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Eventos extremos e Resiliência climática

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O tema “Eventos Extremos e Resiliência Climática”, a 41ª edição da Curinga propõe uma reflexão sobre a conexão entre as crises ecológicas globais, o nosso cotidiano e a realidade local. Debater as mudanças climáticas é um desafio complexo e desconfortável, mas essa discussão é cada vez mais indispensável. Precisamos nos entender como agentes ativos dentro do ecossistema, compreendendo que o comportamento humano impacta diretamente o equilíbrio ambiental. Foi a partir dessa premissa que definimos as pautas e iniciamos a produção das reportagens que integram este dossiê.

 

Com o começo da Revolução Industrial no século XVIII, substituindo a manufatura artesanal por máquinas a vapor. Esse processo desencadeou a queima massiva de combustíveis fósseis, inicialmente o carvão e, mais tarde, o petróleo e o gás. Esse marco alterou profundamente a economia global, permitindo que bens antes restritos a uma pequena parcela da população se tornassem acessíveis à grande massa. Um dos principais setores desse avanço foi a indústria têxtil, impulsionada pelo surgimento de novos maquinários e fibras que reduziram drasticamente o preço das roupas. Assim, o que antes era feito a base de troca, devido ao baixo custo de compra, passou a ter descarte direto no meio ambiente.

A expansão massiva da atividade industrial resultou na emissão de bilhões de toneladas de gases como o dióxido de carbono (CO2), aumentando a temperatura média do planeta. A retenção de calor na atmosfera por esse acúmulo gasoso impulsiona o aquecimento global contemporâneo, acelerando o derretimento das geleiras e a elevação dos níveis do mar. Além disso, o aquecimento global eleva a temperatura dos oceanos e gera bolsões de água quente, intensificando fenômenos como o El Niño, provocando a acidificação das águas que gera o branqueamento de corais, além de alterar as correntes e a vida marinha. 

 

Tais impactos não se limitam a ilhas e áreas litorâneas, afetam também regiões do interior do nosso país, com a intensificação das ondas de calor, chuvas e secas extremas. Mas os efeitos do aquecimento global não são causados apenas pela queima de combustíveis fósseis, outras atividades humanas, como o desmatamento, a agricultura e mineração intensiva, também contribuem para as emissões de CO2. 

 

Regiões como Minas Gerais, sofrem frequentemente com os impactos no seus territórios, com contaminação e escassez de água, poluição do ar e desmatamento, causados pela exploração em larga escala por parte de mineradoras e do agronegócio. Embora essa estrutura tenha surgido durante o período colonial, ainda possui marcas no imaginário mineiro, influenciando a dinâmica social. Dentre essas marcas está a continuidade das atividades de mineração predatória no território mineiro, além do grande impacto ambiental causado pela extração mineral focada no lucro a curto prazo, também está associada a estruturas que se tornaram símbolo de alguns dos maiores crimes ambientais do país: as barragens de rejeitos, utilizadas para armazenar resíduos gerados durante o processo de mineração. 

 

Hoje, algumas famílias buscam resistir seguindo suas tradições, entre elas o garimpo artesanal, que é realizado na beira de rios com foco no ouro de aluvião, mas contribui para o assoreamento dos leitos dos rios. Apesar do trabalho manual, parte significativa dos garimpeiros ainda utiliza mercúrio para separação do minério dos outros resíduos, o que gera a contaminação das águas. Essa contaminação hídrica impacta diretamente a agricultura familiar da região, que já sofre com as mudanças climáticas. Ao longo dos últimos anos,  grandes secas, queimadas e pragas castigam as produções dos pequenos agricultores, que buscam manter a harmonia entre a produção agrícola e a preservação de nascentes, árvores e mata. 

 

Com o avanço da tecnologia digital, a criação de data centers surge como um novo elemento complicador, somando-se aos impactos ambientais já provocados pela mineração e pela agroindústria. A ausência de regras claras permite que as gigantes da tecnologia instalem essas estruturas de grande porte em áreas vulneráveis, que historicamente enfrentam crises no abastecimento de água e energia. Esse cenário eleva a preocupação com o esgotamento dos recursos naturais e conflitos territoriais. Até o momento é impossível mensurar com exatidão as consequências ambientais. Municípios como Caucaia (CE), Eldorado do Sul (RS) e Uberlândia (MG), que já convivem com estiagens severas e inundações graves, veem esses eventos climáticos extremos serem agravados pela chegada dos data centers de hiperescala.

 

No Brasil, a falta de políticas públicas e de planejamento urbano intensifica a recorrência de desastres climáticos. Episódios que outrora eram isolados, passar a ser mais recorrentes, por exemplo das inundações no Rio Grande do Sul (2024) e em Juiz de Fora (2025), das temperaturas extremas registradas no Rio de Janeiro (2025), causaram mortes e o cancelamento de aulas, e os deslizamentos causados por temporais no Taquaral, em Ouro Preto (2020 e 2022). O que antes eram episódios esporádicos, se tornaram manchetes recorrentes nos jornais. Mas nem todos são afetados da mesma forma.

 

Em uma sociedade que ainda possui vestígios do período colonial, é preciso enxergar que as crises climáticas começam muito antes das chuvas, das enchentes e das secas. Empurradas para margens sem a infraestrutura e segurança, populações vulneráveis enfrentam esses eventos extremos sob condições de flagrante desigualdade. Esse cenário vai além dos grandes centros urbanos, atingindo também terras indígenas e quilombolas que, mesmo com existência de legislações, ainda sofrem com invasões voltadas à exploração ilegal de suas terras. Dentro desse cenário de disparidades, o recorte de gênero acentua o perigo, mulheres e meninas, mesmo quando conseguem sobreviver a esses eventos, continuam expostas a outras formas de violência.

 

Diante desse cenário, a ocorrência de eventos extremos gera impactos distintos: crianças são frequentemente afastadas de suas famílias ao serem levadas para abrigos, enquanto as ondas intensas de calor vitimam a população idosa. Somado a isso, as pessoas com deficiências se deparam com outras barreiras ao acesso a serviços de saúde, transporte e segurança. Embora os boletins oficiais registrem o total de vítimas e afetados pelos desastres climáticos, há uma ausência de detalhamento por idade, grupo social ou condição de deficiência. A falta dessas informações perpetua a invisibilidade estatística, dificultando a fundamentação de investimentos e o desenvolvimento de políticas públicas voltadas a atender às necessidades específicas.

 

A fim de aprofundar o debate, convidamos a professora Ana Maria Heuminski de Ávila, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), especialista em meteorologia e colaboradora do Primeiro Relatório de Avaliação Nacional do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC). Ela comenta sobre a urgência da autopreservação e nos mostra caminhos para entender o papel da ciência e da comunicação nesse contexto. 

 

O processo de produção do dossiê exigiu que algumas escolhas fossem feitas, e uma delas foi aproveitar a possibilidade de experimentação que a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) oferece na disciplina Laboratório Integrado II. A apuração foi ancorada em entrevistas com especialistas, relatos pessoais e pesquisa histórica e documental. Além disso, diferentes formatos foram explorados: podcast, grande reportagem e documentário. Também produzimos uma cartilha didática, que trabalha com alguns temas presentes nesta edição, o material será distribuído nas escolas da região, a fim de que os estudantes possam ampliar conhecimentos sobre eventos climáticos e formas de resiliência frente ao que está acontecendo.  

  

Boa Leitura!

Julia Zago
Editora-chefe

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A Curinga é um produto editorial da disciplina Laboratório Integrado II: Grande Reportagem Multiplataforma, elaborado por estudantes do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto. Confira a edição 41: Eventos Extremos e Resiliência Climática.

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