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Onde mora o risco

Cada vez mais inconstante e forte, o fenômeno natural se transforma em insegurança para moradores da Região dos Inconfidentes

Ana Beatriz Justino, Bianca Gonçalves, João Pedro Nepomuceno e Laira Ferreira

Chuvas cada vez mais intensas e imprevisíveis têm transformado um fenômeno natural em motivo de medo para moradores de áreas de risco da Região dos Inconfidentes. Em Mariana, Ouro Preto e Itabirito, enchentes e deslizamentos afetam comunidades que convivem com a vulnerabilidade urbana e a insegurança. Em resposta a esse cenário, obras de infraestrutura e ações preventivas vêm sendo realizadas para reduzir os impactos das chuvas, embora nem sempre evitem novos transtornos. A Revista Curinga conversou com pessoas atingidas de diferentes formas pelas chuvas, nas três cidades.

“É duas coisas que a gente não brinca: água e fogo. Brinca não, que eles levam mesmo. Leva, mas leva com força”. Esse é um trecho da conversa com Nozinho Ramos, 60, morador de Mariana. Ele vive no bairro Barro Preto há 59 anos, uma região que sofre com as enchentes do córrego do Saldanha, como aconteceu em janeiro de 2026.

Um pouco antes da cheia mais recente, também em janeiro de 2026, foi inaugurada  a bacia de contenção e amortecimento que tem como objetivo evitar o alagamento dos bairros Barro Preto e Morada do Sol. Em fevereiro a câmara municipal aprovou a Lei nº 4.079/2026, que cria um auxílio financeiro emergencial para os atingidos pela chuva de janeiro deste ano residentes na Travessa Monsenhor Rafael.

Imagem aérea mostra obra de contenção e drenagem construída em um córrego, próxima a residência e via de circulação.

A bacia de contenção é uma das ações para sanar o problema dos alagamentos na região. Mesmo com a obra, casas ficaram alagadas na chuva de janeiro. Crédito: Lui Pereira/Agência Primaz

Se em Mariana o principal problema está relacionado às enchentes, em Ouro Preto o medo está concentrado nos deslizamentos de terra. Rosely da Costa, 49, é residente do bairro Taquaral há 30 anos. “O Taquaral já é condenado na boca de outras pessoas. Você acredita que já ouvi falar isso?”. A fala de Rosely revela que o problema não é apenas o risco de deslizamentos. O bairro é conhecido pelas áreas de risco, o que reforça a sensação de abandono entre os moradores. O local tem a maior concentração de áreas de risco do município, sendo possível observar a mancha de área de risco pelo aplicativo da Defesa Civil.

Captura de tela do aplicativo da Defesa Civil de Ouro Preto mostra mapa de áreas de risco, em tons laranja e vermelho. Um painel informa que o município está em estado de observação e exibe dados de monitoramento de chuva.

A mancha em vermelho representa a área de risco do bairro Taquaral. Créditos: reprodução aplicativo da Defesa Civil de Ouro Preto

O solo da Serra de Ouro Preto, onde está localizado o Taquaral, possui uma formação rochosa em camadas conhecida como foliação, que pode favorecer deslizamentos em terrenos íngremes, explica Eduardo Evangelista, engenheiro civil e mestre em geologia. Porém, a ocupação irregular e a falta de políticas públicas de planejamento urbano integrado dificultam a permanência da comunidade.

Em 2022, mais de 80 famílias foram removidas de suas casas por causa do risco. Em 2024, o atual prefeito, Angelo Oswaldo, assinou o decreto de indenização de mais de seis famílias para desapropriação e posterior demolição de suas residências. Essa iniciativa é uma das ações da Regularização Fundiária Urbana (REURB) no bairro. Os entulhos das demolições permanecem na região e as casas que ainda não foram demolidas se tornam um problema de segurança pública. Outros moradores que não foram removidos e indenizados permanecem com a insegurança durante o período das chuvas.

A realidade vivida no Taquaral também evidencia como os impactos das chuvas atingem de forma desigual diferentes grupos da população. Nos bairros periféricos, essa vulnerabilidade é agravada por desigualdades de classe e raça. O racismo ambiental é uma forma de discriminação contra grupos minorizados socialmente que não apenas sofrem mais com eventos climáticos extremos, mas são excluidos “do acesso pleno à cidadania e ao território”, segundo Celiane Xavier, arquiteta e doutora pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). 

A formação social brasileira, desde o período colonial, corrobora com a formação do espaço urbano, produzindo vulnerabilidade socioambiental. “Quando a gente olha para o território, por exemplo, de favelas ou áreas mais periféricas das cidades, a gente está olhando para uma população que não teve outra escolha, senão aquela para morar, para existir. E, em regra, até hoje, esses são locais que recebem pouco ou quase nenhum suporte do poder público para a melhoria das condições de vida que existem ali e de existência mesmo dessas populações”, afirma a arquiteta. 

Imagem aérea mostra terreno com escombros de casas demolidas no bairro Taquaral, em Ouro Preto, cercado por residências, vegetação e vias de acesso.

O entulho das casas desapropriadas e demolidas no bairro Taquaral não foi retirado, trazendo riscos de doenças para a comunidade. Crédito: Lui Pereira/Agência Primaz

Também em 2022, em Itabirito, as consequências das chuvas deixaram marcas profundas na vida da família de Lucas Braz, 38, residente do bairro Santa Rita que perdeu a casa em que cresceu. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia, o início do ano de 2022 registrou um alto índice de chuva no começo do mês de janeiro, que percorreu uma grande faixa central do estado de Minas Gerais. O bairro Santa Rita, que não é conhecido por ser atingido pelas inundações do rio, como o centro da cidade, teve problemas por causa de uma obra de encanamento. Lucas e sua família perderam a casa, as memórias e os bichinhos de estimação, mas não estavam em casa no momento do deslizamento. “A minha filha, que estava com cinco anos, não pode escutar a chuva que já fica com medo. Isso porque ela não estava no local”. Histórias como a de Lucas refletem desafios que especialistas apontam como resultado da forma como as cidades foram planejadas e ocupadas ao longo do tempo.

A Região dos Inconfidentes, composta por Mariana, Ouro Preto e Itabirito, são espaços, segundo Celiane Xavier, a arquiteta, com tendência a um aumento de ocorrências de desastres climáticos intensos. “O relevo da região, muito acidentado, muito íngreme, e um solo que em algumas circunstâncias, em alguns níveis de inclinação, ele pode se tornar muito instável, como já aconteceu muitas vezes, e esses fatores trazem complexificações para a questão urbana”.

Mariana e Itabirito possuem especificidades em sua ocupação, já que as residências acompanham as margens do rio. Segundo Eduardo Evangelista, engenheiro civil, a chuva na nascente ou no vale do rio faz com que ele retome ao seu lugar original. “Ocuparam a margem do rio sem esse planejamento, então o rio sempre vai tomar o lugar dele de volta”.

Para que os eventos climáticos extremos tenham menos impactos nas comunidades, a arquiteta sugere que é preciso superar a separação entre cidade e meio ambiente, adaptando características da natureza na construção e planejamento dos espaços. “Existem caminhos, por exemplo, jardins de inverno, outros tipos de pavimentação que não cimento, que permeabiliza o solo, jardins lineares, corredores urbanos, parques e, de um modo geral, o uso de infraestrutura verde,” são sugestões de Celiane para tornar o espaço urbano um pouco mais adaptado às intensidades climáticas.

Porém, o Censo brasileiro de 2022 evidencia que o Brasil tem muito a percorrer para contribuir para o conforto climático da população. Os dados apontam que mais de 28 milhões de localidades não possuem bueiro ou boca de lobo e mais de 20 milhões não possuem nenhuma árvore próximo às residências. A falta dessas características podem afetar a capacidade dos centros urbanos de oferecer à população um espaço seguro para atravessar chuvas cada vez mais intensas.

Entramos em contato com o Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Itabirito, mas não obtivemos respostas sobre a obra realizada próxima a casa atingida em Itabirito. As secretárias de Defesa Civil de Ouro Preto e Itabirito também foram contatadas, mas não responderam nossas mensagens. 

Como se salvar em uma situação de risco

Segundo André Machado, defensor civil da cidade de Mariana, existem orientações a serem tomadas quando se está em uma área de risco durante uma chuva forte.

  • Retire-se do local e busque um lugar seguro; 

  • Durante chuvas evite passar por áreas de alagamento;

  • Se a água estiver passando da metade da roda, não siga em frente;

  • Caso não consiga voltar, mantenha os vidros abertos. Se não conseguir mais baixa-los, retire o encosto de cabeça do banco e quebre os vidros;

  • Suba no teto do carro caso a água suba muito;

  • Em situações extremas, entre em contato com os bombeiros militares pelo número 193.

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A Curinga é um produto editorial da disciplina Laboratório Integrado II: Grande Reportagem Multiplataforma, elaborado por estudantes do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto. Confira a edição 41: Eventos Extremos e Resiliência Climática.

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