
A vida e a resistência dos Guardiões do Oceano frente ao aquecimento global
Do branqueamento dos recifes à desregulação das chuvas: como a crise climática nos oceanos impacta ecossistemas e comunidades tradicionais.
Danielle Leal, Eduarda Rameh e Luiz Carlos Diniz

Maragogi (AL) é um dos lugares no Brasil com os recifes mais afetados pelas ondas de calor. Em 2024, ano de evento do El Niño, mais de 90% dos corais da região morreram. Créditos: Herton Escobar/USP Imagens
Você nasce no litoral, desde o “bucho de sua mãe” é ensinado a pescar, cresce, inicia a produção de redes artesanais, aprende a fechar camboa com seus vizinhos que, depois de alguns dias, voltam para coletar o produto da pesca. Durante décadas ou séculos o resultado final era satisfatório. Se a quantidade não era suficiente para enriquecer as famílias que participavam dessa prática, pelo menos provinha o suficiente para gerar o sustento da casa, o dinheiro para manter a produção ativa e a comida presente na mesa.
Mas nos últimos anos, com as constantes mudanças no clima, o aumento do calor, da temperatura das águas, das chuvas fortes que causam mudanças na geografia dos bancos de areia onde a água se empoçava e os peixes e mariscos eram pescados, as coisas mudaram. Izabel Chagas, 54, pescadora de Barra de Camaragibe, Alagoas, relata que essa é a nova realidade.
Ao longo dos últimos anos, o aumento das temperaturas, o branqueamento dos corais e a poluição dos oceanos tem dificultado a atividade de famílias que dependem da pesca para sua sobrevivência.

Cardume de peixes pescados em Barra de Camaragibe. Créditos: Izabel Chagas
O aquecimento global se acentuou desde a Revolução Industrial, quando a população começou a usar o carvão mineral, petróleo e gás natural como energia, assim emitindo grandes quantidades de dióxido de carbono (CO₂), metano e outros gases na atmosfera. Outras atividades humanas, como o desmatamento e a agricultura intensiva, também contribuíram para o aumento das temperaturas da Terra, intensificando o efeito estufa que retém o calor e aquece o planeta.
Nas últimas décadas houve um aumento acelerado das temperaturas globais, o ano de 2024 recebe destaque por ter sido o mais quente desde o início dos monitoramentos. No intervalo entre maio de 2024 e abril de 2025, a variação de 1.99 ºC na temperatura do planeta, em referência a temperatura média do século XX, 13.9 ºC, chegando a média de 15.89 ºC, segundo dados do Centro Nacional de Informação Ambiental - Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (CNIS - ANOA) (National Center for Environmental Information - National Oceanic and Atmospheric Administration (NCEI - NOAA)).
Embora esse aumento, no geral, pareça baixo, ele pode gerar transtornos de grande impacto em regiões que já são normalmente quentes. Outro ponto, é que esse aumento, mesmo que de grau em grau, gera uma instabilidade em regiões mais frias, causando o derretimento de mantos de gelo. Além disso, segundo José Marengo, climatologista peruano radicado no Brasil, em um especial para o Observatório do Clima, a tendência é que até 2040 haja uma maior frequência nos eventos de calor extremo.

As principais consequências do aquecimento global envolvem os oceanos. Eles acumulam e retêm a energia das interações entre os componentes do Sistema Terrestre, o conjunto que compreende as formações da Terra e os processos naturais que atuam nela. Segundo uma pesquisa do Instituto de Conservação Marinha (Marine Conservation Biology Institute - MCBI), desde o início da Era Industrial o oceano absorveu cerca 525 bilhões de toneladas de carbono da atmosfera, o equivalente a 1,05 vez o peso de toda a população da Terra. Se alteramos as condições e os movimentos dos oceanos, alteramos efetivamente o funcionamento do clima global.
Essa dinâmica começa nos extremos do planeta. O derretimento dos mantos de gelo, localizados no Círculo Polar Ártico e na Antártida, além de elevar o nível do mar, gera um processo de escoamento de água doce que altera a salinidade e a densidade das correntes, de acordo com Maurício Mata, professor e oceanógrafo da Universidade Federal do Rio Grande (Furg). “As duas maiores massas de gelo do planeta estão nas altas latitudes dos hemisférios Sul e Norte. Sendo que 90% do gelo do planeta está concentrado sobre o manto de gelo antártico, que é a camada de gelo que fica sobre o continente da Antártica. Ele possui uma base rochosa e, ao longo dos anos, a precipitação em forma de neve e gelo promoveu o acúmulo que gerou esse manto — o que chamamos de calota polar. Esse gelo acumulado sobre a rocha continental é resultado da precipitação de neve, ou seja, se estivesse em nossas latitudes tropicais ou subtropicais, seria chuva. Portanto, trata-se de água doce acumulada em uma camada espessa que, na Antártica, pode atingir a ordem de quatro quilômetros de espessura”.

Devido ao aumento da temperatura global, o gelo derrete e vai para o mar, diminuindo a salinidade das águas. Com isso, a água se torna muito leve e passa a ter dificuldade para afundar, alterando o movimento vertical das massas de água. Esse movimento é essencial para muitos organismos base da vida polar, por exemplo, o krill, um pequeno crustáceo que se assemelha à um camarão e serve como pilar alimentar para baleias, pinguins e peixes. Ele depende das condições da densidade e salinidade das colunas d’água, assim como o fitoplâncton, seu principal alimento, composto por microalgas. Portanto, se a água é mais ou menos salgada, ou se ela está se movimentando para cima ou para baixo, influencia desde os menores organismos até os maiores predadores do topo da cadeia. Outro impacto reside no balanço energético global, através de um mecanismo conhecido como albedo, a capacidade que superfícies claras, como a neve e o gelo, têm de refletir a radiação solar de volta ao espaço.

Observação: A estrutura da arte foi feita com o auxílio da IA do Notebook LLM
Maurício Mata explica que a estabilidade histórica de estruturas biológicas e geológicas está sendo rompida de forma alarmante. Como exemplo, ele cita a Plataforma de Gelo Larsen, localizada no leste da Península Antártica, que permaneceu intacta por dezenas de milhares de anos. Porém, em 2002, sob o efeito do aquecimento das águas, cerca de um terço da estrutura se desintegrou completamente no período de apenas um mês e meio. De acordo com o pesquisador, o colapso repentino de uma massa de gelo que levou milênios para se consolidar é um indicativo claro de que transformações drásticas estão ocorrendo em todo o planeta: “Testemunhar mudanças tão drásticas e rápidas em estruturas geológicas que permaneceram estáveis por tanto tempo nos força a refletir sobre a gravidade dos processos atuais. É um indicativo claro de que transformações muito significativas estão ocorrendo em todo o nosso planeta.”
Maurício Mata explica que a estabilidade histórica de estruturas biológicas e geológicas está sendo rompida de forma alarmante. Como exemplo, ele cita a Plataforma de Gelo Larsen, localizada no leste da Península Antártica, que permaneceu intacta por dezenas de milhares de anos. Porém, em 2002, sob o efeito do aquecimento das águas, cerca de um terço da estrutura se desintegrou completamente no período de apenas um mês e meio. De acordo com o pesquisador, o colapso repentino de uma massa de gelo que levou milênios para se consolidar é um indicativo claro de que transformações drásticas estão ocorrendo em todo o planeta: “Testemunhar mudanças tão drásticas e rápidas em estruturas geológicas que permaneceram estáveis por tanto tempo nos força a refletir sobre a gravidade dos processos atuais. É um indicativo claro de que transformações muito significativas estão ocorrendo em todo o nosso planeta.”
Esse acúmulo de energia empurra o nível médio do mar para cima. De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) e com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), entre 1993 e 2018, o aumento do nível médio global do mar foi de 8,1 centímetros. “Para vocês aí em Minas Gerais, vai demorar um pouco mais para ser sentido. Mas a população de Vanuatu, na Micronésia, e de outras ilhas do Pacífico — que estão, em média, a apenas meio metro acima do nível do mar — já constituem os primeiros refugiados climáticos da humanidade atual. Eles já estão planejando a sua realocação. O aumento do nível do mar já é uma realidade presente para algumas populações, enquanto para outras será um impacto mais demorado”, completa Mata.
O aumento de temperaturas acabam desencadeando a acidificação da água e o branqueamento dos corais. Esse desequilíbrio químico provoca impactos negativos na biodiversidade marinha em diversos aspectos, desde a dificuldade de formação de conchas para moluscos como ostras, mexilhões e mariscos, até o colapso de ecossistemas inteiros.
O pH dos oceanos
Uma sigla nos ajuda a entender melhor como funciona o processo de acidificação dos oceanos, o nome dela é pH. Essas letras juntas significam potencial de Hidrogênio, ou seja, ela é o fator que corresponde ao nível de íons de hidrogênio presentes em uma substância. A escala de pH vai de 0 a 14, quanto mais próximo do 0, maior é a acidez da solução, ao redor de 7, a solução é neutra e acima disso ela é considerada básica, ou alcalina.
Segundo o Centro de Ciência Oceânica do Museu Nacional de História Natural dos Estados Unidos, muitas reações químicas, inclusive as essenciais para a vida, são sensíveis à pequenas alterações de pH. Para os humanos, por exemplo, o pH normal do sangue varia entre 7.35 a 7.45. Uma mudança na escala de acidez de 0.2 a 0.3 pode causar convulsões, comas, até a morte. De forma semelhante, mesmo uma variação pequena aparentemente na alcalinidade dos oceanos pode ter efeitos extremos na reprodução e desenvolvimento da vida marinha.
Durante cerca de 200 anos depois da Revolução Industrial, o nível de acidez dos oceanos baixou cerca de 0,1 pH. Isso significa que o oceano está 30% mais ácido. O número parece baixo, mas em grande escala pode resultar em diversos eventos prejudiciais para a saúde dos animais marinhos. A acidificação da água significa que houve maior absorção de dióxido de carbono pelos mares, isso ocorre devido a maior quantidade desse elemento na atmosfera. No momento, o pH dos oceanos é de 8,1, o que é alcalino e normal para condições oceânicas, mas caso as emissões de carbono continuem subindo, a tendência é que esse nível de acidez chegue mais perto de 7,0, o que significa que as águas oceânicas se tornem mais ácidas.

Observação: A estrutura da arte foi feita com o auxílio da IA do Notebook LLM
Quando o gás carbônico (CO₂) entra em contato com a água (H₂O), essa reação química libera íons de hidrogênio (H+) nesse ambiente, tornando-o mais ácido. Logo, se há mais CO₂ sendo emitido e entrando em contato com o mar, haverá mais íons de hidrogênio sendo liberados.
Para os peixes, esse aumento da concentração de CO₂ na água pode gerar algumas perturbações. No caso por exemplo do peixe palhaço, a espécie do Nemo, do filme de animação “Procurando Nemo”, a acidificação pode gerar dificuldades ao peixe na hora de sua desova. A partir disso, pode haver um desequilíbrio na população da espécie. Isto gera uma quebra na normalidade da cadeia alimentar do ambiente em que esses animais estão presentes, já que uma queda repentina em sua população geraria uma menor quantidade de alimento para seus predadores. De modo geral, com a menor presença de algumas espécies em decorrências do aumento da acidez dos oceanos, alguns pescados podem se tornar mais raros, o que causaria um impacto direto aos pescadores, e posteriormente também aos consumidores de frutos do mar. Com menor oferta e manutenção na demanda, o preço destes peixes fica mais caro.
A acidificação dos oceanos também enfraquece o esqueleto dos corais, tornando-os ainda mais frágeis ao aquecimento global e mais suscetíveis à mortalidade. Isto dificulta o processo de calcificação que forma conchas e outras estruturas que são utilizadas por pequenos crustáceos e moluscos como proteção e abrigo. Ainda em ligação com a presença dos peixes, esse é outro ponto que pode influenciar na diminuição de algumas espécies, visto que diversas espécies necessitam dos corais para colocarem seus ovos, com o aumento na mortalidade dos corais e a diminuição da sua presença, esses peixes perdem locais para uma possível desova.
Branqueamento dos corais
É no ambiente oceânico quimicamente fragilizado que o estresse térmico cobra um dos seus preços mais altos: o branqueamento de corais. “Outra coisa que notamos nos recifes são os corais branqueados e mortos. Eu sei que isso ocorre por causa das altas temperaturas da água. Quando a água passa de 35°C você sente na pele que ela está mais quente que o seu próprio corpo. Isso não é normal. A nossa temperatura padrão aqui era de 28°C, 25°C mas hoje passa dos 35°C facilmente”, explica Izabel Chagas, pescadora de Barra do Camaragibe.
Aproximadamente 32% de toda a vida marinha depende dos corais para sobreviver, mesmo eles ocupando menos de 1% da área do oceano. Esses animais do filo Cnidaria, mesmo grupo das anêmonas e das águas-vivas, atuam como engenheiros ecossistêmicos, formando estruturas tridimensionais repletas de nichos que funcionam como abrigo, área de reprodução e alimentação para uma infinidade de criaturas, que frequentemente realizam um intercâmbio vital com os manguezais litorâneos. Para nós, humanos, os recifes de coral têm um grande papel de dissipador de energia do mar, já que formam grandes barreiras físicas perto do litoral. Seus esqueletos têm carbonato de cálcio, um tipo de mineral muito resistente, parecido com o material das concha. Quando as ondas avançam do mar aberto, elas quebram sua força nessas barreiras e chegam à praia muito mais calmas. Sem esse escudo natural, a energia da água engoliria a areia e destruiria casas, calçadões e comércios, tornando os corais peças-chave para conter a erosão e proteger quem vive no litoral.

Existe uma alga microscópica chamada zooxantela, ela vive dentro do tecido dos corais e é responsável por dar cor a eles. Até 90% da energia de um coral vem dessas algas, e quando algumas mudanças acontecem, como o aumento da temperatura, elas entram em estresse térmico e expulsam as algas de dentro dos corais. Como o tecido do animal é translúcido, o descarte da parceira revela o esqueleto de carbonato de cálcio que está por baixo, tornando-o branco e frágil.

O Brasil abriga quatro espécies de corais-de-fogo, sendo três delas endêmicas, ou seja, não existem em nenhum outro lugar do planeta. O monitoramento do Instituto Coral Vivo revelou que, no evento de calor extremo de 2024, a espécie Millepora braziliensis sofreu 100% de branqueamento e perdeu toda a sua cobertura viva nas colônias de Tamandaré (PE), figurando hoje na lista de espécies criticamente ameaçadas de extinção do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Colônias de coral-de-fogo branqueadas e já parcialmente mortas nos recifes de Maragogi (AL), em abril de 2024. Crédito: Herton Escobar/USP Imagens
O impacto global do efeito estufa ganha o reforço destrutivo das pressões humanas locais. Eduardo Almeida, biólogo e analista ambiental do ICMBio, autarquia federal responsável por gerir as Unidades de Conservação (UCs) explica que muitos impactos são causados pelos seres humanos, principalmente pelas atividades turísticas. Ele atua na Área de Proteção Ambiental (APA) Costa dos Corais, a maior unidade de conservação marinha do Brasil. “Nossa missão é conciliar o uso do turismo e da pesca com a conservação ambiental, o que é uma tarefa muito difícil. Qualquer atividade vai gerar impacto. A gente busca, tanto com o setor pesqueiro quanto com o setor turístico, que esses impactos sejam os menores possíveis ou fiquem restritos a determinadas áreas. Falar que não existe impacto em determinada atividade não dá”, esclarece Almeida.
Pequenas atitudes dos visitantes, muitas vezes vistas como inofensivas, desencadeiam desequilíbrios ecológicos graves. Um exemplo clássico nas piscinas naturais é a prática de oferecer alimentos aos peixes. Eduardo explica que isto favorece de forma desproporcional o peixe saberé. Alimentado artificialmente, a espécie se fortalece, multiplica-se e passa a expulsar do recife os peixes herbívoros, como o peixe-papagaio (budião). Sem os budiões, que funcionam como os "jardineiros naturais" dos corais, as macroalgas e o filamento conhecido como turf crescem desenfreadamente sobre os recifes, competindo por espaço e luz, sufocando os corais até a morte. “São muitos os impactos causados: o barulho das lanchas desestabiliza o ecossistema, as embarcações às vezes batem no coral e quebram a estrutura, ou batem e matam o peixe-boi. A lancha joga a âncora na areia, porque é proibido jogar no recife para não quebrá-lo, mas alguns acabam jogando. Nós não temos pernas e condições de fiscalizar tudo isso em tempo real”, lamenta o analista do ICMBio.
Para conter os danos, a APA impõe restrições rígidas: a pesca industrial é totalmente proibida, permitindo-se apenas a pesca artesanal com embarcações de até 15 metros de comprimento. O monitoramento é feito de forma remota via satélite através do cadastro no Ministério da Pesca e Aquicultura, identificando invasões de frotas de grande porte nas zonas de exclusão. Além disso, a introdução acidental de espécies exóticas agrava a crise biológica. É o caso recente do peixe-leão, um predador venenoso e voraz. Originário do Indo-Pacífico, ele chegou ao Atlântico Sul através das correntes marinhas. Assim como a tilápia causou um desequilíbrio severo ao dizimar espécies nativas nos rios de água doce do interior, o peixe-leão ameaça as espécies marinhas brasileiras.
As Ilhas de Plástico
Além dos danos causados pelo aquecimento e pelas alterações biológicas, os oceanos sofrem com áreas extensas de lixo acumulado em locais específicos, as chamadas Ilhas de Plástico. Atualmente, existem cinco dessas ilhas no nosso planeta, a do Atlântico Norte, Pacífico Sul, Atlântico Sul, Oceano Índico e Pacífico Norte. Na realidade, não são ilhas, de fato, já que não se pode pisar nelas. Mas a analogia ajuda a entender a dimensão do problema.
Paula Sobral, professora e estudiosa em microplástico, Presidente da Associação Portuguesa do Lixo Marinho (APLM), explica que as ilhas se formam proporcionalmente ao tamanho da população ao redor e também a partir das normas governamentais acerca do descarte de lixo, “as Ilhas de Plásticos estão se formando devido à circulação oceânica global, em relação aos giros dos oceanos. “A circulação dessas correntes faz com que, de alguma maneira, o plástico flutuante, apenas o flutuante, se concentre lá no centro desses giros. Essa acumulação, depois, dá origem àquilo que se chamam as ilhas de plástico. A maior delas é a do Pacífico Norte. Todos os giros do oceano, que são cinco (Pacífico Norte e Sul, Atlântico Norte e Sul, e Índico), têm lixo”, contextualiza a bióloga, doutora em Ciências do Ambiente.
O plástico demora aproximadamente 450 anos para se decompor, contudo ao longo dos anos ele pode se transformar em microplásticos, o que pode significar que nem mesmo após todos esses anos ele se dissolva totalmente, podendo ser prejudicial à saúde dos animais e dos humanos. Alguns itens que usamos no nosso dia já contém microplásticos e descem pelo ralo durante o banho, chegando ao oceano. É presente na consciência geral que o correto seria diminuir o consumo de plástico e investir em reciclagem, mas para Paula o problema vai além, pois não são todos que têm acesso e opção de reciclar, então nós só podemos aquilo que está ao nosso alcance, e remover o lixo é uma questão complicada. A pesquisadora explica as complexibilidades dessa ação.
O processo de remoção de lixo dos oceanos deve ser feito de forma consciente para que não ocorra impactos ainda maiores aos seres marinhos.
Os plásticos são classificados em três tipos: nanoplástico (<100 nanômetro), microplástico (entre 100 nm e 5 milímetros) e macroplástico (>5 mm), sendo todos eles menos expressos que um fio de cabelo que possui em média 0,8 mm, cerca de 800.000 vezes maior que 1 nm. O microplástico pode ser gerado de duas formas, a primária ou secundária. A primeira vem de produtos cosméticos, de higiene pessoal, tintas e produtos de limpeza. A secundária é originada de fragmentos e desgastes de produtos. Quando os plásticos chegam aos oceanos, eles sofrem um longo processo de fragmentação que se transforma em microplástico, depois disso, são consumidos por animais que são consumidos pelos humanos. Ingerimos Microplástico também quando comemos frutos do mar e sal marinho, bebemos água potável e outras bebidas engarrafadas, quando consumimos produtos embalados com plástico. O estudo do Fundo Mundial para a Natureza (World Wide Fund for Nature - WWF) aponta que em uma semana consumimos cinco gramas de plástico que equivalem ao peso de um cartão de crédito.

Segundo pesquisa publicada na revista Environment International, feita com 22 voluntários, as análises de sangue revelaram que 77% das amostras continham pelo menos 1,6 µg/mL de concentração de microplásticos no sangue.
Os estudos sobre os efeitos dos microplásticos nos seres humanos ainda são recentes, mas estima-se que a exposição a eles podem trazer danos celulares, desregulação hormonal, problemas gastrointestinais e doenças respiratórias.
El Niño
Se a poluição por plásticos e a acidificação fragiliza as bases do oceano, os fenômenos climáticos extremos catalisam todos os problemas. Para José Marengo, o que acontece no oceano afeta o clima de todo mundo, tanto no litoral quanto no interior, como se o oceano fosse um termômetro. Marengo é autor principal de relatórios do IPCC (grupo agraciado com o Prêmio Nobel da Paz em 2007) e membro de instituições de prestígio como a Organização Mundial de Meteorologia (OMM), Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). “O El Niño é um fenômeno que nós chamamos de interação oceano-atmosfera. Na costa norte do Peru, no Pacífico Equatorial, todos os anos, durante o verão, aparece uma corrente de águas quentes por volta do período do Natal. Os pescadores locais já conheciam isso e o batizaram de ´El Niño´, que significa Menino Jesus. Isso acontece todos os anos de forma natural. O problema é quando essas águas quentes chegam em maior volume e permanecem por mais tempo”, contextualiza.
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou o início oficial do El Niño, as condições devem se fortalecer durante o inverno do Hemisfério Norte. O aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Tropical altera padrões de vento e chuvas em escala global. Um Super El Niño, termo usado pela imprensa em todo o mundo para se referir a uma versão de alta intensidade deste evento, acontece quando a temperatura da superfície do mar ultrapassa 2ºC. Isso foi registrado apenas quatro vezes na história, em 1877-78, 1982-83, 1997-98 e 2015-16. As pesquisas indicam que em 2026 pode ocorrer o quinto registro.
O El Niño surgindo em intervalos mais curtos de tempo, cada vez mais forte, é um alerta climático, apesar de ser um fenômeno natural que sempre existiu. A diferença é que agora o fenômeno não atua mais de forma isolada, ele opera em um planeta cujos oceanos e atmosfera já estão superaquecidos pelas emissões de carbono, encurtando o intervalo de recuperação dos ecossistemas.
Vídeo da Laje dos Dois Irmãos, Fernando de Noronha, durante o evento de El Niño de 2024, no qual é possível observar várias colônias de corais branqueadas. Gravação: Giovanna Destri.
No evento de 2024, os recifes enfrentaram ondas de calor marinhas que duraram de quatro a cinco meses consecutivos, resultando em perdas catastróficas de até 90% da cobertura de coral vivo em regiões como Maragogi (AL).
As consequências desse superaquecimento oceânico quebram as fronteiras litorâneas e invadem o interior do continente, afetando estados como Minas Gerais e São Paulo de maneira drástica, conta José Marengo. “O que acontece com o oceano afeta o clima de todo mundo, tanto nas regiões próximas ao mar como as regiões do interior. Com essas águas quentes, os ventos mudam”. De acordo com o pesquisador, no Brasil, os efeitos se manifestam na diminuição de chuvas na Amazônia e no Nordeste, no aumento de precipitação no Sul, e também na temperatura do Centro-Oeste e do Sudeste, muito mais altas que a média histórica. A combinação de secas por falta de chuva com essas ondas de calor facilita a ocorrência de incêndios florestais devastadores, como os que vimos no Pantanal e na Amazônia. “O clima seco e o vento quente não criam o incêndio, já que mais de 95% dos incêndios no Brasil são de origem humana por queimadas e negligência, mas o clima espalha o fogo rapidamente”, detalha Marengo.
Resiliência

Foto da comunidade de Barra de Camaragibe na praia cantando camarão nos sargaços. Crédito: Arquivo pessoal/Izabel Cristina
Além da iniciativa citada por Izabel, também destacamos projetos como os desenvolvidos pelo grupo Coral Vivo, do qual Luiza Campos faz parte, e a Associação Portuguesa do Lixo Marinho (APLM), da qual Paula Sobral é fundadora. Tais ações buscam incentivar práticas de letramento ambiental em escolas e instituições de ensino como forma de melhor indicar caminhos que possam diminuir a poluição dos oceanos e mitigar os impactos que seriam desencadeados a partir destes.
“As crianças são naturalmente curiosas, envolvem-se nestas questões, gostam muito, fazem imensas ações e são muito entusiastas. Mas depois vão crescendo, não é? E depois chega aquela altura da adolescência em que outros interesses se levantam, e aí essas coisas ficam esquecidas. Mais tarde, talvez se reavivem, dependendo dos grupos a que pertencem, mas eu não acredito que educar as crianças seja ‘a’ solução. Acho que temos de educar todos: as crianças, os pais, os avós. E muitas vezes são os filhos, até os mais pequenos, que levam essa educação para casa: a reciclagem, como se separa o lixo. Há muitos exemplos de crianças que aprendem isso na escola e levam para os pais, que não ligavam nenhuma e passam a ter essa preocupação”, explica Paula Sobral.
Apesar desses projetos serem importantes, eles sozinhos não conseguem transformar o mundo. Paula ressalta a importância dos governos e do mercado promoverem mudanças substanciais na conservação do planeta. Para ela, o consumidor não pode se adequar sozinho e nem mesmo consegue. A mudança deve vir de cima para baixo, com a imposição dos governos com criação de regulamentações que gerem quedas nas taxas de produção de carbono, uso de plástico e por consequência poluição do meio ambiente, e assim fazer com que o mercado se adeque a essas regras e ofereça aos consumidores opções mais sustentáveis. “É um problema de dificílima solução, se é que a tem, precisamente porque é transversal a todos os setores da sociedade. É muito difícil dizermos: ‘Ah, não, isso solucionava-se assim, era muito simples’. Não, é difícil porque precisa do contributo de muitos setores sociais: desde a administração geral e local, até às entidades que gerem os resíduos e que reciclam, que têm de reciclar muito mais.”
As pessoas que são diretamente afetadas por essas mudanças também sentem medo de perder seus trabalhos, suas práticas e locais que contam também sua história. Izabel Chagas tem um projeto desenvolvido para as mulheres da comunidade que busca essa resiliência.
O projeto consiste em ensinar as mulheres da sua comunidade a utilizar as entranhas dos peixes pescados para fazer ração orgânica para pets. Ela ressalta que essa é uma forma de manter a prática da pesca viva nas comunidades que vêm sofrendo com a migração de pescadores para outras áreas de trabalho em busca de melhores condições financeiras. A ideia é fazer com que a prática continue viva como forma de subsidiar a produção de ração com as entranhas que anteriormente seriam descartadas.O projeto consiste em ensinar as mulheres da sua comunidade a utilizar as entranhas dos peixes pescados para fazer ração orgânica para pets. Ela ressalta que essa é uma forma de manter a prática da pesca viva nas comunidades que vêm sofrendo com a migração de pescadores para outras áreas de trabalho em busca de melhores condições financeiras. A ideia é fazer com que a prática continue viva como forma de subsidiar a produção de ração com as entranhas que anteriormente seriam descartadas.
Para preservar a prática da pesca, Izabel idealiza e propõe processos que movimentam toda a engrenagem de produção.
Para Marlise Araújo, as pessoas não têm muita percepção da importância de manter a saúde do oceano e que ela junto a Associação tem o objetivo de proteger os ecossistemas costeiros e marinhos. Por isso, Associação Brasileira de Combate ao Lixo no Mar (ABLM) tem como um dos seus projetos o “Lixômetro”, realizado pelo Projeto Ilhas do Rio em parceria com a ABLM em 2022, por 11 meses, semanalmente, nas tardes de domingo, em três praias do Rio de Janeiro (Copacabana, Ipanema e Leblon). Bióloga e participante da Associação, conta alguns dos processos que a equipe fez, como coletas simultâneas na faixa de areia acima da linha de maré antes da limpeza pública, contabilização e pesagem dos resíduos. Ao terminar esse processo, os materiais foram encaminhados para o descarte correto. Depois os dados foram analisados para comparação entre as praias.
Marlise complementa falando sobre os movimentos da Associação “Também temos projetos de educação ambiental. É um movimento para levar a cultura oceânica tanto para ambientes informais, como nesses grandes eventos de mutirão, em que montamos barracas, fazemos rodas de conversa, quanto para dentro das escolas, quando elas nos recebem. A ideia é complementar o ensino e estimular que as escolas percebam como o tema da cultura oceânica dialoga com todas as disciplinas.”
A destruição também divide espaço com resposta e adaptação. A natureza demonstra suas próprias estratégias de sobrevivência. Pesquisas lideradas pelo professor Miguel Mies, do Instituto Oceanográfico (IO) da USP, em 2020, revelaram que os recifes de coral brasileiros possuem uma tolerância histórica maior ao aquecimento em comparação aos de outras regiões do mundo. Isso ocorre porque a nossa costa é composta predominantemente por espécies massivas, em formato de blocos de pedra, que possuem tecidos mais espessos e um metabolismo mais resistente ao estresse térmico do que as espécies ramificadas. Outro fator de proteção são os recifes mesofóticos, localizados em águas mais profundas, onde o calor extremo da superfície demora a chegar. Os corais brasileiros também se revelaram mais generalistas, capazes de realizar a symbiont shuffling ou “alternação de simbiose” em tradução direta do inglês, alterando o tipo de microalga parceira dentro de seus tecidos para tentar resistir à febre dos oceanos.
Eduardo Almeida, pesquisador do ICMBio, enxerga nessa resiliência biológica uma oportunidade de conservação no longo prazo, desde que haja tempo hábil para a evolução agir. “Algumas espécies, nas mesmas condições que outras, sobreviveram ao estresse térmico. Se elas viveram, possuem alguma característica genética que as ajudou a suportar aquele aquecimento. Se essas espécies conseguirem se reproduzir, vão gerar descendentes mais resistentes ao aquecimento das águas. Isso pode ser um caminho natural de adaptação. Agora, se vem um aquecimento severo desse a cada ano, de forma consecutiva, a espécie não terá o tempo biológico necessário para se adaptar a essa nova condição”, analisa.
A deterioração da saúde dos oceanos não se limita à perda visual dos recifes de coral ou ao recuo das geleiras nos pólos. Cada fração de grau que aquece as águas, cada tonelada de plástico que vira micropartículas invisíveis e cada evento extremo potencializado pelo El Niño reverberam diretamente na economia, na saúde pública, na agricultura e na subsistência das populações costeiras e do interior do continente. O oceano funciona como o grande coração pulsante do clima global, protegê-lo, portanto, deixou de ser uma escolha isolada e tornou-se a condição primária para a continuidade da vida humana na Terra.









