
O som e a cidade
O que a paisagem sonora de Mariana revela sobre sua história, sua fé e sua identidade
Antônia Veloso, Francisco Leite, Lívia Franco e Paulo César Gouvêa
De qualquer ponto do Centro Histórico de Mariana, em dias de apresentação das bandas civis, é impossível não ouvir um tiqueriquetirequetique, acompanhado por um fonfooonforonfonfon e um pis-pis-pis, atravessando o trânsito confuso, os gritos das crianças brincando, o repique dos sinos e o compasso firme de passos marchados. Quem escuta já imagina o grupo chegando: pessoas fardadas, algumas com óculos escuros, mulheres de coque, enfileiradas, as primeiras segurando uma bandeira; músicos rindo entre si, equilibrando instrumentos que cintilam ao sol enquanto caminham em direção ao Jardim, nome mais popular da Praça Gomes Freire, localizada bem no centro da cidade.
Pense em uma manhã de domingo bem dormida: você acorda sem pressa, toma um banho fresco depois de um café cheiroso, sentindo o dia se estender devagar. O céu azul sem uma única nuvem. Diante das igrejas, pombas voando entre as torres e descendo ao chão atrás de pequenos ciscos. A cidade respirando nesse compasso lento.
Davi Goldfeder conta que sua entrada na União XV De Novembro começou de maneira despretensiosa: quando tinha 15 anos, viu um folheto anunciando inscrições para a escola da banda. Procurou os ensaios e permaneceu. Desde então, a música faz parte da sua rotina. Os vínculos familiares e a sonoridade sempre estiveram presentes na casa em que cresceu. Ele diz que “até tem familiares músicos”, mas hoje é o único que integra a tradição. Em uma visita do tio-avô à Mariana, antes do café da manhã, a primeira pergunta dirigida a Davi foi sobre a banda. O bisavô, Manoel Victor da Silva, conhecido como “Nezinho”, também integrou a União como baixista, e depois de 25 anos sem ninguém da família no grupo, Davi foi o primeiro a retornar.
Essas manhãs se tornaram parte da rotina de Davi, e no Dia das Mães de 2018, a Sociedade Musical União XV de Novembro realizou uma celebração festiva nessa mesma praça já mencionada. Entre os músicos estava ele, segurando o trompete que já o acompanha há nove anos. Durante a execução do repertório, ele avistou o pai, Álvaro José da Silva, no meio do público. No mesmo instante, lembrou-se da mãe, já falecida. O sopro que antecede a nota não veio: Davi engasgou, e por mais que tentasse, o ar não saía.

Davi aponta para foto de seu bisavô Manoel Victor da Silva, na banda União XV de Novembro Foto: Antônia Veloso

Banda União XV de Novembro na apresentação Banda na Praça no Jardim de Mariana Foto: Antônia Veloso
Mariana é a terra mineira da música. No estado, é o município que mais tem bandas civis — sendo nove com nomes ligados a seus padroeiros e duas que, apesar de não terem uma alusão direta à espiritualidade, mantêm uma relação com a religiosidade local.
No total, são onze grupos: Corporação Musical São Sebastião, Corporação Musical Sagrado Coração de Jesus, Sociedade Musical Nossa Senhora da Conceição, Corporação Musical São Sebastião, Sociedade Musical Santa Cecília, Sociedade Musical 16 de Julho, Sociedade Musical São Vicente de Paulo, Sociedade Musical Oito de Dezembro, Sociedade Musical São Sebastião, Sociedade Musical União XV de Novembro e Sociedade Musical São Caetano,
sendo a primeira da cidade, fundada em 1836 e a quarta Banda mais antiga do Brasil,
segundo os registros da FUNARTE.
Bandas civis em Mariana
Criada em 1901 por Augusto Gomes Henrique Freire de Andrade, médico, professor e político marianense, a Banda União XV de Novembro iniciou sua trajetória ligada às dinâmicas políticas e sociais da cidade. Por estar sediada na Rua Direita, ficou popularmente conhecida como “banda da direita”. No passado, aconteceu uma divergência com a Banda São José, dita “da esquerda”, que durante a ditadura chegou a ser alvo de perseguição. Integrantes das Forças Armadas compareciam aos ensaios por acreditarem que o grupo mantinha posições contrárias ao regime. Hoje em dia, ela se consolidou como um instrumento de promoção cultural e há quem diga que a União deixou de lado a atuação política.
Além do Dr. Gomes Freire, integraram a corporação nomes importantes da vida musical local, entre eles Antônio Miguel de Souza, autor da música do Hino de Mariana. Curiosamente, o texto do hino, escrito pelo poeta simbolista Alphonsus De Guimaraens, foi um pedido do próprio Gomes Freire de Andrade para as comemorações do bicentenário da cidade — os 200 anos de elevação de Mariana ao título de vila. A primeira publicação da letra apareceu no jornal O Germinal, órgão oficial do Partido Republicano, na edição de 5 de julho de 1911. A letra descreve uma Mariana adormecida, esperando ser despertada pelo som de seus próprios filhos.

Fragmento de um jornal com o hino da cidade de Mariana. Foto: Captura de imagem / Jornal O Germinal / Antônia Veloso
Hino de Mariana
Letra: Augusto Gomes Henrique Freire de Andrade (1911)
Música: Antônio Miguel de Souza
“No seio dolente das idas idades
Em meio ao silêncio, fiquei a sorrir
A Deusa de outrora só tinha saudades
Chorando o passado, esperando o porvir!
(Estribilho)
Entre os coros das litanias
Que vêm do céu, na asa do luar
Vivo de mortas alegrias
Sempre a sonhar, sempre a sonhar!
Quem é que me vem perturbar o meu sono
De bela princesa no bosque a dormir?
Que há muito caiu sobre o solo o meu trono
Que era emperolado de perlas de Ofir!
De estrelas, o céu sobre mim se recama
Há luz no zênite e clarões no nadir
O campo auriverde da nossa auriflama
É todo esperança: Esperei o porvir!
Agora bem sinto, no peito, áureos brilhos
De novo me voltam as perlas de Ofir
Aos doces afagos da voz dos meus filhos
Mais belas que outrora, eu irei ressurgir!”
Quem foi Alphonsus de Guimaraens
Poeta mineiro do Simbolismo, Alphonsus de Guimaraens nasceu em Ouro Preto, em 1870, e construiu em Mariana a parte mais decisiva de sua vida e de sua obra. Dono de uma escrita marcada pelo misticismo, pela religiosidade católica e pela ideia de perda, ele é considerado um dos principais nomes do Simbolismo brasileiro, ao lado de Cruz e Sousa.
Formado em Direito, atuou como juiz em Mariana a partir de 1906, cidade onde se casou, constituiu família numerosa e permaneceu até sua morte. Entre suas obras mais conhecidas estão Septenário das Dores de Nossa Senhora, Câmara Ardente, Kyriale e Pastoral dos Crentes do Amor e da Morte. Em Mariana, sua poesia dialoga com o ambiente espiritual da cidade
e com a tradição católica que molda sua paisagem simbólica.
Num domingo ensolarado, 30 de novembro de 2025, fomos até a sede do grupo, a Banda União XV de Novembro se preparava para uma apresentação do programa Banda na Praça que celebra a cultura local e a tradição das corporações musicais.
A fachada da casa colonial contempla tons azuis, com detalhes minuciosos percebidos a quem passa pelo coração do Centro Histórico marianense. Antes de entrar, o som dos trompetes, trombones e tubas nos encontraram primeiro, na calçada. Entretanto, é no interior dali que toda essa história se revela.
O salão principal, revestido por piso de tábua corrida e meias paredes de palhinha, uma estrutura composta de palhas trançadas, típica da arquitetura do século XX, é acessado por um mezanino. Assim que entramos, percebemos que estava vazio, cercado apenas por cadeiras marrons. Além disso, haviam prateleiras com troféus organizados, paredes com fotografias de antigos membros, quadros de avisos de compromissos e eventos ou anotações de repertórios, e nas quinas, tripés com partituras que completavam o cenário. Tudo muito métrico, rígido. O que se contrapunha com a sonoridade leve, alegre e o sorriso no rosto dos músicos, que chegavam cantarolando aos poucos para o ensaio.
Ao subir as escadas até o segundo andar, encontram-se dois quartos: a secretaria do casarão e a sala do regente Leandro Pablo. O percurso continua com a apresentação de outras áreas do prédio feita pelo atual presidente, José Marcelo. Uma terceira escada conduz à cozinha, onde familiares dos músicos preparavam o almoço que tinha um cheiro de comida de mãe. No cômodo mais ao fundo, revela-se o coração da casa.
Na porta, a inscrição “Secretaria e Arquivo Heli do Carmo Silva” indica o espaço onde a memória da banda é guardada. O pai do presidente José Marcelo dá nome ao arquivo que abriga documentos preservados desde a inauguração da instituição: partituras escritas à mão, registros administrativos e vestígios de momentos que marcaram gerações de músicos. Muita história cabe em um quarto tão pequeno. Ali estão reunidas mais de três mil músicas catalogadas de compositores importantes da cena musical marianense.

Sala de registros históricos da Banda União XV de Novembro. Foto: Antônia Veloso

Partitura utilizada pela banda em uma de suas músicas nos ensaios. Foto: Antônia Veloso
Entre os nomes preservados nesse acervo estão Aníbal Walter, já falecido, e seu filho, Álvaro Walter. Membro da banda desde os três anos, quando começou como mascote, Álvaro passou a tocar trompa aos oito e, posteriormente, saxofone. Entre 1969 e 1972, exerceu a função de regente da Banda União XV de Novembro. Atualmente, já não integra a instituição.
Histórias como a de Álvaro ajudam a compreender o papel das bandas na formação musical de Mariana. Mais do que espaços de apresentação, essas corporações funcionaram, por décadas, como centros de ensino, criação e transmissão de repertórios próprios.
É nesse contexto que se insere a avaliação de Efraim Leopoldo Rocha, atual presidente da Associação Marianense de Bandas (AMARBANDAS). Para ele, a tradição das bandas foi responsável pela formação de compositores e pela construção de um repertório pensado especificamente para essas formações musicais:
As partituras eram guardadas a sete chaves. Hoje entendemos que o compositor escreveu para o mundo.

A sede é como uma “casa de vó”. Nesse sentido, é notório que as bandas exercem também um papel importante de socialização, pertencimento, troca e aprendizado - em que o elo é a música e os instrumentos parecem brinquedos. É comum ver, por exemplo, integrantes que tocam diversos instrumentos musicais: começam em um, migram para o outro, e assim seguem. Uma tradição que une pais e filhos e consolida amizades.
Esse vínculo atravessa gerações também na trajetória de José Marcelo, hoje à frente da corporação. Ele conta que sua relação com o grupo começou ainda na infância, influenciada pelo ambiente musical da família. Seu pai participou da banda por cinco décadas, enquanto o filho o acompanhava nos ensaios de domingo. Ainda assim, naquele período, José Marcelo se dedicou mais ao futebol, afastando-se da música por alguns anos. Passou a jogar no Guarany Futebol Clube e encerrou a carreira esportiva na própria equipe, em 1984.
Onde a música vira herança

Retrato do pai de José Marcelo. Foto: Antônia Veloso
Logo após sua saída do futebol, ele recebeu um convite de Amadeu, figura tradicional da União XV de Novembro, para integrar o conselho da banda. Pouco tempo depois, assumiu a vice-presidência. Hoje, a maior satisfação, segundo ele, é ver o grupo consolidado e reconhecido.
Com uma trajetória que remonta à infância, ele destaca que a corporação sempre esteve presente nas celebrações religiosas de Mariana. Embora hoje haja mais procissões e outras bandas atuando na cidade, a maior parte das cerimônias segue sob responsabilidade do grupo.
O atual maestro da União XV de Novembro, Leandro Pablo, conta que, em meados de 2002, sentiu o desejo de ingressar na banda, então sob a regência de Geraldo Elias Martins. Na primeira tentativa, porém, não se identificou com o instrumento que lhe foi designado e acabou se afastando.
O retorno acontece em 2004, depois de aprender piano com o professor Chiquinho: músico, alfaiate e figura tradicional da corporação. A partir daí, a trajetória de Leandro se consolidou dentro da União XV, acompanhando a formação musical e a rotina que atravessam gerações:
A oficina do Chiquinho era debaixo da sede da banda. Foi ali que eu aprendi música e já estou na banda há 21 anos. Já toquei clarineta, saxofone e também atuei como auxiliar do maestro regente durante muito tempo. No ano passado, assumi a regência da banda.


Quadro com maestros da Banda União XV De Novembro. Foto: Antônia Veloso
Identidade e simbolismo
Há duas décadas, os ensaios da banda acontecem nas manhãs de domingo, e a musicalidade que ecoa pelas ruas já se tornou parte da rotina e da identidade da cidade. Turistas que passam pela região frequentemente se deparam com a apresentação, reforçando o papel simbólico da banda no imaginário local.
Após algumas horas, os músicos, já ensaiados e prontos para o início do cortejo, desceram as escadas da sede para formar as fileiras na Rua Direita. Em sintonia, seguiram em direção ao Jardim, deixando o ambiente harmônico e surpreendendo quem já estava na rua ao ouvir o som se unir à distância.
Chegando à praça, cumprimentaram o público presente, bem como a banda Sociedade Musical Santa Cecília, que também já estava no local. O repertório, composto por seis músicas - Janjão, Odeon, Libertango, Seleção de Xote, Grades do Coração e Canta Brasil - foi escolhido a dedo pelo maestro, considerando a expectativa do público.
A corporação conta hoje com mais de 40 músicos, em sua maioria jovens, e mantém uma escola de música com cerca de 46 alunos, com aulas às terças e quintas. O coral ligado à instituição, chamado Canarinhos de Santana, é coordenado pela irmã de José Marcelo e reúne também sua sobrinha Michele, que canta e toca, além de outros membros da família. O envolvimento familiar é marcante: filho, neto e sobrinhos participam da banda, reforçando a tradição transmitida de geração em geração.
Você sabe o que é paisagem sonora?
Paisagem sonora é o conjunto de sons que compõem a experiência cotidiana de um lugar.
Não se trata apenas de ruídos isolados, mas da forma como eles se sobrepõem, se alternam e constroem sentidos. Podem ser passos, vozes, motores, sinos, músicas ou até mesmo silêncios. No contexto urbano, a paisagem sonora ajuda a revelar hábitos, ritmos e identidades.
Em Mariana, o som das bandas civis, dos sinos das igrejas e das procissões não apenas ocupam o espaço, mas organizam o tempo da cidade, marcam encontros e ativam memórias coletivas.
Quando os sons se encontram
Quem cresce em Mariana aprende cedo a escutar. Mais que isso: a ouvir e compreender. Os sinos, que, assim como as bandas, marcam o tempo, anunciam encontros e constroem memória. Comunicadores sonoros, eles integram a paisagem mineira interiorana e, na tradição cristã, são conhecidos como “a voz de Deus”, por conectarem Terra e Céu por meio de badalos e repiques.
A origem dessa tradição revela a associação entre irmandades, liturgia católica, religiosidade e som. O próprio termo sino deriva do latim signum, que significa sinal, marca ou indicação. Há registros do uso de sinos de bronze pela Igreja Católica desde o século V, quando passaram a integrar o cotidiano das comunidades cristãs. Com o tempo, deixaram de soar apenas no interior dos templos e subiram às torres, ampliando seu alcance. Do alto dos campanários, comunicavam horários, celebrações, lutos e alertas, estabelecendo códigos sonoros compreendidos por toda a população.
Com a expansão do catolicismo, essa linguagem atravessou continentes. Desde o início da colonização, os sinos estiveram presentes na América, então colonizadas por Portugal, acompanhando a formação de vilas e cidades.
Para Davi Goldfeder, que desde a adolescência integra a União XV de Novembro, a convivência entre sons nunca foi algo separado. Filho de um escultor que mantinha um ateliê na Praça Gomes Freire, ele cresceu ouvindo o som das bandas cruzarem o Centro Histórico e os sinos marcarem o ritmo da cidade. Sua trajetória na música se construiu de forma orgânica, quase como uma reação natural ao ambiente sonoro que o acompanhava.
Musicalidade dos sinos
A verticalidade das torres sineiras transformou o som em referência urbana, capaz de marcar o ritmo da vida cotidiana. Em Mariana, essa tradição se consolidou como parte da identidade local, onde ouvir o sino é, também, reconhecer o tempo, a fé e a história que ecoam pela cidade.
Mais do que sinais, os sinos também são música. Cada um possui um nome, função e sonoridade específicas, exigindo ritmo, escuta e coordenação dos sineiros. Em algumas igrejas, há sinos dedicados ao Santíssimo Sacramento, às Almas ou a devoções específicas. A execução dos toques obedece a sequências e tempos determinados, como uma partitura transmitida através da prática e da memória coletiva.
Enquanto instrumentos sonoros, os sinos produzem sons mais ou menos intensos, agudos ou graves. De acordo com o dossiê O Toque dos sinos e o ofício de sineiro em Minas Gerais, elaborado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o diâmetro da boca e a espessura da bacia influenciam diretamente a sonoridade, fazendo com que cada sino tenha uma nota própria e uma função específica dentro do conjunto.
Essa lógica musical se revela de forma concreta na experiência dos sineiros. O marianense Warlei Malta aprendeu o ofício de sineiro com o pai, Sérgio Luiz, e começou a tocar os sinos quando tinha sete anos, acompanhado de procissões na Capela de Santana, próxima da sua casa.
Para que a musicalidade exista, no entanto, o sino precisa ser preparado antes mesmo de soar pela primeira vez. Antes de subir às torres, ele passa por um ritual que envolve uma celebração religiosa católica, benção e a apresentação à comunidade.
O ritual marca a entrada do sino na vida da cidade. Só então ele passa a integrar o conjunto sonoro das torres, dialogando com outros sinos e com os acontecimentos que organiza.
A tradição viva dos sineiros
O ofício de sineiros é outro ponto importante na cultura marianense. A habilidade de decifrar os toques e estar nas igrejas durante as celebrações é algo devocional, movido a paixão. Bruno de Oliveira, 30 anos, é um dos sineiros mais jovens de Mariana. Ele conta que o interesse em tocar os sinos começou quando criança, principalmente durante as procissões. Porém, foi recentemente que ele aprendeu a tocar, por conta de uma oficina de sineiros organizada pela Prefeitura de Mariana. A oficina fez parte da programação EntreLaços, do Festival de Inverno 2025, em conjunto com a Associação das Cidades Históricas de Minas Gerais e Sineiros de Mariana e São João Del Rei.
Bruno explica que cada fundidor dos sinos os identificam através de iconografias, que são escritas carimbadas no bronze da peça. A fundição, quando tem a iconografia, ajuda a ver o parentesco de um com o outro.

Detalhe do sino da Catedral da Sé de Mariana, fundido em 1884, que integra o conjunto histórico da cidade e carrega inscrições que revelam sua origem e importância religiosa e cultural ao longo dos séculos. Foto: Antônia Veloso
Quando o patrimônio exige cuidado
A manutenção dessa tradição, no entanto, exige cuidado constante. Segundo Bruno, a restauração dos sinos da Catedral Basílica de Nossa Senhora da Assunção (Catedral da Sé) foi viabilizada, recentemente, a partir de um incentivo de R$ 61 mil da Prefeitura Municipal destinado à Arquidiocese de Mariana. O recurso será utilizado para ajustes estruturais, como a correção de contrapesos empenados e a substituição de badalos desgastados pelo uso contínuo.
Ele explica que, em Minas Gerais, os sinos, ou ao menos seus sons, são protegidos por tombamento, o que torna a manutenção fundamental para garantir que os repiques continuem sendo executados da forma tradicional:
Como os sinos de Minas Gerais são tombados, pelo menos o som, é importante ter manutenção para que aquele som continue.

Ao falar sobre essa preservação, Bruno cita três dos repiques mais conhecidos da cidade: o Repique de Mariana, o Repique de José Werner e o Repique de São Roque, tombado pelo IPHAN.

A imagem mostra um sino da Catedral Basílica de Nossa Senhora da Assunção (Catedral da Sé) de Mariana em primeiro plano. Atrás, uma paisagem chuvosa e no fundo, é possível ver a Igreja São Francisco de Assis. Foto: Antônia Veloso
O investimento prevê não apenas intervenções estruturais, mas também ações de preservação simbólica. Conforme descrito no plano do projeto A Voz dos Sinos da Catedral de Mariana, a restauração busca manter viva a tradição dos sinais emitidos pelos sinos, compreendidos como uma linguagem que comunica alegria, luto, celebração e pertencimento à comunidade. Ao garantir que os repiques continuem soando com fidelidade, a iniciativa contribui para que a população siga reconhecendo, no som dos sinos, uma forma de orientação no tempo e de identificação com a cidade.
Um som alemão entre as serras mineiras
Antes de Minas Gerais ser a terra do pão de queijo, do cafezinho passado na hora ou do poeta Carlos Drummond de Andrade, a fé já era plantada nas terras da primeira vila da Província de Minas Gerais, Ribeirão do Carmo. Após a chegada dos bandeirantes, que vieram de Portugal e da Capitania de São Paulo em busca de ouro, foi só uma questão de tempo para encontrarem o valioso metal.
Com a crescente exploração do minério nas cidades de Ouro Preto e Mariana, a coroa portuguesa buscou meios para exercer um controle mais direto no território. A solução encontrada pelo rei foi desmembrar um vasto território da então Diocese do Rio de Janeiro para fundar a sexta diocese da colônia.
A decisão de tornar Mariana a sede episcopal se deu como fidelidade do povo para o Conde de Assumar, então governador da capitania, pois enquanto Vila Rica se rebelava, os moradores de Ribeirão do Carmo apoiavam o governador, que prometeu recompensá-los. Além disso, a Vila de Nossa Senhora do Ribeirão do Carmo era o mais antigo povoado da região mineradora e onde foi erguida a primeira capela. Com o desmembramento, que correspondia aproximadamente à atual extensão do estado de Minas Gerais, o monarca reafirmava seus poderes, garantindo controle sobre a população ao clero e indiretamente sobre as riquezas da região.

Aquarela que retrata a vista da cidade de Mariana em 1817. Crédito: Thomas Ender
No mesmo Alvará Régio de 1745 que definiu Ribeirão do Carmo como sede do primeiro bispado de Minas Gerais, Dom João V elevou a vila à cidade, e deu a ela o nome de Mariana — junção dos dois primeiros nomes de sua esposa, Maria Ana da Áustria. Para a tarefa de ser o primeiro Bispo de Mariana, Dom João V nomeou Dom Frei Manoel da Cruz, em 1748, que há quase uma década estava à frente da Diocese do Maranhão.
Dom Manoel percorreu mais de quatro mil quilômetros da capital São Luís até Mariana, numa viagem a cavalo. Essa jornada foi registrada por seu copiador de cartas que concebeu a obra Áureo Throno Episcopal collocado nas Minas de Ouro, o livro mais antigo sobre Minas Gerais.

Dom Frei Manoel da Cruz teve seu corpo sepultado na Catedral da Sé em 1764. Crédito: Arquivo Arquidiocese de Mariana
Estabelecido provisoriamente no casarão alugado pelo conde, o prelado reformou a maior igreja da cidade para servir como catedral, fazendo expansões e modificações. Tratava-se de um templo dedicado a Nossa Senhora do Carmo, mas com as novas mudanças passou a ser de Nossa Senhora da Assunção.
Nesse contexto, a Coroa Portuguesa enviou para o templo um órgão do renomado organeiro alemão Arp Schnitger. Trata-se de um instrumento de alto prestígio e complexidade de construção, encontrado em alguns países da Europa. Só no norte da Alemanha se encontram cerca de 32. O único no mundo fora do continente europeu é o da Catedral de Mariana. Originalmente ele foi construído em 1710 para um mosteiro franciscano de Portugal, onde permaneceu por muitos anos até ser adquirido pelo rei em 1748. Com a morte de Dom João em 1750, coube ao seu filho, Dom José I, enviá-lo à colônia como prometido.
Ele foi desmontado e colocado em 18 grandes caixas de madeira e 10 embrulhos para serem enviados ao Brasil de navio. Com a chegada em terra firme, em 1753, as peças subiram serras e vales até Mariana, em lombo de animais, e com elas havia uma carta que descrevia todas as especificações de como fazer a montagem.

Catedral Basílica Nossa Senhora da Assunção. Foto: Amador de Souza / Arquivo Público Mineiro
Ao longo dos séculos, o raro instrumento deu um toque especial para a primaz das Minas Gerais, até o dia 8 de dezembro de 1937, quando tocou pela última vez em uma solene ordenação sacerdotal. O silêncio de quase 50 anos se deu pela falta de manutenção e mão de obra especializada.
Somente em 1977 foram iniciados os trabalhos de restauro, que se estenderam até 1984. Um dos integrantes da equipe de restauradores era Álvaro José da Silva, pai de Davi Goldfeder. Ele conta que sua família trabalhou com madeira durante toda a vida: marceneiro, carpinteiro, entalhador, escultor — seu avô, bisavô e pai.
Álvaro afirma que a parte de madeira e ornamentos do órgão ficaram sob sua responsabilidade, e a mecânica foi para os cuidados de especialistas na Alemanha. O processo de restauro da caixa do órgão, em 1984, foi feito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a partir do Centro de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis (Cecor).

Álvaro José da Silva no restauro de um dos anjos presentes no Órgão. Foto: José Arnaldo Coêlho de Aguiar Lima
O novo despertar do Arp Schnitger
Na tarde do dia 19 de novembro de 2025, sob um sol que elevou as temperaturas a 28 graus Celsius em Mariana, a Catedral da Sé recebeu a visita da arquiteta Deise Lustosa, responsável técnica pelos restauros do órgão. Apreensiva com a notícia de que o organeiro espanhol Alberto Cariñena, um dos responsáveis pela restauração do órgão, havia passado mal e sido levado para o hospital, a arquiteta consultava frequentemente o celular buscando atualizações do estado de saúde.
A suspeita era que pedras nos rins estavam lhe causando dores intensas. Essa situação fez com que Frédéric Desmottes, organeiro também responsável pelo restauro, montagem e afinação, passasse a tarde trabalhando sozinho. O francês trabalhava na parte de trás do instrumento e aparentava tranquilidade enquanto alocava alguns pequenos tubos nos someiros — peças consideradas os pulmões do órgão, por ter a função de armazenar o ar em uma pressão exata e liberá-los para os tubos conforme o organista aperta as teclas.
Os sons da Rua Frei Durão, na lateral da catedral, invadiam a galeria interna do templo quando Deise deu a boa notícia de que foi apenas um susto, Alberto acabara de ter alta hospitalar. Mais tranquila, a arquiteta foi apresentando os tubos e a disposição deles dentro do órgão. Durante a conversa, ela mencionou as dificuldades para subir os dois someiros da sacristia até o órgão: foi preciso uma equipe de oito pessoas para levar a peça maior de 2,8 metros de comprimento e 198,7 quilos pela escada caracol, único acesso para o instrumento. Em quase três séculos, essa peça saiu de sua posição apenas três vezes, sendo a terceira em 2025.
Depois da subida, os organeiros comentaram que o restauro feito nos someiros na Espanha, entre os meses de março e setembro de 2025, garantem a eles 200 anos de vitalidade. Essa informação gerou um momento engraçado, quando os funcionários de obras da Arquidiocese de Mariana disseram que, passados os dois séculos, suas almas estarão assistindo à dificuldade daqueles que irão encarar a dura tarefa de tirá-los de lá novamente.

Trabalho em equipe fez as peças voltarem ao seu lugar de origem, depois de retornarem em setembro de 2025 à Catedral de Mariana. Elas passaram por restauro na oficina organeira Cuenca, na Espanha, após diagnóstico de infestação por cupins e um processo logístico complexo envolvendo contratos, autorizações e transporte climatizado para garantir a integridade das peças. Foto: Paulo César Gouvêa / Arquidiocese de Mariana
Pela tribuna da catedral, os tubos já repousavam sobre o velho assoalho de madeira. Eles haviam feito uma curta viagem da Cúria Metropolitana, sediada no antigo Palácio dos Bispos, onde ficaram armazenados em salas do subsolo. Horas antes disso, Deise Lustosa e a organista Josinéia Godinho esperavam a chave da sala que guardou as peças por quase dez anos. Elas estavam metodicamente organizadas em espécies de estandes que continham inscrições referentes às notas musicais que cada tubo emite.
Frédéric e Josinéia retiraram cuidadosamente os tubos da sala e foram depositando no veículo adaptado para este transporte, que estava do lado de fora da Cúria, preparado para proteger os tubos com mantas cinzas. Segundo Faria, a função desses cobertores era evitar novos amassados, já que as peças são feitas de uma liga de chumbo bastante fina. Ao todo, foram três viagens para a retirada completa das mais de mil peças.
As reações mais expressivas foram da organista Josinéia, que há quase uma década estava sem poder tocar sua raríssima ferramenta de trabalho. Não é possível falar do Órgão Arp Schnitger nas últimas décadas sem falar de Elisa Freixo, a cravista e organista que foi professora de Josinéia na década de 1990, em São Paulo, na Faculdade Santa Marcelina. Sua carreira é marcada pela Fresta de órgãos históricos e por suas passagens em diversos países da Europa, Ásia e América Latina.
De 1986 a 2016, Elisa foi a responsável pelos concertos e manutenção do Arp Schnitger, através de seu contrato com a Fundação Cultural da Arquidiocese de Mariana.
Até os dias de hoje, a mestre organista é conhecida por ser muito rigorosa ao zelar pelo Órgão Arp Schnitger. A convite de Elisa, Josinéia se mudou para Mariana para dividir os concertos regulares. Após a saída de sua antiga professora, Godinho assumiu o velho posto de organista titular da Catedral de Mariana. E foi ela a responsável por “despertar” o órgão, depois do longo silêncio.
Entre muitos aplausos e manifestações de admiração, certamente os rendidos no concerto com a Orquestra Ouro Preto foram os mais calorosos, vindo de um público que esgotou os ingressos em cerca de dez minutos.

Josinéia Godinho recebeu aplausos do público ao término do concerto histórico com a Orquestra Ouro Preto, que destacou a sonoridade singular do instrumento. Foto: Paulo César Gouvêa / Arquidiocese de Mariana
A mobilização expressiva do público tinha uma razão: a expectativa em ouvir o raro instrumento tocar novamente, o que foi visto também na solenidade do Despertar do Órgão, celebrada no dia 8 de dezembro de 2025.
O momento ocorreu na programação das festividades do aniversário de 280 anos da Arquidiocese, que contou com seis dias de concertos, os quais o Arp Schnitger acompanhou coros, orquestras e trompetistas. Em todos os dias Josinéia operou o conhecido “rei dos instrumentos”, o que considerou algo “muito especial e muito desafiador”.
No rito do Despertar, o Arcebispo dialoga com o instrumento por meio de uma série de invocações, e a cada uma delas o órgão vai respondendo, começando suave até atingir o seu volume máximo. “Desperta, órgão, instrumento sagrado! Fala e entoa os louvores a Deus”, exclamou Dom Airton José dos Santos, Arcebispo Metropolitano de Mariana, durante a solenidade.
Créditos: Reprodução YouTube da Arquidiocese de Mariana
A memória sonora como forma de expressão
Falar de memória sonora é abordar um conceito amplo, que envolve a capacidade de perceber, compreender, expressar e produzir música. Na prática, é mais simples: é o sentimento que transborda o peito ao ouvir uma melodia e lembrar de alguém, de um momento ou de um lugar. É um sentido que se conecta à sensação de conforto e que permite revisitar lembranças.
Quem nasce, cresce ou se muda para o município histórico dialoga com essa paisagem musical. A permanência desses marcadores sonoros se faz presente na vivência e na memória afetiva de quem caminha pelas ruas. Mesmo que aparentemente muito diferentes, os sinos da Catedral da Sé, o Órgão Arp Schnitger e a Banda União XV de Novembro são instrumentos conduzidos por pessoas que sustentam tradições e as renovam a cada geração.
Davi Goldfeder é um personagem entre tantos desse cenário. Assim como Josinéia Godinho, que devolveu voz ao órgão Arp Schnitger; Warlei Malta e Bruno de Oliveira, que mantêm vivos os toques dos sinos, e José Marcelo, que preserva a memória e a rotina da Banda União XV de Novembro. Eles integram uma rede de pessoas que sustentam essa paisagem sonora. São trajetórias distintas, atravessadas pelo mesmo fio: o som como herança e forma de pertencimento.
Sons que ecoam por séculos. As pessoas sempre escutam os mesmos sons há gerações. O órgão, os sinos e a banda.
Bruno de Oliveira, sineiro

Os sons que atravessam a cidade não pertencem apenas ao passado. Continuam organizando o tempo, marcando celebrações e lutos, despertando memórias e criando novas histórias. Entre repiques, dobrados e acordes solenes, a cidade se reconhece. Ali, o som não é apenas paisagem. É linguagem, herança e forma de existir.

