
Patrimônio geracional: cuidado, crença e musicalidade
Brenda Azevedo, Camila Nakashima, Ingrid Dias e Juliana Siqueira
Este documentário surge a partir de uma inquietação. O tema central da 40ª edição da Curinga são os 80 anos da declaração de Mariana como monumento nacional. A partir dessa proposta, a equipe decidiu mostrar como o patrimônio da cidade vai além da arquitetura colonial, das igrejas e das fachadas. A proposta foi direcionar a câmera para aquilo que não está nos cartões-postais, mas que segue vivo nas pessoas. É a partir dessa inquietação que surge a ideia de que o patrimônio é geracional.
As pessoas são a principal ponte para transmitir o conhecimento, é por causa delas que o patrimônio existe. Por exemplo, a prática do cuidado com ervas no Brasil faz parte da convivência dos povos que residem aqui desde o período colonial. Essa prática se manteve viva até os dias de hoje, devido aos ensinamentos transmitidos entre as gerações. Outra prática que reforça a ideia de patrimônio geracional são as bandas de música, as canções escritas e os instrumentos que se mantêm vivos porque ainda existem pessoas que tocam e cantam essas canções. Os patrimônios e saberes continuam na memória das pessoas, pois elas seguem transmitindo e mantendo esses costumes.
Essa ideia de patrimônio geracional não circula amplamente nos estudos sobre patrimônio, nem se trata de um termo consolidado em outras produções acadêmicas ou jornalísticas. Aqui, ela surge como uma provocação criada pela própria reportagem. A história da cidade também se preserva por meio das pessoas, da oralidade, dos afetos, da fé e das práticas cotidianas.
O patrimônio imaterial compreende as práticas, saberes, celebrações culturais transmitidos de geração em geração por grupos sociais, como festas, danças, músicas, lendas e costumes. Sua proteção ocorre por meio do registro, que reconhece o valor dessas manifestações e contribui para sua salvaguarda. O patrimônio geracional, por sua vez, reforçaria a percepção de que as experiências ancestrais precisam ser ensinadas, e não apenas preservadas em uma “gaveta”, mas transmitidas entre a comunidade. A história brasileira é construída por pessoas e suas experiências e aprendizados também devem ser preservados. A proposta deste documentário não é opor as duas ideias, mas colocá-las em diálogo.
Para produzir nossa reportagem, visitamos patrimônios vivos e imateriais presentes na cidade. Benzedeiras, religiosidades, rituais fúnebres e bandas tradicionais revelam como essa ancestralidade resiste e se mantém viva em Mariana. É por meio do dom, da tradição e do aprendizado compartilhado que esses conhecimentos atravessam o tempo.
“Esses conhecimentos devem ser transmitidos entre as pessoas, para que a ancestralidade continue presente”. As palavras do poeta e quilombola Nêgo Bispo sintetizam a urgência e importância da continuidade dos saberes tradicionais como forma de existência e resistência. É sob essa perspectiva que este documentário foi produzido.

A fé está presente nas práticas religiosas que se mantêm vivas em Mariana. Ananias Romão recebeu a gente dentro do seu terreiro, local onde realiza os rituais religiosos. Foto: Brenda Azevedo
Todos nós temos uma missão na Terra. E um dia isso acaba. É difícil manter um conhecimento que é apenas oral, que vem do dom das pessoas.

Para a benzedeira Maria Eva de Assis, sua missão na Terra se manifesta por meio da fé e da dedicação ao outro. Aos 15 anos de idade, começou a benzer pessoas, dando continuidade a um saber familiar aprendido com a mãe, que por sua vez aprendeu com a avó. Criada entre orações e chás, Eva também criou assim seus três filhos. “Naquela época não tinha remédio, nem SUS [Sistema Único de Saúde] igual tem hoje. Então o chá e a oração faziam parte do cuidado”.

Durante a produção, percebemos que essas práticas também atravessam nossas memórias familiares. Banhos de ervas, chás de erva-doce, erva-cidreira, boldo, entre tantos outros, são utilizados para aliviar febres, dores de barriga e também inquietações da alma. Esses saberes estão diretamente ligados à formação do Brasil e resultam do encontro entre conhecimentos dos povos originários, africanos e europeus, coexistentes no país durante e após a diáspora.
Mas como um patrimônio sustentado, em grande parte, pela oralidade consegue se manter vivo entre gerações? A ideia de patrimônio geracional questiona justamente essa fragilidade. Quando tais saberes permanecem por meio da fala e da prática cotidiana, sem outras formas de registro, reconhecimento ou transmissão, tornam-se vulneráveis ao esquecimento, ameaçados pelo desgaste natural do tempo.
Os entrevistados desta produção enfatizam que a preservação das manifestações inicia-se, sobretudo, pelo reconhecimento e pelo respeito às diversidades culturais e religiosas. Essa reflexão aparece na fala de Lélio Pedrosa, coordenador de patrimônio de Mariana.
O benzimento é uma prática de cuidado do corpo e da alma. Foto: Camila Nakashima
A palavra-chave é respeito com as manifestações culturais e religiosas de cada pessoa. É como se fosse uma horta, vai nascer uma flor diferente, às vezes não precisa cortar e jogar fora,
deixa crescer que pode nascer uma flor bonita.
Faz parte do jardim da vida.

Pensar a continuidade desse patrimônio exige mais do que respeito simbólico, envolve criar condições para que esses saberes sigam sendo praticados, transmitidos e valorizados. Lélio também chama atenção para as transformações vividas por Mariana ao longo do tempo. Segundo ele, a presença da mineração alterou significativamente a dinâmica da cidade. “Mariana antes da mineração era uma cidade que vivia na simplicidade. Depois, quando as mineradoras chegaram, a população aumentou e vieram pessoas de outras regiões do Brasil. Isso acaba mudando as tradições e culturas da cidade”, destaca.
Todo mundo deveria ter um pouco mais de fé. Queimam tudo. Eu não plantei, então como vou queimar as matas? Você está matando a sua própria vida. Não é seu, deixa quieto lá. Se não serve para você, serve para outros que ainda vão vir, e eles vão precisar disso para sobreviver.

Nossa conversa com Ananias Romão, líder religioso, começou com o objetivo de entender as questões da espiritualidade e dos rituais fúnebres. No entanto, ele nos conduziu a outra questão também presente na ideia de patrimônio geracional, o cuidado. Então embarcamos em sua história pessoal, a partir da qual percebemos que as práticas e a espiritualidade acontecem ainda em vida.

O ato de preservar está nos detalhes e saberes. Foto: Camila Nakashima
O documentário evidencia que manter a ancestralidade presente não se limita a rituais específicos, mas passa por uma ética cotidiana de convivência, escuta e continuidade.
Na música, esse elo entre passado, presente e futuro também pode ser ouvido. Para José Luiz Papa (conhecido como Zezinho), baterista da banda Santa Cecília, a música é uma herança familiar. “A música na nossa região é feita com amor. Ela é feita com família. A pessoa não vem para a banda de música para se sustentar financeiramente. Ele vem para a banda de música porque ama, porque tem laço familiar”, afirma.
No aniversário de 126 anos da Banda Santa Cecília, comemorado entre os dias 20 e 23 de novembro, em Passagem de Mariana, acompanhamos como esses laços de cuidado, oração, tradição e musicalidade estão presentes tanto na banda quanto no próprio distrito. Uma das celebrações ocorreu em um trajeto em que a banda tocava os instrumentos e carregava a imagem de Santa Cecília. Nesse percurso, a banda foi recebida pelos moradores em suas casas para tomar o café da manhã. O cuidado e respeito pelo outro ficaram nítidos nesses gestos de carinho e fé entre a comunidade.

A musicalidade da Banda Santa Cecília mantém viva a tradição e as práticas religiosas. Foto: Ingrid Dias
É nesse entrelaçamento de saberes, crenças, práticas e relações que o patrimônio geracional se revela. Não como um conceito fechado, mas a partir de uma lente proposta por esta edição da Curinga, que enxerga Mariana a partir daquilo que pulsa, se transforma e permanece.

