
As margens do território como patrimônio do cotidiano
A cidade de Mariana para além do patrimônio consagrado nos cartões-postais
André Luís Costa, Arthur Marques, Larissa Rimulo, Marcus Borges e Thácila Vasconcelos
A cidade histórica de Mariana, para além dos seus monumentos do passado colonial, foi e ainda é construída pelas pessoas que a movimentam diariamente. São elas que revelam os usos dos espaços, constroem vínculos, produzem memórias e mantêm viva a dinâmica da cidade, que muitas vezes, o olhar turístico não alcança. O centro tombado concentra as narrativas oficiais, enquanto nas periferias a vida cotidiana se revela em sua complexidade, marcada por trabalho, cultura, tradição, afetos, e resistência.
Nos bairros Santo Antônio — popularmente conhecido como Prainha — e Cabanas, essa dimensão se torna evidente. Essas regiões, apesar de historicamente marginalizadas, guardam histórias fundamentais para compreender a formação da cidade.
O desenvolvimento inicial da cidade, não ocorreu somente onde hoje está o Centro Histórico. Os primeiros bandeirantes desembarcaram no bairro Santo Antônio, território que abriga a primeira capela de Mariana. Esse marco inicial também integra a rota turística da cidade, mas embora fundamental, não recebe o devido destaque e preservação, destacando a centralidade de narrativas coloniais ao longo do tempo.

Kênio, morador da Prainha, com uma pepita de ouro na mão, nos lembra que o garimpo ainda marca a memória, a identidade e permanência de muitas famílias em Mariana. Foto: André Luís Costa
A declaração de Mariana como Monumento Nacional, em 1945, reforçou a ideia de memória coletiva, ainda que não tenha contado com participação popular. Essa ação foi baseada em uma leitura modernista que buscava fixar a identidade nacional em símbolos coloniais, tidos como “obras de arte”. A escolha valorizou igrejas, casarões e edifícios públicos do período setecentista, mas desconsiderou moradias simples ou não construídas de acordo com tais padrões.
Os impactos disso vão além de questões arquitetônicas. Famílias que não podiam arcar com as restaurações exigidas, foram obrigadas a se deslocarem, ocupando as áreas em torno do Centro Histórico, constituindo uma nova concepção da cidade.
Porém, foi na década de 1970, com a chegada das grandes mineradoras, que a geografia urbana mudou significativamente. O perímetro urbano se expandiu sem planejamento, dando origem a bairros como Cabanas, Morada do Sol, Jardim dos Inconfidentes, Vila Maquiné, entre outros. Ao mesmo tempo em que a economia se expande, a desigualdade de classe e racial passa a se tornar um fator determinante na distribuição das pessoas em diferentes áreas do município.
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A Prainha e o Cabanas seguem em expansão. Bairros que continuam crescendo, abrindo novas ruas, casas e formas de viver a cidade. Foto: André Luís Costa
Pesquisadores da área urbana apontam que a segregação não acontece por acaso dentro da cidade. O urbanista Flávio Villaça, no livro Espaço intra-urbano no Brasil (2001), afirma que “os bairros das camadas de mais alta renda tendem a se concentrar numa mesma região da cidade, e não se espalhar aleatoriamente”. Em Mariana, esse processo se materializa no Centro Histórico, que funciona como uma espécie de “bolha” socioespacial. Na mesma linha, o geógrafo Tadeu Arrais, no livro Seis modos de ver a cidade (2017), afirma que é no cotidiano que as relações urbanas se estabelecem, e que a imagem da cidade se forma, o que permite compreender que as percepções sobre os diferentes espaços urbanos são construídas a partir das experiências vividas no dia a dia.
Apesar da pequena distância geográfica entre o Centro Histórico de Mariana e os bairros Cabanas e Prainha, o sentimento de pertencimento dessas comunidades em relação ao centro é reduzido, evidenciando uma separação social que se constrói e se mantém ao longo da história da cidade.

Da Igreja de Santo Antônio da Prainha, o olhar alcança o bairro Rosário e revela um contraste que vai além da paisagem. Foto: André Luís Costa

O Cristo do Cabanas é um marco de fé e pertencimento no bairro. Mesmo não sendo tombado como patrimônio oficial, integra a memória e a identidade de quem vive nas periferias de Mariana. Foto: André Luís Costa
O senso de identidade, memória e comunidade das populações periféricas, reside em seus respectivos territórios, pois é a partir do contato com suas raízes, que moradores da Prainha e do Cabanas se constituem como sujeitos críticos, conscientes de suas realidades e conectados com a arte, a cultura e a história do seus bairros.
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No Cabanas, a oficina de grafite transforma o espaço cotidiano em lugar de expressão. Foto: André Luís Costa
O documentário Margens do Território é construído a partir dessas vozes, propondo um deslocamento do olhar, saindo do patrimônio consagrado dos livros de história, dos reconhecimentos governamentais e dos roteiros turísticos, para o patrimônio do cotidiano, vivido e narrado por quem constrói a cidade todos os dias.
A produção busca revelar uma outra história de Mariana enquanto acompanha a trajetória desses moradores, trazendo jornadas feitas de memórias, afetos, trabalho e resistência, e também investigando como essas populações se relacionam com a cidade histórica.
A narrativa convida o público a refletir sobre pertencimento, desigualdade e sobre quem, entre centros e margens, tem sua história reconhecida como parte do patrimônio da cidade.

