
Caminhos da Resiliência
A pesquisadora em clima e agrometeorologia, Ana Ávila, reflete sobre os desafios das mudanças climáticas, sem perder de vista a esperança e a importância da ação coletiva.
Helena Paz e Julia Zago
“Os eventos extremos não vão ocorrer todos agora, o mundo não vai acabar.” A afirmação de Ana Ávila nos faz refletir sobre a complexidade de comunicar a crise climática. Hoje, o fluxo intenso de informações a respeito da temática ambiental ainda há lacunas que, muitas vezes, geram mais ansiedade do que esclarecimentos sobre o tema.
A Revista Curinga convidou a professora Ana Maria Heuminski de Ávila, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), especialista em meteorologia e colaboradora do Primeiro Relatório de Avaliação Nacional do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), para refletir sobre o tema deste dossiê: os eventos extremos e a resiliência climática.
Na agrometeorologia, sua principal área de atuação, à urgência da autopreservação, a professora nos mostra caminhos para entender o papel da ciência e da comunicação nesse contexto. Ela pontua perspectivas sobre o tema partindo de uma coletividade otimista, mas sem perder as oportunidades de mudança. “Temos que falar de todas essas questões, enfrentar todas essas situações, mas a gente não pode perder a alegria.”
Com a resignação de quem estuda os dados do clima há décadas, a pesquisadora nos trouxe uma conversa franca sobre os maiores desafios do nosso tempo. “Hoje a gente entende que as mudanças climáticas são inevitáveis para toda forma de vida”. Mesmo não sendo um assunto agradável, a entrevista com Ana Ávila deixa clara a importância do trabalho conjunto, lembrando que as mudanças climáticas e os eventos extremos atravessam diferentes áreas do conhecimento, da medicina até a engenharia agronômica.
Revista Curinga: Como a facilidade atual na transmissão de informações influenciou a divulgação do termo “Super El Niño”? O que esse fenômeno significa cientificamente e quais são seus impactos reais nas diferentes regiões do Brasil?
Ana Ávila: É importante ressaltar que essas informações vêm junto com a disponibilidade de transmissão de dados. Hoje se comunica tudo com muita rapidez, na época que eu fiz a minha faculdade, tínhamos muitos desafios com relação à rapidez na transmissão dos dados e o sistema computacional. Então, tudo isso melhorou paralelamente às informações meteorológicas. O Super El Niño é uma informação que circula em todas as redes, todos os dias, em todos os momentos.
Na verdade, ele é um evento natural do clima, não é um evento provocado pelas mudanças climáticas, é um evento historicamente já existente. A expressão “Super El Niño” tem muito a ver com a mídia, porque em termos técnicos científicos se classifica o El Niño como fraco, médio, moderado ou forte.
O Super El Niño vem dentro dessa categoria de forte quando a temperatura do Oceano Pacífico atinge um valor alto. Historicamente, houveram três ou quatro que temos conhecimento. Ele afeta o Brasil e é cientificamente comprovado que tem uma influência direta no Sul e no Nordeste. No Sul com bastante chuva, e na primavera do ano de formação do fenômeno no ano um, e no outono do ano dois. Temos um El Nino se formando agora, o ano um. A chance é que a primavera seja com chuvas acima da média e o outono pode ter o que chamam de repique, que é o ano dois, na região Sul.
No Nordeste acontece a redução das chuvas, historicamente é uma região onde o clima é seco, e tende a ser mais seco do que o normal. Chove menos na região Nordeste, no Leste e no Norte da região Norte também. Na região central muitas vezes, em ano de El Niño, as frentes frias ficam no Sul, retidas por vários dias, com chuvas. Não avançam aqui para a região central, principalmente Sudeste e Centro-oeste, com isso a temperatura aumenta muito.
E também uma outra questão importante é o aquecimento das águas do Pacífico, que é o maior oceano do planeta. É um bolsão muito grande de água quente, e a água estando mais quente, sempre acaba influenciando no clima. A gente já tem o aumento das temperaturas médias no planeta em função do aquecimento global nos últimos anos, por isso tem esse aumento das temperaturas.
RC: Quais culturas agrícolas correm mais risco de perder áreas, ter seu modo de cultivo transformado ou de mudar seu local, por conta do El Niño?
AA: O El Niño é um evento que ocorre e depois volta a uma condição normal, não é uma mudança, é uma variabilidade climática. Você tem mais risco com relação à agricultura, tanto é que artigos científicos mostram uma tendência de queda na economia, tanto na quantidade quanto na qualidade da agricultura. O Brasil é um país agrícola e em anos de El Niño, temos uma tendência na redução na produção agrícola. Mas é uma variabilidade.
Quando falamos em mudanças climáticas existe um padrão climático que vem mudando nos últimos anos com o aumento das temperaturas. Inclusive, o Centro de Pesquisas Meteorológicas (CEPAGRI) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) foram pioneiros em fazer pesquisas nesse sentido, de que quando há aumento das temperaturas vai ter uma mudança na geografia agrícola.
O Zoneamento Agrícola de Riscos Climáticos (ZARC), que mostra uma geografia agrícola e as mudanças climáticas, e o modelo que simula o clima futuro, que tende a mostrar uma mudança no clima (sobretudo um aumento das temperaturas e um risco maior com relação às chuvas), impactam na produção agrícola. Algumas culturas tendem a migrar para áreas que hoje não tem o potencial produtivo ou para regiões mais altas, onde teriam um potencial de produção em função de que esses locais não têm uma temperatura tão elevada. Então, tende a aumentar a temperatura futuramente, já está 1,5 grau na média do planeta e a tendência é continuar esse aumento. Com isso, algumas culturas potencialmente produtivas hoje em determinadas áreas podem deixar de ser produtivas em função da restrição térmica ou hídrica. Elas tendem a migrar para áreas que hoje tem uma limitação por conta do frio, e pode ser uma região apta futuramente.
RC: O que é o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC)?
AA: Imagina a cidade de Ouro Preto como se não tivesse lei nenhuma. Você anda de carro, a pé, de moto como você quiser, atravessa a rua sem farol, do jeito que achar melhor. Era isso que a gente tinha na agricultura antes do Zoneamento Agrícola de Riscos Climático (ZARC). Os agricultores plantavam o que queriam, na época que eles queriam e isso tinha um custo enorme para o governo, porque ele tem uma responsabilidade se caso você perder a sua safra, existe um seguro para agricultura, principalmente para agricultura familiar. Existia uma falta de orientação e o ZARC veio como uma forma de criar normas baseadas nos dados.
Sabemos que a agricultura depende 100% do clima, você pode controlar o solo, a parte da tecnologia, fazer da melhor forma para se adequar ao seu plantio e a sua cultura, mas o clima você não controla. E quando você define que existem áreas que têm uma limitação térmica e hídrica, você passa a orientar de forma que os agricultores possam plantar na época que é indicada. A partir disso, o ZARC veio como uma orientação e virou uma política pública que os agricultores precisam para receber o seguro agrícola.
RC: Desde a sua colaboração no Painel brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), quais tendências se confirmaram ou não se confirmaram? Você observa novas tendências que não foram identificadas pelo PBMC?
AA: O painel do IPCC é um painel global, o brasileiro se debruçou sobre as questões do país, foi muito gratificante participar, porque os diversos cientistas estavam lá e discutiram junto com a gente. O painel brasileiro e o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) não fazem as pesquisas, eles juntam as pesquisas que são publicadas e divulgadas, fazem uma compilação das publicações. O estado da arte, por exemplo, com relação aos recursos hídricos, à costa brasileira, os oceanos, os corais, a limitação do aumento das temperaturas e a acidificação dos oceanos, a questão agrícola, a produção de animais (o gado, aves, a produção de ovos), tudo isso com esse impacto das mudanças climáticas no país.
O que chama atenção, é que naquela época [da construção do relatório] não tínhamos ideia de que nessa década já estaria em uma situação com tanto calor. O que se vive hoje em termos de extremos, o impacto do aumento das temperaturas e as e as próprias temperaturas, adiantou um pouco. A mudança climática também envolve, por exemplo, a questão da mudança de uso e ocupação da terra, a urbanização, as pessoas que vivem em áreas urbanas também impactam no seu microclima. E isso, de forma geral, está um pouco à frente daquilo que esperávamos nos modelos simulados depois da década de trinta e quarenta, e isso de forma geral, não só para o Brasil, mas global.
RC: Como você explicaria a pesquisa meteorológica e climática para o público leigo?
AA: É um desafio, acho que essa é uma questão multidisciplinar e é muito importante usar as linguagens da comunicação. Até as diferentes formas de linguagem, por exemplo, você pode chegar numa pessoa que não ouve, como você se comunica com uma pessoa que não enxerga? E a pessoa que não lê, muitas pessoas não leem. Então você tem que usar de simbologias que façam ela se interessar por aquilo. Quando a gente fala do clima, dos eventos extremos, das mudanças climáticas, do aumento da temperatura, não estamos falando de coisa boa. São coisas que não são agradáveis para uma pessoa que está numa área de risco, porque ali existe o risco dela, da família, de tudo que ela tem, ser continuamente perdido por enchentes e deslizamentos.
Não é uma coisa boa e isso não atrai. As pessoas gostam de ouvir coisas boas, coisas que que vão deixar elas confortáveis como elas estão. É um exercício muito importante que deve ser realizado, é uma forma diferente de comunicar e de atrair a informação, um diálogo simples.
“Precisamos falar simples porque muitas vezes falar difícil não é falar melhor, você precisa falar o que as pessoas entendam. A forma de comunicação é muito importante.”
AA: Muitas vezes, os cientistas não treinam isso porque não é a área deles. Então vai para o jornalismo que vai estar traduzindo aquela linguagem de forma comunicativa para que as pessoas se sintam informadas. Eu trabalhei na TV como meteorologista apresentando, e não é permitido você falar em termos difíceis da meteorologia. Eu posso dizer que vai ter uma chuva intensa, um evento severo, de uma forma simples que você entenda. E nem por isso eu tô falando com menos propriedade, a comunicação é um desafio que deve ser perseguido.
RC: Como você enxerga a relação dos eventos extremos e a resiliência climática com educação ambiental, principalmente focada nas escolas, nos anos do Ensino Fundamental?
AA: As crianças levam para dentro de casa, porque muitas vezes os adultos acham que é bobagem. Uma coisa muito simples, por exemplo, é a reciclagem do lixo. As pessoas mais velhas reciclam errado, não têm interesse e acham que é bobagem. E as crianças não, elas vão pensar: “Eu consigo fazer na minha casa e eu vou estar contribuindo”. E se sentem inseridas no contexto. Elas levam para casa e dizem: "Não, espera aí, vamos fazer diferente em casa. Vamos mudar”.
Eu acho que por isso a ideia de atrair as crianças, atrair com coisas que façam elas memorizarem, com jogos, com aplicativos de celular. Hoje a criança já aprende a falar e ganha o celular. Então, de repente, um aplicativo, algumas coisas que podem fazer com que ela faça e aprenda essa comunicação.
RC: Quais assuntos sobre mudanças climáticas carecem de informações mais detalhadas? O que poderia enriquecer o conhecimento de estudantes e de professores?
AA: Eu entendo que os professores também não sabem. Eu participei de um curso de treinamento aqui da Unicamp e fiz parte do primeiro dia da abertura do evento. Você faz uma pergunta, as pessoas não sabem. Você pergunta como é a sua região? O que você entende na sua região em termos de clima? As pessoas têm uma ideia de que o clima é uma coisa muito abstrata. Então, o clima é uma coisa muito distante para as pessoas. Elas têm que interiorizar isso, tem algumas metodologias que trabalham com o toque. Então, por exemplo, você representa o vento, representa a chuva, o orvalho, a umidade, a temperatura, e a pessoa enxerga, aí ela começa a entender aquilo. Quando chove, o que é chover cinco milímetros e o que é chover 50 milímetros? De repente você mora em um bairro no topo da montanha ou você mora na base, próximo ao rio, o que significa isso?
Antes as pessoas viviam na área rural, no campo e elas observavam. Tanto é que a meteorologia é a ciência mais antiga porque as pessoas aprenderam que elas precisavam caçar, precisavam pescar e elas tinham que observar o céu, o vento, a direção. Nós perdemos isso por conta da própria urbanização. A imprensa fala de forma massiva do El Niño. Mas você sabe o conceito de El Niño? É muito fácil eu chegar na mídia e falar: "Nossa, a gente tá com um evento que pode ser igual ou mais severo do que aconteceu em 2024. O Rio Grande do Sul teve aquela tragédia, isso pode se repetir.” Para mim, apesar de eu ser gaúcha, eu não estou lá, eu estou aqui [em Campinas], e quem está lá? E quem depende do plantio para sobreviver, que perdeu tudo, que muitas vezes nem se recuperou, que perdeu a identidade. Você perde o documento, perde a casa, perde tudo, perde o livro, perde a fotografia do casamento, do nascimento do filho, de tudo, você perde, acabou, não tem mais. Você é hoje uma outra pessoa que tem que renascer.
Aí de repente falam para você: "Aquele evento que aconteceu, ele pode acontecer na mesma intensidade ou até pior". Para uma pessoa assim, ela vai ouvir isso e não vai ficar tranquila.
Estamos pensando sobre isso que pode acontecer, porque já tiveram outros eventos severos, já teve El Niño que não era em ano de El Niño, e também teve El Niño que não teve tanto impacto assim. Então, a gente tem que ter um pouco de cuidado com essa forma de falar, a informação é muito importante que ela seja passada de forma séria. Porque é sério, a meteorologia é uma ciência séria.
RC: Como a educação e o jornalismo podem ajudar a espalhar orientações de emergência em caso de desastres?
AA: Os eventos extremos não vão ocorrer todos agora, o mundo não vai acabar. Mas vão acontecer, pode ser esse ano, pode ser o ano que vem. Vão acontecer porque eles vêm acontecendo com mais frequência. A ideia é preparar as pessoas para saber o auto-salvamento, as pessoas têm que entender a linguagem. Se ela mora lá no beira do rio, na beira do barranco, pode deslizar e ela tem que entender.
Tem uma outra questão: a pessoa mora lá no barranco, está caindo, mas ela só tem aquilo ali, é a casa dela, os filhos dela, ela cresceu ali, ela vive ali. Porque antes não tinha tanta área urbana, foi mudando ao longo dos anos, a população aumentou, a cidade aumentou e a cada ano você precisa se preparar para o evento de seca e para os eventos de chuva.
Se hoje tiver um evento extremo, para onde essas pessoas vão? Quais os abrigos que elas vão ficar? Que condição essas mulheres e essas crianças têm? O Sul foi um exemplo, os abrigos tinham estupro, tinham assédio. Primeiro os mais vulneráveis, vai o vovô, a vovó e a criança para um abrigo X. Daqui um tempo vai o papai e a mamãe para o abrigo Y. Como é que fica isso? É uma questão de preparação para os eventos. Se hoje tiver uma chuva de 500 milímetros em Ouro Preto, o que pode ser feito? Essas pessoas vão para onde? Qual é a segurança que elas têm?
Tem áreas onde as pessoas vão ter que sair porque é de alto risco, é um assunto que é multidisciplinar, não é simples, por isso que eu falo logo no começo, não é um assunto agradável. Ninguém quer ouvir isso, mas é necessário dar a informação. “Se chover tanto, não adianta, você precisa sair, você precisa já planejar o que você vai levar”. Talvez o poder público possa informar, a Defesa Civil possa de alguma forma trabalhar para construir um espaço seguro, para você ter um pouco de condição e de dignidade.
RC: Faltam políticas públicas?
AA: O Brasil não é um país onde a gente tem eventos severos como tornados, furacões, como os Estados Unidos. Estamos trabalhando com esses eventos nos últimos anos, porque eles vêm acontecendo mais frequentemente. Houve uma migração das pessoas para as áreas urbanas, os eventos estão acontecendo com mais intensidade e mais frequência.
A gente tá aprendendo, todos os eventos severos que aconteceram trouxeram alguma lição e a partir dali foram feitas algumas iniciativas. Ainda tem muito para fazer e não estamos preparados. Às vezes os eventos realmente são muito intensos, são muito devastadores. E cada local é um local, eu não vou levar o que eu desenvolvi para Campinas e aplicar em Ouro Preto. É outra geografia. Apesar de ter o global e o nacional, cada local tem a sua forma, a sua comunicação.
Como as pessoas se comunicam no bairro, como que elas começam a observar, por exemplo, uma régua de um rio que está crescendo.“Olha, quando chegar nesse nível aqui precisa sair. Porque rapidamente ele pode subir e alagar tudo.” Então, essas coisas todas são muito locais.
RC: Pensando na dimensão geográfica do Brasil, como você avalia a distribuição das estações de monitoramento meteorológicos. A quantidade de estações é suficiente?
AA: Tem um número maior de estações dos órgãos nacionais e dos órgãos locais que têm sido instaladas. Mas tem uma questão: essas estações que estão sendo implementadas estão funcionando corretamente? Porque instalam e esquecem. Na hora não estava funcionando a estação, estava chovendo, choveu a noite inteira, acumulou, mas a estação não tava medindo. Precisa de cuidado, acompanhamento e de controle de qualidade desses sensores.
RC: Você diria que é falta de investimento?
AA: Sim, também, porque é caro. É caro comprar e é caro manter. Porque às vezes você acha: "Eu comprei e está instalado". Mas a manutenção é cara e precisa de gente especializada. Não é barato, é um investimento.
RC: Como esse monitoramento pode ajudar a gente a aderir à resiliência climática?
AA: Você precisa ter o monitoramento para você saber o que uma régua no rio está medindo e qual é o nível crítico dela, o nível que a partir daquele ponto, tudo pode acontecer. Você só vai saber disso se você tiver o monitoramento e o conhecimento. Às vezes é um conhecimento simples daquela pessoa que vive ali, não precisa ser de um especialista.
“A pessoa que vive ali, ela conhece, acompanha e sabe. Existe o pensamento de: "Nossa, eu preciso levar para a comunidade muito conhecimento”, mas a comunidade tem mais conhecimento para a gente.”
RC: Como alcançar a resiliência nesse contexto de mudança do clima que a gente vive?
AA: Eu entendo que é um conjunto de coisas. Acabamos de falar da questão do monitoramento, de você se cercar de informações para você ter uma referência, e não um achismo. Uma outra questão é o calor, o calor está matando gente. No Brasil, as ondas de calor estão mais intensas e mais frequentes. E dentro das casas, às vezes, não tem condição alguma de ventilação por ter telhado baixo ou teto baixo, por exemplo. A pessoa está ali e está 30 graus, 40 graus. Então, você precisa ter esse monitoramento para entender um pouco.
Paralelo a isso, você se prepara. É um conjunto de informações técnicas e um planejamento de curto, médio prazo que vem do poder público, também. Na contramão de tudo isso, tem o poder econômico, com a exploração de áreas que não deveriam ser habitadas, áreas de mananciais, áreas de rio em que há um aterramento para construção, as áreas de morro. E você pensa: "Não, é o pobre que tá indo para lá, porque não têm opção". Sim, é o pobre que tá indo lá porque ele não tem opção. Ele não vai porque ele quer, ele vai porque não tem onde ir.
Por outro lado, a área nobre também deveria ser preservada para que não aumentasse o risco de alagamento nos outros lugares. Mas o poder econômico é muito forte e sempre foi. É um um desafio. Para se ter a noção de que uma determinada área não deve e não vai ser habitada, existe um abismo entre o real e o ideal.
RC: Grande parte dos congressos e conferências sobre clima, onde são tomadas decisões, é conduzida por políticos. Você acredita que possa haver uma mudança nesse sistema para melhorar a votação e a tomada de decisões?
AA: Eu sempre ouço de pessoas que estão mais à frente, os líderes, que isso em algum momento vai doer no bolso. E já dói, só que isso muitas vezes não é contabilizado, e para mudar o padrão atual, não tem outra saída a não ser pesar no bolso. Porque a ciência está mostrando, mas não é interessante, não é conveniente e é caro. É um investimento longo, não é algo a curto prazo.
“A ciência mostra, mas para a política não é interessante, não traz retorno para aqueles que estão no poder.”
AA: Então, perceba que é mais fácil encontrar iniciativas mais regionais e locais que são até desconsideradas, mas que as pessoas de alguma forma estão se organizando até sem saber. Elas estão fazendo o que a gente fala nas agendas internacionais e dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). As pessoas não têm nem informação sobre isso, mas de alguma forma elas estão se organizando porque elas sabem que quando vem o evento extremo elas têm que se organizar para passar por tudo aquilo, porque muitas vezes não vai chegar até elas o recurso necessário.
RC: Como agricultores familiares, que têm menor acesso a estudo e assistência técnica, podem usar informações meteorológicas para melhorar o cultivo e enfrentar eventos climáticos extremos?
AA: Alguns deles já estão em busca de mais informação em forma de cooperativa e essa talvez seja a forma mais rápida de acesso. Porque muitas vezes a técnica utilizada já está ultrapassada, mas não há uma tentativa de atualização. E se você for perguntar para os produtores, já existe uma ideia clara de que o que se produz hoje tem mais risco, mais pragas e mais doenças. O que se plantava numa determinada época, já dá para ver que não é mais daquele jeito, que já não chove mais como chovia. Eles têm um pouco de percepção sobre isso, mas muitas vezes eles são mais resistentes às mudanças, em aceitar as informações. Então, entra a forma de comunicação, porque você se comunicar com um agricultor é diferente de se comunicar com uma criança na escola.
