Patrimônio em debate, pertencimento em disputa
Dossiê sobre os 80 anos da declaração de Mariana como
Monumento Nacional
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O conjunto urbanístico e arquitetônico de Mariana foi declarado Monumento Nacional em 1945 pelo Decreto-Lei nº 7.713, assinado pelo presidente Getúlio Vargas, o que evidencia a singularidade e a importância que a cidade carrega para o estado e o país. Esse foi o ponto de partida para a produção desta edição da Curinga.
A efeméride de 80 anos como Monumento Nacional é de grande relevância quando se pensa que Mariana é a primeira cidade de Minas Gerais. A identidade do estado está ligada intrinsecamente à história da cidade e, por isso, sua relevância se alastra para além dos limites do município. O decreto define que a paisagem urbana e arquitetônica deve ser preservada, e ao longo dos anos, outros elementos, lugares e práticas culturais também foram reconhecidos pelos órgãos públicos de preservação histórica, como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA). Para além disso, nosso trabalho tratou tanto de edifícios e práticas tombadas, quanto dos que não foram tombados, mas ocupam um lugar de destaque na história e no cotidiano da cidade.
A 40ª edição da Curinga buscou entender qual a relação da população marianense com o patrimônio, abordando questões de pertencimento e também das implicações do tombamento no dia a dia de moradores e visitantes. Assim, as pautas foram escolhidas e a produção das reportagens que compõem este dossiê começou.
O processo contou com o apoio de marianenses, convidados com o intuito de cumprir a missão extensionista da universidade e de contemplar um ponto de vista de pessoas que vivem o patrimônio todos os dias. Os convidados participaram em diferentes momentos da produção, o que fez com que o dossiê tivesse um olhar marianense. Observamos que o patrimônio é construído e observado de diferentes formas pela individualidade de cada um, mas ao mesmo tempo e ainda mais importante, compõe a memória coletiva de forma ampla e complexa.
O processo de produção do dossiê exigiu que algumas escolhas fossem feitas, e uma delas foi aproveitar a possibilidade de experimentação que a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) oferece na disciplina Laboratório Integrado II. Pensando nisso, propusemos uma nova forma de contar histórias inspirada na literatura. Pela primeira vez, a Revista Curinga conta com uma fabulação, que é uma história fictícia amparada em documentos históricos e relatos orais. Além disso, outros formatos foram definidos: podcast, grande reportagem e documentário. Também fizemos um Glossário como apoio tanto para a produção quanto para a leitura e entendimento das reportagens acerca de termos específicos. A apuração foi ancorada em entrevistas com especialistas e cidadãos marianenses, além de pesquisa histórica e documental.
Durante quatro meses, a edição se dedicou a entender a relação entre o patrimônio e a vida cotidiana, desde a preservação das práticas culturais até as dificuldades de manter um espaço tombado. Ao longo do tempo, foi possível perceber que patrimônio é tudo aquilo que permanece vivo a partir do esforço coletivo, seja pela esfera política ou pela comunitária. Também foi possível compreender a relevância do tema nos dias atuais, afinal, a história é vivida e o patrimônio é (re)construído todos os dias.
Esperamos ter cumprido com o objetivo de retratar da forma mais diversa possível os âmbitos em relação à historicidade de Mariana.
Boa leitura!
Marcella Torres
Editora-chefe

