram como asilo humanitário durante as chuvas no estado. Entre elas, a Associação Canoense de Deficientes Físicos (ACADEF), organização não-governamental que atende os municípios de Canoas, Vale dos Sinos e Paranhana, foi abrigo para aproximadamente 100 pessoas desabrigadas, o que significa em torno de 35 famílias recebidas.

O casal Telma Ribeiro Daniel, 51, PcD e presidente da ACADEF, e Charles Machado, gerente da ACADEF, contam à Revista Curinga que a decisão partiu da notícia de que membros da instituição ficaram desabrigados com as enchentes que atingiram o bairro Mathias Velho. Embora não tivessem colchões e roupas suficientes para abrigar as famílias, antes da chegada das doações, tinham equipamentos e cômodos adaptados para ajudar as Pessoas com Deficiências. “Se para uma pessoa que anda sem qualquer dificuldade de mobilidade, já seria difícil, a gente pensou no pessoal de cadeira de rodas. A acessibilidade era a primeira coisa que a gente pensava”, conta Telma.

O casal residente da cidade vizinha, Gravataí, funcionários da ACADEF há mais de 20 anos, não teve a casa atingida e se prontificou para ajudar amigos e conhecidos. Para Telma e Charles, era necessário que a instituição, que preza pela inclusão e acessibilidade, abrisse as portas àqueles que precisavam de ajuda no momento de calamidade e não mediram esforços para dar apoio às vítimas das enchentes.

“É lindo falar de inclusão. Só que a inclusão já não existe no seco, no molhado então…” - Telma Ribeiro - Presidente da ACADEF

O casal relata que, embora o período de dois meses de chuva tenha sido desafiador, principalmente por terem lidado com pessoas que perderam todos os bens materiais, fariam tudo novamente.

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A ACADEF está localizada em um ponto mais alto da cidade, impossibilitando a invasão pela água das enchentes. Créditos: Fotógrafo não identificado/Arquivo pessoal de Telma Ribeiro

O caos se repete em Minas Gerais

Semelhante ao desastre climático sofrido pelo Rio Grande do Sul, a Zona da Mata mineira, região localizada no Sudeste do estado, foi atingida por grandes volumes de água das chuvas em fevereiro de 2026. O episódio ocasionou enchentes e deslizamentos, gerando cenários de destruição nas cidades mineiras, principalmente Juiz de Fora e Ubá, epicentros de uma crise humanitária e infraestrutural. Segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), a destruição tomou proporções históricas e se tornou um dos maiores desastres ambientais ocasionados pelas chuvas no território brasileiro em número de óbitos, com 72 mortes. No município de Ubá, a chuva extrema na madrugada do dia 24 de fevereiro atingiu a marca de aproximadamente 170 milímetros em cerca de 3h30 - o que equivale, em uma superfície plana, à água cobrir até a altura do pé de uma pessoa. Esse volume de precipitação foi maior do que a previsão para todo o mês, que era de 148 milímetros de chuva. O transbordamento de ribeirões e as enxurradas resultaram na morte de seis pessoas e deixaram 1.188 famílias desalojadas. A gravidade do cenário forçou a Prefeitura Municipal a suspender integralmente as aulas presenciais na rede municipal de ensino do dia 24 de fevereiro até o dia 06 de março, na tentativa de resguardar a segurança de crianças e funcionários diante do colapso da mobilidade urbana.

Na mesma região, Juiz de Fora vivenciou um cenário ainda mais catastrófico. Em um intervalo de apenas 90 minutos, um temporal despejou mais de 50 milímetros de água sobre o município, acarretando enxurradas e deslizamentos que resultaram na morte de 66 pessoas. A velocidade com que a água subiu inviabilizou qualquer plano de contingência para pessoas que dependem de auxílio para locomoção. A tempestade desestruturou a rede educacional da cidade e forçou as escolas municipais a suspender as aulas presenciais por dois meses.

Algumas instituições de ensino conseguiram retornar às aulas em abril, porém outras só conseguiram voltar em maio. A situação mais complexa e simbólica da crise, contudo, foi o Colégio de Aplicação João XXIII, vinculado à Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Com um grande impacto causado pelas inundações e com sua estrutura física comprometida, o colégio foi um dos últimos a começar o processo de retorno às aulas, que funcionará temporariamente nas dependências de outra instituição.

Em Ubá, o asilo Lar João de Freitas, que abriga 16 idosas, teve sua estrutura completamente alagada pela lama e pela água, deixando as moradoras ilhadas. Algumas das idosas permaneceram acamadas e fazendo uso de sondas durante a inundação, enquanto os colchões das camas boiavam dentro do asilo.

Irtes Cremonezi, enfermeira do asilo e responsável pelos cuidados básicos das idosas, conta que “A gente repara que hoje as idosas estão bem melhores do que no início, quando aconteceu a tragédia. Hoje elas estão mais equilibradas, conseguem falar. Até então elas não falavam, tinham medo de reviver todo aquele momento”, relata.

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Marília Gomes conta que a água entrou com muita rapidez no quarto, e quando ela ia chamar ajuda já não dava mais porque estava tudo alagado. Créditos: Fotógrafo não identificado/Arquivo pessoal de Irtes Cremonezi

O nível da água dentro de asilo alcançou 1,5 metro, fazendo com que a instituição perdesse todos os móveis e pertences dos idosos. Hoje, a casa  se recupera com doações que chegam de todo o Brasil. Irtes ainda fala que a instituição não recebeu nenhuma orientação sobre possíveis novos alagamentos, e espera dos órgãos competentes um planejamento para enfrentar desastres futuros.

Recordes de calor nas periferias

Com as violentas alterações sofridas pelo meio ambiente nas últimas décadas, as ondas de calor extremas se tornaram recorrentes em todo o mundo e se agravaram ainda mais em zonas tropicais do Hemisfério Sul. No Brasil, a tendência é que elas continuem se repetindo nos próximos anos. O estado do Rio de Janeiro, de acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), vem registrando temperaturas elevadas e chegou a superar médias históricas de calor em 2026, atingindo tanto a capital carioca quanto cidades interioranas fluminense.

Uma pesquisa divulgada em fevereiro deste ano pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde analisa a Nota Técnica N° 43, publicada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), relaciona as ondas de calor com as taxas de mortalidade da capital do Rio de Janeiro. Chama atenção o dado de que a temperatura acima dos 43 graus Celsius aumenta um óbito por 100 mil idosos. Vinícius Peçanha, 34, um dos autores do estudo e economista, explica que a capital fluminense tem aproximadamente um milhão de idosos. Assim, o resultado dos dados observados calcula cerca de 10 mortes extras por dia. O estresse induzido pela baixa umidade provoca o aumento de doenças cardiovasculares, respiratórias e endócrino-metabólicas, podendo trazer complicações fatais para pessoas com mais de 60 anos.

Embora a cidade tenha meios de enfrentar as temperaturas elevadas durante o ano, os resultados denunciam que a infraestrutura das residências influencia no efeito desse abafamento na fisiologia humana, e isso reflete nos números de mortalidade. Estar em locais mais quentes torna mais difícil regularizar a temperatura corporal.

“Outro fator são as ações de prevenção no território, como fontes de resfriamento urbano, prevenção e infraestrutura” - Vinicius Peçanha - Doutor em Economia e autor do artigo “Ondas de Calor no Rio de Janeiro e Mortalidade: Impactos Desiguais e Políticas de Mitigação”

Nas comunidades periféricas da capital do estado, a situação se agrava. Com o crescimento acelerado do processo de urbanização, a presença de concreto e asfalto aumentam e a concentração de árvores diminui, tornando as favelas verdadeiras ilhas de calor.

Elvira Maria Silva de Sá do Nascimento, 58, PcD e moradora da Cidade de Deus, favela da Zona Oeste do Rio, conta que já precisou ir ao posto de saúde para conseguir medicamentos nos dias mais abafados devido à sensibilidade ao calor. Ela possui afasia, condição que traz implicações na falar, diagnosticada após sofrer um derrame. Desde então, ela opta por não sair de casa pela dificuldade de hidratação nas ruas da capital fluminense. “Quando eu saía para ir para casa no horário de meio-dia sentia aquele abafamento da rua, um calor danado, eu chegava já quase desmaiando”, conta. Para ela, o transporte público municipal deveria estar equipado com ar-condicionado para ajudar na sensação de abafamento.

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“A gente passa no asfalto e sente e vê, parece como uma ‘lagoinha’ que vê assim, porque é muito calor”, diz Elvira. Créditos: Fotógrafo não identificado/Arquivo pessoal de Elvira Maria Silva de Sá Nascimento

O estudo Exposição ao calor extremo e função cognitiva em adolescentes indica que a capacidade de aprendizagem de crianças e adolescentes PcDs fica comprometida quando as temperaturas estão elevadas, atrapalhando no raciocínio, compreensão e memorização dos conteúdos aplicados em sala de aula. A ausência de equipamentos preparados para amenizar a alta sensação térmica levou a Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro (SEEDU/RJ) a orientar as unidades escolares na redução da carga horária presencial em até 50% e fazer rodízios entre as salas refrigeradas, com o objetivo de atenuar a crise em fevereiro de 2025.

A seca que sufoca o Amazonas

Nos últimos anos, o estado do Amazonas tem enfrentado uma rotina alarmante de focos de incêndio que deixam vilarejos, comunidades tradicionais e centros urbanos cobertos de fumaça. Embora chova o ano todo, a partir de julho, quando começa o verão amazônico, a quantidade de chuvas diminui, esse período é conhecido como estação seca. Em 2023, o monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou 18.269 focos de queimadas no estado entre os meses de julho e outubro, com um pico avassalador em setembro, que concentrou 6.991 focos. Em 2024, o Inpe registrou 24.005 focos entre julho e setembro, sendo agosto o mês com mais queimadas. Impulsionados pela severidade climática e por ações criminosas ligadas à grilagem de terras e à expansão da pecuária, esses incêndios transformam o ar do estado da região Norte em um risco severo à saúde humana.

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Fonte: Inpe. Design de arte: Johann Zanuzzi

A gravidade da situação atingiu níveis críticos em cidades como Manaus que, durante os picos de seca extrema em 2023, chegou a identificar índices de poluição dezenas de vezes superiores aos limiares de segurança recomendados por órgãos internacionais de saúde. Foi registrada uma concentração de PM2,5, medida para mensurar partículas de poluição geradas pela queima da floresta, que atingiu 314,99 μg (micrograma) por metro cúbico de ar (μg/m3). O limite da Organização Mundial de Saúde (OMS) para exposição em 24 horas é de 15 μg/m3, ou seja, o ar estava 21 vezes mais poluído do que o recomendado para a saúde humana em 2023, se assemelhando ou superando metrópoles globais historicamente poluídas, como Nova Deli, na Índia.

Contudo, longe de afetar a população de maneira uniforme, essa crise climática atinge de forma desproporcional os chamados grupos vulneráveis: idosos, crianças e PcDs. Lucas Ferrante, 37, biólogo e atualmente pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), conta que o impacto gerado pela inalação dessas partículas poluentes é multidimensional e se manifesta de maneira distinta em cada faixa de vulnerabilidade.

"O impacto é principalmente pior nas pessoas com comorbidades" - Lucas Ferrante - Biólogo.

Os danos vão muito além do desconforto imediato. Cristine Machado, 49, professora de química da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), explica que inalar fumaça com muito material particulado gera alergias, problemas com asma e deficiência respiratória, podendo chegar ao pulmão.

No caso dos idosos, a vulnerabilidade típica da idade avançada deixa o grupo com menor resistência adaptativa para enfrentar a toxicidade do ar, podendo gerar mais doenças respiratórias, quadros de hipertensão e problemas cardiovasculares. Potencializando também o risco de crises agudas e acidentes vasculares cerebrais (AVCs). Esse cenário se estende aos PcDs. A fumaça atua como um catalisador que piora as condições de indivíduos com deficiências e comorbidades motoras ou orgânicas crônicas.

Por outro lado, o sofrimento das crianças pequenas acontece de outra forma. Karenn Silveira, 37, do departamento de química da UFAM e Lucas Ferrante apontam que crianças sofrem com alergias que tendem a se transformar em asma, por serem mais agitadas e brincarem. A respiração fica rápida e acontece pela boca, inalando uma quantidade maior de fumaça. A dissertação de doutorado de Karenn Silveira sobre a qualidade do ar no ambiente escolar no Amazonas revelou uma realidade preocupante. Em alguns parâmetros avaliados, os níveis de poluentes e a quantidade de metais na partícula eram consideravelmente maiores dentro das salas de aula do que no ambiente externo, principalmente na época mais seca da região.

Camila Botto, 43, professora de medicina da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), contou um pouco do que vivenciou em 2024, com uma filha criança. “Tudo que for externo eu não levo, por exemplo, natação não levei. A escola também teve medida de não permitir o parque, então ficaram só em ambiente interno. Todas as atividades externas, ou levar para algum passeio, para banho de rio, de igarapé também não. Então tomei essas medidas. Como ela era pequena na época, fica mais difícil o uso da máscara. Então, por conta disso, eu fiz a opção de não expor”, relata a médica.

Cristine pontua que a legislação brasileira, por meio da Resolução Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), de 2018, monitora parâmetros tradicionais como poeira, material particulado e gases reativos, como por exemplo o dióxido de enxofre, dióxido de nitrogênio e do ozônio. Embora este último seja benéfico na estratosfera, é altamente irritante para as mucosas ao nível do solo. Contudo, a comunidade científica alerta para ameaças ocultas: a fumaça das queimadas carrega compostos que não são regulamentados e fiscalizados pelas normas nacionais, como os Hidrocarbonetos Policíclicos Aromáticos (HPAs). Eles são classificados pela OMS em uma lista de substâncias que causam câncer e flutuam na atmosfera amazônica em concentrações que colocam a população em risco direto.

A análise dos dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS) revela que durante o auge da crise de fumaça em 2023, entre os meses de julho e outubro, foram registradas uma quantidade parecida ou até mesmo menor de internações por doenças respiratórias em comparação com os outros meses. Esses resultados surpreendem porque a expectativa seria que o número de internações fosse maior no período de mais queimadas. Lucas Ferrante explicou para a Revista Curinga que isto está ligado ao modo de deslocamento na região amazônica, que é diferente de outras regiões do país. “A seca isola municípios, principalmente no interior e comunidades tradicionais, porque Manaus tem uma dinâmica diferente das outras regiões do Brasil. O acesso é pelos rios”, afirma. A época de estiagem impede a locomoção de grande parte da população, muitas pessoas possuem dificuldade de procurar atendimentos médicos durante os períodos de fumaça tóxica, ficando de fora da contagem oficial de internações.

Para as Pessoas com Deficiência, o problema pode ser ainda mais grave. Segundo Isaac Gomes, 73, a dependência do transporte fluvial transforma a seca em uma ameaça à sobrevivência. “Se ele for deficiente e morar no interior, precisa sair de lá urgentemente e vir para a cidade de Manaus, senão ele vai morrer. Tanto de fome como de falta de água, alimentação e assistência médica”, relata.

Além do isolamento geográfico provocado pela descida dos rios, o nível de agravamento dessas crises é ditado por engrenagens climáticas globais de larga escala. De acordo com a professora da UFAM, os momentos em que o estado enfrenta a influência do fenômeno El Niño são os mais críticos para a composição química do ar. O evento da natureza causa um aumento severo de temperatura e a ausência prolongada de chuvas. “Quando tem chuva, ela faz uma lavagem mesmo. Ela retira muita poeira que tá no ar e limpa o ar que a gente respira. Mas quando a gente passa semanas, meses com uma quantidade muito pequena de chuva, não tem esse fator natural de limpeza do ar. Então, associando isso às queimadas, esses poluentes vão se acumulando e ficando em concentrações maiores, causando irritação nos olhos, irritação no nariz e os problemas respiratórios”, conta Cristine.

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Fonte: Datasus. Design de arte: Johann Zanuzzi

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Fonte: Datasus. Design de arte: Johann Zanuzzi

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Fonte: Datasus. Design de arte: Johann Zanuzzi

Além dos impactos da fumaça na saúde da população, Lucas Ferrante aponta que a intensificação das queimadas está diretamente relacionada ao avanço da pavimentação da BR-319, rodovia que atravessa uma área preservada da Amazônia e favorece o desmatamento e os incêndios. O Ministério do Meio Ambiente alertou em nota, que a obra pode agravar as emissões de gases do efeito estufa e dificultar o cumprimento das metas climáticas do Brasil. Enquanto o problema estrutural persiste e novos episódios de fumaça são esperados, especialmente devido ao El Niño, a população depende de medidas paliativas, como o uso de umidificadores e máscaras, principalmente entre os grupos mais vulneráveis. A Revista Curinga também buscou posicionamento de órgãos públicos do Amazonas, mas não recebeu resposta.

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O biólogo Lucas Ferrante comenta que muitos políticos acreditam que as estradas vão resolver os problemas de secas e inundações que atingem o interior. No entanto, ele afirma que as queimadas ocorrem ao redor das rodovias. Créditos: Cristie Sicsú/Agência Brasil

Enquanto os eventos extremos se tornam mais frequentes, a ausência de políticas públicas específicas mantém crianças, idosos e PcDs entre os grupos mais expostos aos impactos. Sem planejamento e ações voltadas à adaptação, a vulnerabilidade dessas populações tende a se repetir a cada novo desastre.

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A Curinga é um produto editorial da disciplina Laboratório Integrado II: Grande Reportagem Multiplataforma, elaborado por estudantes do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto. Confira a edição 41: Eventos Extremos e Resiliência Climática.

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