top of page
0Mineração_AndréCarvalho.jpg

AQUI O TREM EXTRAI

Em meio à exploração de recursos naturais, a promessa de desenvolvimento convive com conflitos ambientais, mudanças climáticas e disputas pelo futuro do território mineiro

Júlia Aguiar, Luan Aparecido, Maria Eduarda de Lima e Pedro Lotti

1Mineração_LéoSouza.jpg

Imagem aérea do distrito de Antônio Pereira, Ouro Preto-MG . Crédito: Léo Souza/Instituto Guaicuy

Minas Gerais carrega a mineração até no nome. Desde a corrida pelo ouro nos séculos XVII e XVIII, os recursos retirados do subsolo ajudaram a moldar cidades, estradas, economias e até a identidade do estado. Mas uma pergunta raramente aparece no debate público: esta região “nasceu” para ser minerada ou foi ensinada a acreditar nisso? Enquanto diferentes formas de exploração de recursos naturais avançam sobre montanhas, comunidades discutem o futuro de seus territórios. A mesma terra que produz ouro, minério, café, leite e outros alimentos também abriga nascentes, parques, cachoeiras, comunidades tradicionais e formas de vida construídas ao longo de gerações. Em diferentes regiões do estado, o que está em jogo além da propriedade da terra é o uso que se pretende fazer dela.

Antes que montanhas fossem vistas como nada mais que reservas minerais e os rios como caminho para o ouro, outros povos já ocupavam esse território. Para Danilo Antônio Campos da Silva, 43, cacique do povo Borum-Kren e chefe do Departamento de Cultura Indígena da Secretaria de Cultura e Turismo de Ouro Preto, a história de Minas Gerais também pode ser contada a partir de uma lógica diferente da exploração de recursos naturais. “O que está na terra é do descanso eterno. O que a gente vê de valor, de riqueza é o que tá vivo, que é a floresta, o rio, as montanhas. Isso para nós é que é a verdadeira riqueza, esse é o maior tesouro que a gente tem”, afirma. Para o cacique, essa forma de enxergar a terra também influencia a maneira como o povo Borum-Kren se relaciona com a produção de alimentos. Tradicionalmente, a agricultura é voltada para a subsistência e não para o acúmulo. Ainda segundo Danilo, o cultivo deles acontece em pequenas áreas e é realizado de um jeito rotativo. Depois de alguns anos de uso, o terreno é deixado para que a floresta possa se regenerar naturalmente enquanto usam novas áreas para plantio. “Eu planto um tempo, abandono ali para a floresta vir, para não esgotar o solo”, explica.

O cacique Danilo Borum-Kren é líder da tribo originária da Região dos Inconfidentes

Crédito: Luan Aparecido

Esse modo de vida entra em conflito com a lógica extrativista marcada pela superexploração de recursos naturais que se consolidou na região dos Inconfidentes, composta pelos municípios de Mariana, Ouro Preto e Itabirito. As cidades integram o Quadrilátero Ferrífero, principal província mineral do sudeste do país que agora é reconhecida também pela importância hídrica, especialmente por abrigar aquíferos e nascentes que abastecem comunidades locais e a Região Metropolitana da capital do estado, Belo Horizonte. Esses três municípios são protagonistas no que diz respeito à extração de recursos naturais desde o Brasil Colônia, período marcado pela ocupação portuguesa, até os dias atuais, com a continuidade das atividades de mineração predatória por parte de grandes empresas. Esse modelo, caracterizado pela máxima extração mineral focada no lucro a curto prazo, tem grande impacto ambiental.

Unidade Germano, da Samarco, com novas estruturas de correias transportadoras integradas ao sistema ferroviário e ligadas ao transporte de minérios. Crédito: Arquivo pessoal | André Carvalho

Segundo Alberto Fonseca, 48, professor do Departamento de Engenharia Ambiental da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), atividades extrativistas como a mineração podem trazer benefícios econômicos a curto prazo, gerando empregos e trazendo infraestrutura, por exemplo. Apesar disso, as consequências negativas são visíveis por toda parte e permanecem por muito mais tempo. “Historicamente, [a atividade minerária,] não tem sido acompanhada de controles e compensações adequadas. E isso se transforma, visualmente, no que a gente vê aqui na região de Ouro Preto, na degradação do território", disse. Dentre os efeitos negativos citados pelo especialista em desenvolvimento sustentável estão a tendência à problemas de administração pública, ocupação irregular do território, intensificação no uso de equipamentos públicos, como hospitais, e piora nas condições de mobilidade e de indicadores sociais e econômicos.

A mineração em larga escala também está associada a estruturas que se tornaram símbolo de alguns dos maiores crimes ambientais do país, as barragens de rejeitos, utilizadas para armazenar resíduos gerados durante o uso do minério. Essas estruturas podem ser construídas de três formas: a montante, método considerado menos seguro por especialistas, a jusante e a linha de centro, apontadas como mais seguras.

Gráfico ilustrativo demonstrando os três tipos de barragem utilizadas para conter os rejeitos gerados pela mineração. Crédito: Johann Zanuzzi

Em 2015, quando a barragem de Fundão da Samarco S.A., controlada pela Vale S.A. e pela BHP, rompeu em Mariana, a lama atingiu com mais intensidade Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, dois subdistritos. Sendo considerado o maior crime socioambiental do Brasil e um dos maiores do mundo, o rompimento levou à morte de 20 pessoas e despejou aproximadamente 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério que percorreram cursos de água de Minas Gerais e do Espírito Santo, até desaguar no Oceano Atlântico. Menos de cinco anos depois, em 2019, o rompimento da Barragem Córrego do Feijão, da Vale S.A., devastou o estado mais uma vez, provocando o vazamento de mais de 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério em Brumadinho, passando pela bacia do Rio Paraopeba. O crime teve 272 mortes e afeta famílias e ecossistemas até hoje. Ambas as estruturas foram construídas no alteamento a montante, quando a barragem vai crescendo em forma de degraus para dentro do reservatório, utilizando o próprio rejeito do processo de beneficiamento do minério sobre o dique inicial.

Mesmo após esses crimes, Minas Gerais continua concentrando um grande número de estruturas sob monitoramento. Segundo o boletim mensal de segurança de barragens da Agência Nacional de Mineração (ANM), divulgado em maio de 2026, 28 barragens de mineração no estado apresentavam algum grau de atenção. Barragens localizadas em municípios do Quadrilátero Ferrífero apareceram  em diferentes níveis de alerta, incluindo estruturas em Ouro Preto, Mariana, Brumadinho, Barão de Cocais, Nova Lima e Itabira.

Mas, se a mineração industrial se tornou a principal atividade econômica ligada à extração mineral em Minas Gerais, ela não é a única. Outra forma de extrativismo presente no estado é o garimpo. Enquanto a mineração costuma ocorrer em grande escala, com maquinário pesado, grandes empresas e estruturas complexas, o garimpo pode ser realizado tanto de forma artesanal, quanto de forma semimecanizada, por meio de máquinas, como dragas e bombas d’água. A atividade é regulamentada pela Lei Federal nº 7.805/1989 e depende da obtenção da Permissão de Lavra Garimpeira (PLG), documento que autoriza a extração mineral em áreas específicas. Para mineradoras a atividade industrial é regida pelo Decreto-Lei nº 227/1967, conhecido como Código de Mineração, que institui a Concessão de Lavra para a exploração mineral.

Além da necessidade de permissão de lavra, ambas as atividades precisam de licenciamento ambiental, procedimento pelo qual o órgão competente autoriza a operação de atividades que possam causar danos ambientais com o objetivo de minimizá-los. O professor Alberto explicou que esse licenciamento deveria significar que uma atividade só poderia começar com a comprovação de que os impactos à natureza seriam controlados. Na prática, ele defende que isso não funciona, já que se observa uma expansão do setor mineral sem controle. “O licenciamento só consegue diminuir o ritmo e a intensidade da degradação, ele nunca conseguiu entregar esse controle de impacto, compensação e nem legado positivo. O licenciamento serve para diminuir um pouquinho a poeira, desmatar um pouquinho menos, incomodar um pouquinho menos aquela comunidade, ter um pouquinho menos de acidente", completa. Para ele, parte do problema é que a sociedade não entende a seriedade da situação e muitas pessoas mantêm o pensamento de que o desenvolvimento econômico deve acontecer de forma acelerada e até egoísta.

O garimpo também tem impactos ambientais e atuar na legalidade faz parte da tentativa de mitigar esses impactos que envolvem controle da área e atividades de compensação. A atividade pode estar ligada ao aumento no desmatamento, sedimentação e poluição dos rios, erosão do solo e destruição de habitats naturais, além da apropriação ilegal de terras e áreas protegidas, como Terras Indígenas (TIs) e Unidades de Conservação (UCs). O garimpo também possui práticas prejudiciais ao meio ambiente como, por exemplo, o uso do mercúrio para a separação do metal precioso de demais materiais, que ao ser lançado na água, no solo e no ar contaminam fauna e flora. O uso de máquinas é outro fator determinante para a deterioração da natureza, aumentando a capacidade de remoção de terra e consequentemente da destruição.

Um território movido pelo extrativismo

De acordo com a Nota Técnica nº 001/2023, do Instituto Guaicuy, Assessoria Técnica Independente (ATI) de Antônio Pereira, distrito de Ouro Preto, os primeiros registros de exploração mineral na região datam de aproximadamente 1693, quando o português Antônio Pereira Machado encontrou ouro nas proximidades do Ribeirão do Gualaxo do Norte. Ainda durante o período colonial, a Coroa Portuguesa mantinha um controle rígido sobre a exploração de ouro e diamantes. Trabalhadores que realizavam a extração fora das concessões oficiais passaram a ser chamados de garimpeiros. A história do distrito ajuda a compreender essa diferença entre o garimpo tradicional, que continua presente no território mais de três séculos depois por meio de técnicas passadas entre gerações, e a mineração. A comunidade, apesar de não reconhecida, legalmente, como tradicional, se autodenomina desta forma e está no processo de reconhecimento como Povos e Comunidades Tradicionais (PCT), junto com o Ministério Público.

Um levantamento realizado pelo instituto em 2025 identificou 446 garimpeiros em Antônio Pereira, onde a extração de ouro e topázio imperial permanece como uma referência cultural e econômica para parte da população.

Um dos poucos lugares onde a população ainda pode garimpar é no Córrego Água Suja, que integra a área do rio popularmente conhecida como Garimpão. Crédito: Júlia Aguiar

Outro recurso natural encontrado na região é o minério de ferro, que motivou a presença de grandes empresas de mineração, gerando disputa por espaço e principalmente pela paisagem do território. A atividade começou no século XX, com a chegada da empresa S/A Mineração Trindade (Samitri), que se juntou a Marcona Corporation, se tornando Samarco S.A em 1973, e da Vale do Rio Doce, atual Vale S.A, em 1984. Desde então, a atividade minerária da região vem se expandindo cada vez mais. A barragem Doutor, instalada no território entre os anos 2000 e 2001, é um grande marco dessa mudança.

Barragem Doutor está a poucos metros acima de moradias de Antônio Pereira. Crédito: Léo Souza/Instituto Guaicuy

O medo passou a fazer parte da rotina da comunidade quando a barragem Doutor entrou para o nível 1 de emergência, quando alguma condição compromete a segurança da barragem, em março de 2019. Isso aconteceu cerca de três anos depois do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, localizada a aproximadamente 12 quilômetros de distância, e dois meses depois do rompimento da barragem Córrego do Feijão, em Brumadinho. Em 2020, a estrutura foi elevada para o nível 2 de emergência, que coloca a barragem em alta probabilidade de ocorrência de desastre.

Durante esse período, as Zonas de Autossalvamento (ZAS), áreas onde não há tempo suficiente para a atuação das autoridades em caso de rompimento, passaram a determinar o cotidiano da comunidade. Famílias foram removidas de suas casas, áreas de lazer foram interditadas e o acesso a rios, cachoeiras e outros espaços, que antes eram frequentados pelos moradores passou a ser restrito. Embora a barragem tenha recebido atestado de estabilidade em setembro de 2025, parte dessas restrições permanecem até hoje. Assim como em Mariana e Brumadinho, a barragem Doutor também foi construída a montante.

Gisele Ferreira, 25, é militante do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) em Ouro Preto desde 2017 e comentou sobre esse tipo de impacto na população. Segundo ela, a discussão sobre a continuidade da mineração não deve se limitar à redução dos impactos, mas ao próprio modelo de minerar. Gisele afirma que “sempre tem impacto” e que “atualmente, não existe uma mineração que não gere impacto ambiental e social”. Para ela, o problema está em um sistema que favorece grandes empresas, enquanto deixa para os territórios a falta de água, a contaminação, a remoção de famílias, os impactos na agricultura e o adoecimento das populações. Ainda nessa perspectiva, Stennyo Rocha, 29, analista sênior de Direitos e Participação Social do Instituto Guaicuy, ressalta que os impactos provocados pela mineração em comunidades como Antônio Pereira não podem ser compreendidos apenas como consequências ambientais. Segundo ele, quando grandes empreendimentos se instalam em territórios historicamente vulnerabilizados sem diálogo verdadeiro com a população local, acabam reproduzindo uma lógica de racismo ambiental que atravessa toda a história de Minas Gerais. A exploração mineral que ajudou a construir a riqueza do estado foi sustentada, durante séculos, pelo trabalho de pessoas escravizadas trazidas à força do continente africano, muitas delas detentoras de conhecimentos sobre técnicas de mineração já utilizadas nos seus territórios de origem. Até hoje, os impactos socioambientais da atividade mineradora costumam atingir de forma bem mais intensa as comunidades periféricas, distritos rurais, povos tradicionais e populações com acesso menor a mecanismos de defesa.

Em Antônio Pereira, os moradores sentem todos os dias esses efeitos. A presença da barragem alterou não só a paisagem, mas também a relação dos moradores com o território. Com essas estruturas tão próximas ao território, o cotidiano no distrito foi tomado por diversos fatores que não existiam antes. O uso do tempo das pessoas foi afetado pelo fluxo de caminhões da mineração, ao gerar trânsito para afazeres essenciais como ir à escola ou ao hospital. Os veículos também levantam a poeira da atividade minerária, que tem relação direta com problemas respiratórios da população. Como consequência, a saúde mental de pessoas, desde crianças até idosos, também é colocada em risco. 

Sobre isso, Stennyo afirma que “quando ela [a mineradora] está na comunidade e destrói o meio ambiente, ela está destruindo a comunidade”. Ele também questiona a lógica por trás da instalação dessas estruturas tão próximas às áreas habitadas. “Quando ela escolhe colocar uma barragem dentro da comunidade, por que ela escolhe colocar aqui dentro? Por que não colocar longe da comunidade? Tem uma escolha por trás disso”, explica. A equipe de reportagem da Revista Curinga entrou em contato com a assessoria da Vale para entender o posicionamento da empresa em relação à escolha do local para instalação da barragem Doutor, mas até o momento da escrita dessa matéria não houve retorno. 

7.Mineração_JúliaAguiar.jpg

É possível ver a estrutura instalada pela mineradora em diversos pontos do distrito

Crédito: Júlia Aguiar 

Os garimpeiros e garimpeiras do distrito exercem suas atividades ao longo do rio Gualaxo do Norte e Córrego Água Suja há várias gerações, desde a fundação do distrito. Até hoje, apesar das restrições e da redução dos espaços disponíveis para a prática, o garimpo artesanal continua presente na memória e no cotidiano da comunidade, incluindo nas tradições culturais e religiosas do distrito. Um dos exemplos é a festa de Nossa Senhora da Lapa, realizada anualmente em agosto e considerada uma das celebrações mais tradicionais da comunidade.

8-Mineração_MariaEduardadeLima.jpg

Segundo a tradição local, uma imagem de Nossa Senhora foi retirada da Gruta da Lapa para ser levada à igreja, mas voltou a aparecer, misteriosamente, na gruta, dando início a celebração religiosa anual. Crédito: Maria Eduarda de Lima

Wilson Nunes, 69, começou a trabalhar no garimpo entre os 9 e 10 anos de idade. Filho de garimpeiros, ele cresceu ao lado de seis irmãos e duas irmãs em uma família que tirava dessa atividade parte importante de sua renda. Wilson relembra que, há cerca de 50 anos, a mineração da região não era tão forte como atualmente e o garimpo se tornava fonte de renda da maioria das pessoas do distrito. Ele descreve cada etapa do garimpo e enumera as ferramentas como quem apresenta velhos amigos. O gavião, formado por duas enxadas emendadas, a picareta, a manta e a bacia faziam parte da rotina de quem passava os dias retirando pedras e cascalhos dos canais.

9-Mineração_JúliaAguiar.jpg

A pedra que Wilson está segurando é uma Limonita. Crédito: Júlia Aguiar

Apesar de manterem práticas que consideram menos agressivas ao meio ambiente, os garimpeiros tradicionais de Antônio Pereira trabalham sem a Permissão de Lavra Garimpeira (PLG). Na prática, a regularização exige recursos financeiros, conhecimento técnico e acesso a processos burocráticos que costumam estar distantes da realidade dessas famílias. Ao mesmo tempo, áreas antes utilizadas pelos garimpeiros passaram a ser incorporadas aos empreendimentos minerários ou foram consideradas ZAS e eles tiveram o acesso restringido. Wilson denuncia que apesar das restrições por parte da empresa, a comunicação da Vale com a comunidade costumava ser quase inexistente. “Em 20 anos, ela nunca tinha sentado com a comunidade de Antônio Pereira para saber se existia gente aqui ou não. Nós aqui para ela [Vale] era como se fosse um rebanho de animal”, afirma. Segundo Wilson, as mineradoras não dão o devido retorno social e financeiro à comunidade. Ele acredita que os benefícios, como o aumento de empregos, ainda estão longe de corresponder à riqueza produzida na região. “Tá levando a nossa riqueza toda. Eu sempre falo: Antônio Pereira é uma pobreza em cima da riqueza. Era para ser bem melhor”.

10-Mineração_JúliaAguiar.jpg

Córrego Água Suja, corpo d'água muito utilizado por garimpeiros em suas atividades. Crédito: Júlia Aguiar

Em Antônio Pereira, ainda é possível encontrar pessoas que mantêm uma relação cotidiana com o garimpo. É o caso da dona Maria Tereza, 77, a garimpeira mais antiga ainda em atividade no distrito. Ela começou a trabalhar com o ouro aos 14 anos e até hoje passa seus dias na companhia da bateia. Ela conta que ensinou todos os filhos a garimpar. "Eu falava: Olha gente, vocês tem que aprender. Se não tiver a companhia para você trabalhar, você sabe tirar ouro. Ninguém passa falta de nada", afirma.

11-Mineração_MariaEduardadeLima.jpg

Maria Tereza segurando uma bateia, ferramenta usada para separar minerais preciosos de materiais menos densos no garimpo. Crédito: Maria Eduarda de Lima 

Mais de seis décadas depois de começar a trabalhar, ela continua indo ao garimpo quase todos os dias. Uma preocupação para os garimpeiros são as mudanças no clima, que afetam diretamente o trabalho, que depende das condições do tempo para ser feito. Maria Tereza conta que chuvas muito intensas interrompem a atividade. “Quando tá chovendo muito e eu não vou. É que não tem jeito, a gente põe a bica lá, vem aquela aguaceira e os cafés saem da bica”, explica.

12-Mineração_JúliaAguiar.jpg

Maria Tereza tem cinco filhos e ensinou todos eles a garimpar . Crédito: Júlia Aguiar

Apesar de vir de uma outra geração, Hélio da Silva, 54, compartilha da mesma relação com o garimpo mas, diferente de Wilson e Maria Tereza que descrevem principalmente o trabalho manual, Hélio acompanhou as transformações tecnológicas do garimpo. É importante lembrar que, na bacia do Rio Doce, o uso de dragas que servem para drenar, motores e demais equipamentos também são considerados trabalho tradicional de garimpo já que, como em qualquer outra área tradicional, as pessoas desenvolvem tecnologias para aprimorar a atividade. 

13-Mineração_JúliaAguiar.jpg

Atualmente, Hélio está no garimpo, mas já trabalhou como pedreiro e mecânico. Crédito: Júlia Aguiar

O mesmo território que possui riqueza mineral retirada dos rios por famílias como a de Wilson, movimenta uma das atividades econômicas mais poderosas do país. Segundo relatório do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), em 2021, Minas Gerais arrecadou R$ 4,6 bilhões em Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM), quase metade da arrecadação nacional. Cerca de 94% desse valor veio do minério de ferro, concentrado principalmente no Quadrilátero Ferrífero. Além disso, a maior parte dos municípios que mais arrecadam CFEM está no estado, incluindo cidades da Região dos Inconfidentes, como Mariana, Ouro Preto e Itabirito. Ainda segundo o relatório, o setor minerário também soma mais de 230 mil empregos diretos no país e deve receber quase US$ 77 bilhões em investimentos até 2030, mais de 390 milhões de reais. No Produto Interno Bruto (PIB) total do Brasil, em 2021, a cadeia produtiva da economia mineral nas últimas décadas variou entre 2,5% e 4% de acordo com o estudo “A extensão da cadeia produtiva da economia mineral no PIB brasileiro”, lançado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Ministério de Minas e Energia (MME). 

Mais uma das consequências desse modelo econômico é a minério-dependência.“As pessoas só se qualificam e só trabalham com aquilo. Quando o recurso natural acabar, as pessoas vão entrar em um estado de vulnerabilidade social muito grande", afirma Stennyo, analista do Guaicuy. Segundo ele, a expansão da atividade também contribui para a perda de ofícios tradicionais transmitidos entre gerações, reduzindo formas históricas de subsistência presentes no território. “Quando a mineração chega, usa a água para poder usar minério e tudo mais. Então, começa a desviar o curso do rio, o consumo da água diminui e as pessoas não conseguem mais usar essa água para os quintais produtivos, por exemplo. E aí começam a comprar alimentos de fora e perdem esse hábito de plantar em casa. Tem esse impacto na comunidade, quando a mineração chega, as pessoas perdem a soberania e a segurança alimentar”, relata. O que Stennyo deixa claro é que a mineração, principalmente na região dos Inconfidentes, atrai pessoas de fora para trabalhar na área, denominada “população flutuante” mas também se torna interesse de jovens da própria região em se capacitar e atuar na mineração ao verem esse modelo como um ápice financeiro. Assim, Minas segue renovando a sua identidade baseada em extrair.

Mais uma das consequências desse modelo econômico é a minério-dependência.“As pessoas só se qualificam e só trabalham com aquilo. Quando o recurso natural acabar, as pessoas vão entrar em um estado de vulnerabilidade social muito grande", afirma Stennyo, analista do Guaicuy. Segundo ele, a expansão da atividade também contribui para a perda de ofícios tradicionais transmitidos entre gerações, reduzindo formas históricas de subsistência presentes no território. “Quando a mineração chega, usa a água para poder usar minério e tudo mais. Então, começa a desviar o curso do rio, o consumo da água diminui e as pessoas não conseguem mais usar essa água para os quintais produtivos, por exemplo. E aí começam a comprar alimentos de fora e perdem esse hábito de plantar em casa. Tem esse impacto na comunidade, quando a mineração chega, as pessoas perdem a soberania e a segurança alimentar”, relata. O que Stennyo deixa claro é que a mineração, principalmente na região dos Inconfidentes, atrai pessoas de fora para trabalhar na área, denominada “população flutuante” mas também se torna interesse de jovens da própria região em se capacitar e atuar na mineração ao verem esse modelo como um ápice financeiro. Assim, Minas segue renovando a sua identidade baseada em extrair.

Apesar do setor mineral movimentar bilhões, o professor Alberto questiona se essa riqueza tem se convertido em qualidade de vida para os territórios onde ela é produzida. Para ele, existe uma contradição entre desenvolvimento e abundância de recursos.

“Paradoxalmente, locais muito ricos em recursos naturais, como minério, tendem a apresentar indicadores sociais, econômicos e ambientais muito preocupantes”

- Alberto Fonseca, 48, professor de Engenharia Ambiental 

Raízes de Minas

Para Danilo, o cacique Borum-Kren, a forma como o território passa a se organizar em função da extração é o problema. "Onde gerações passavam, onde tinham acesso àquela floresta, agora não tem mais. Tem uma cerca". Ele chama a atenção também para a contradição que existe na região. Enquanto a especulação imobiliária e a expansão de grandes empreendimentos têm ocupado espaços cada vez maiores, o acesso à terra se torna mais difícil para quem deseja produzir alimentos.

“Como a gente vai falar de plantio se as pessoas mal têm onde morar?"  - Cacique Danilo Borum-Kren

14-Mineração_AcervoPessoal.jpg

Atividade coletiva Borum-Kren no Dia Internacional dos Povos Indígenas. Crédito: Arquivo Pessoal

A professora de História da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), Cláudia Chaves, explica que a ocupação do território mineiro começou a se intensificar a partir do século XVII. Inicialmente, a região era percorrida por criadores de gado, sertanistas e pessoas que avançavam em busca de metais e pedras preciosas. A descoberta de ouro nos rios e encostas ajudou a atrair novos habitantes e impulsionou a formação dos primeiros arraiais, pequenos aglomerados sem autonomia administrativa, e vilas da região.

Apesar disso, ela destaca que reduzir a história do estado à mineração é um erro recorrente. Segundo a historiadora, Minas Gerais também se consolidou a partir de atividades agropecuárias responsáveis pelo abastecimento de outras regiões do país. A produção de milho, feijão, arroz, cachaça, leite, queijo e derivados da pecuária movimenta a economia mineira há séculos. “No século XIX, as minas não estavam rendendo riqueza para os mineiros, mas a agricultura e a pecuária sim. Então tem grandes riquezas que se fizeram com esse tipo de atividade”, explica.

Desde então, o setor agropecuário foi só crescendo em Minas Gerais e atualmente é um dos pilares da economia do estado e líder em exportações. Em 2025, segundo o Sistema Faemg Senar em coletiva de imprensa, o Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio de Minas Gerais atingiu o maior valor da série histórica, chegando a R$ 279 bilhões e passando a representar 24,1% da economia estadual. Além disso, mais de 60% dos municípios mineiros têm a agropecuária e as florestas entre as principais atividades econômicas. Pela primeira vez, a receita do setor agro ultrapassou a da mineração, algo simbólico para um estado com raízes tão profundas nesse setor.

Ao longo do tempo, não só grandes empresas como pequenas propriedades passaram a dividir espaço com as áreas de mineração. Ricardo Reis, 39, presidente do Conselho Municipal de Segurança Alimentar Nutricional e Sustentável de Ouro Preto (CONSEAS/OP) e Superintendente de Estudos Econômicos na Secretaria Municipal da Fazenda de Ouro Preto, lembra que “historicamente, as pessoas esquecem que em uma cidade tão populosa como Ouro Preto, para ter mineração, precisava também ter fazendas, sítios, etc. que produziam para essa população se alimentar”. Enquanto a mineração costuma ocupar o centro das discussões econômicas, centenas de famílias continuam vivendo da agricultura familiar. São elas que produzem boa parte dos alimentos consumidos na região e mantêm atividades que existem há muito tempo, mas que muitas vezes recebem menos atenção do que os outros grandes empreendimentos. Diferente do agronegócio, que opera em larga escala com foco na exportação, alta tecnologia e monocultura, a agricultura familiar em pequenas propriedades baseia-se na mão de obra do próprio núcleo familiar, priorizando a diversidade de cultivos, a sustentabilidade e a segurança alimentar abastecendo o mercado interno.

Em Monsenhor Horta, distrito de Mariana localizado a aproximadamente 20 quilômetros do centro da cidade, Célia do Carmo, 41, escolheu permanecer no campo. Há 23 anos, ela e a família vivem em uma propriedade rural onde a produção agrícola acontece em harmonia com a preservação de nascentes, árvores e mata, com uma lógica diferente da monocultura. Em vez de uma única plantação ocupando todo o terreno, espécies diferentes dividem espaço no mesmo ambiente. Célia afirma que usa o sistema de agrofloresta, um modelo de uso da terra que reúne o cultivo de alimentos com o plantio de árvores e arbustos.

15-Mineração_JúliaAguiar.jpg

Célia e seu marido Júlio participam da Feira Livre de Mariana desde 2014.  Crédito: Júlia Aguiar

Ela produz banana, mamão, graviola, mexerica, laranja, mandioca, entre outros cultivos. Nos últimos anos, passou a investir também em quitandas para serem vendidas na Feira Livre de Mariana. Célia conta que, para ela, produzir alimentos é muito mais do que só cultivar ingredientes. “Mexer com alimento é mexer com a memória das pessoas”, afirma. Muitas receitas que ela prepara utilizam fermentação natural, uma técnica que precisa de tempo e disciplina.

No entanto, as mudanças relacionadas ao clima têm tornado a preservação desses modos de vida cada vez mais difícil. De acordo com Célia, antes era possível observar as estações, planejar o plantio e prever os períodos de chuva e estiagem e, hoje, isso parece ter desaparecido. “Há 15, 20 anos atrás, tinha um ciclo que você respeitava. Você deixava passar as primeiras chuvas, aí você vinha e plantava. Dava a época pra você capinar o milho, plantar o feijão... Era uma rotina. Hoje não existe, esquece, não tem mais”, relata. Célia relembra que, em 2014, o período prolongado de seca fez nascentes perderem um volume alto de água que abastecia a propriedade e garantia água para os animais. Mais recentemente, o pior período de estiagem que enfrentou foi no ano de 2024. 

As mudanças não aparecem só na falta ou excesso de chuva, mas também na presença dos animais silvestres nos terrenos. O jacu, ave que se alimenta de grãos maduros, passou a frequentar as plantações dela com muito mais frequência nos últimos anos. “Antes a gente ainda tinha raposa e oncinha que comiam, mas ficava equilibrado. Tinha, mas não afetava tanto. Hoje tá demais, a quantidade de jacu é surreal. É você plantando e eles comendo”. Em uma região marcada pela redução de áreas naturais e pela transformação constante da paisagem, muitos animais acabam com seus habitats alterados e passam a buscar alimento cada vez mais perto de casas, lavouras e quintais. Outro fenômeno que também chamou sua atenção é o aumento das taocas, conhecidas popularmente como "formiga-correção". Segundo ela, os ataques se tornaram mais frequentes e agressivos, chegando a destruir as colméias que ela mantinha na propriedade no ano passado. Tradicionalmente, as taocas são associadas à chegada da chuva, mas agora tem aparecido em períodos de calor.

Essas mudanças que Célia observa também são sentidas por outros produtores. No distrito marianense de Mainart, Ataíde Arlindo da Silva, 36, motorista e produtor familiar, também percebe os efeitos das transformações ambientais. Ele possui uma propriedade rural herdada dos avós e, assim como seus antepassados, pratica a agricultura e pecuária em seu terreno, criando galinhas e plantando, principalmente, frutíferas, com destaque para a mexerica.

18-Mineração_AtaídeArlindo.jpg

Plantação de Mexerica em Mainart, distrito de Mariana. Crédito: Ataíde Arlindo da Silva

Secas e pragas como formigas e brocas castigam sua pequena lavoura. Dentro de sua propriedade, Ataíde possui duas nascentes, de onde ele tira a água para irrigar suas plantações e hidratar os animais. “Tem que cuidar porque para conseguir água de uma propriedade vizinha, às vezes você vai ter um gasto um pouco maior. Então se preservar ali vai durar mais tempo. Quanto mais preservar, melhor, porque a gente nunca sabe quanto vai durar, do jeito que tá o planeta, a gente nunca sabe”, explica. 

 No distrito ouro-pretano de São Bartolomeu, Pia Márcia Chaves, 66, mantém viva a tradição da Goiabada Cascão, doce caseiro destaque da localidade que é tombado como Patrimônio Cultural Imaterial desde 2008. Vinda de Belo Horizonte, Pia fincou raízes em São Bartolomeu desde seus 20 anos de idade: “Eu abracei a tradição daqui, local, que é o doce. Então essa arte doceira é uma tradição de São Bartolomeu há mais de 200 anos”.

 Para além da tradição doceira e prática da agricultura familiar e orgânica livre de pesticidas e defensivos agrícolas, Pia acompanha a sazonalidade das frutas, isto é, apenas colhe as frutas nos meses em que elas brotam das árvores. No entanto, ela conta que devido aos eventos climáticos extremos, algumas frutas demoram um mês para serem apanhadas. “Tem ano que dá muita, tem ano que de acordo com a chuva, com essa mudança climática, tá afetando muito. Jabuticaba tá dando novembro, dezembro, antes era outubro, sabe? Então, está mudando muito. As frutas, o tempo, às vezes uma fruta que uma época você colhia, agora você às vezes demora um mês, atrasa, ou colhe menos.”

Mesmo sendo marca registrada do distrito, Pia acredita que a tradição doceira pode estar com os dias contados, pois no tempo em que foram registradas as famílias doceiras eram 32, hoje são no máximo 15. “A Dona Maria mesmo, do João da Costa, tudo abandonado, ela tem dois filhos, nenhum continuou. Então, a tradição dela está acabando, está fechando, sim. Ela tem neto, o neto não continua”. A preocupação de Pia também está debaixo do próprio teto, apesar de ser mãe de seis filhos, apenas um ainda trabalha com ela aos sábados, enquanto os outros seguiram suas vidas fora da tradição. “Ele continua. Mas quando eu estiver mais velha, eu vou parando ”.

Amanda Conrado, 42, engenheira agrônoma e doutora em Agronomia de Horticultura, destaca que a agricultura familiar desempenha um papel estratégico no abastecimento dos municípios e na garantia da segurança alimentar das comunidades. Pesquisadora com atuação voltada para o desenvolvimento territorial e o fortalecimento das populações rurais, ela ressalta a importância de valorizar as práticas agrícolas locais diante dos desafios impostos pelos eventos climáticos extremos e pela expansão da atividade minerária.

A engenheira agrônoma, destaca que a agricultura familiar da região é marcada pela diversidade produtiva e pela transmissão de conhecimentos entre gerações. “é um saber primeiro do local, dessa terra que elas pisam todo dia, é uma manutenção, inclusive, que as pessoas fazem há muitos anos. Essas populações são responsáveis pela manutenção de diferentes sementes. Eu fui aprendendo muito porque isso você não aprende na universidade, mas você aprende estando no chão e escutando muitas pessoas, é a própria forma de manejo.”

Amanda alerta que a expansão da mineração e os impactos provocados por desastres ambientais têm pressionado comunidades rurais, reduzido áreas agricultáveis e comprometido modos de vida tradicionais. Nesse contexto, os saberes do território tornam-se essenciais para a preservação da biodiversidade e a construção de estratégias de adaptação às mudanças climáticas, fortalecendo sistemas produtivos mais resilientes diante dos eventos extremos.

Maurício Leonard de Souza, professor do curso de arquitetura e urbanismo da UFOP, também enfatiza a importância da agroecologia, desmistificando a máxima de que apenas uma agricultura nos moldes do agronegócio é capaz de abastecer os centros urbanos. “A agroecologia ou a agricultura orgânica é capaz de produzir alimentos para alimentar a humanidade. As pessoas sempre produziram seus próprios alimentos, e hoje com as tecnologias que a gente tem é possível ter escala. Hoje nós também vemos no Brasil o MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra], que é o maior produtor de arroz da América Latina orgânico. Nós temos milhares de possibilidades, de estudos e produções que não são visibilizadas, porque a mídia não tem interesse em mostrar esse tipo de produção e também porque eles não recebem o dinheiro adequado para investir na produção”, afirma.

Em municípios como Mariana e Ouro Preto, os desafios impostos pelos eventos climáticos extremos se somam aos impactos históricos da mineração, criando um cenário de crescente vulnerabilidade para os agricultores familiares. Segundo Maurício Leonard, a expansão da atividade minerária reduz áreas agricultáveis, pressiona os recursos hídricos, altera o ambiente e dificulta a permanência das famílias no campo. Ao mesmo tempo, a atração de empregos nas mineradoras tem provocado o êxodo de jovens, comprometendo a sucessão rural e a continuidade da produção agrícola. Apesar das dificuldades, experiências locais demonstram que a agroecologia pode fortalecer os produtores da região, ampliar a oferta de alimentos saudáveis e aumentar a resiliência das comunidades rurais diante dos efeitos das mudanças climáticas.

A cultura extrativista e extremos climáticos

Os recursos naturais são considerados a base do funcionamento da sociedade mas seu uso desenfreado inegavelmente impulsiona extremos climáticos. Em 2024, o Painel Internacional de Recursos do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, em seu relatório “Perspectivas Globais de Recursos”, classificou o extrativismo como o principal impulsionador da chamada tripla crise planetária, composta pelas mudanças climáticas, pela perda de biodiversidade e pela crise de poluição e resíduos. Os dados mostram que a extração de recursos, entre eles, o minério, e a posterior transformação em matéria geram mais de 55% das emissões de gases de efeito estufa e 40% dos impactos à saúde relacionados às partículas em suspensão, pequenos poluentes que permanecem no ar e podem ser inalados. Além da extração e do processamento dos recursos, quando se considera também o desmatamento e outras mudanças no uso da terra, a contribuição para as emissões de gases de efeito estufa passa de 55% para mais de 60%. Quando o assunto é agricultura ou silvicultura, ou seja, cultivo de árvores para fins comerciais, pode se dizer que são os responsáveis por mais de 90% da perda total de biodiversidade e do estresse hídrico relacionados ao uso do solo.

O estudo ainda deixa claro que a principal questão não é mais se uma transformação em direção ao consumo e à produção de recursos sustentáveis globais é necessária, mas como fazer isso acontecer agora. No caso dos recursos finitos, há um limite incontornável e a sua exploração contínua impede a sustentabilidade em sentido pleno. Quando se pensa nessa discussão envolvendo a transformação da cultura extrativista e a minimização de impactos ambientais, o que está em disputa é a própria ideia de futuro. Minas Gerais construiu parte de sua riqueza a partir da exploração de recursos naturais, mas também tem marcado em sua história culinária, patrimônio cultural, atividades turísticas e saberes tradicionais de relação com a terra. Diante do avanço das mudanças climáticas e da expansão contínua das atividades extrativas, a pergunta é: que outros caminhos são possíveis para um estado que aprendeu a se reconhecer, antes de tudo, como uma terra de exploração?

A exploração de recursos naturais no Brasil

Ativo 1branco 4.png

A Curinga é um produto editorial da disciplina Laboratório Integrado II: Grande Reportagem Multiplataforma, elaborado por estudantes do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto. Confira a edição 41: Eventos Extremos e Resiliência Climática.

bottom of page