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Por trás das nuvens

Na esteira do crescimento tecnológico, data centers demandam energia e água em larga escala e levantam debates sobre custos ambientais e sociais

Artur Corrêa, Ana Clara Oliveira e Sofia Mosqueira

Nas terras do povo indígena Anacé, em Caucaia, no Ceará, o barulho e avanço das máquinas que preparam o solo anunciam a chegada do futuro. Porém, para quem vive ali, o amanhã promete reproduzir o quadro recente de escassez. A cidade cearense, que passou dezesseis dos últimos vinte e um anos em estado de emergência por causa da seca, foi escolhida para abrigar um novo data center de inteligência artificial (IA) da empresa geradora de energia eólica, Casa dos Ventos. O projeto, que ignora os limites territoriais, a cultura imaterial presente e o histórico de falta de água da região, é um dos crescentes avanços do que pode ser a nova Corrida do Ouro no Brasil: a busca das Big Techs por recursos naturais para suprir seus computadores.

O drama vivido em Caucaia é apenas um dos vários exemplos desse fenômeno que se alastra pelo país. Desconsiderando a realidade hídrica, energética e as comunidades presentes nos territórios, esses projetos escancaram as consequências da revolução digital no Brasil. Isso porque, para que comandos em inteligência artificial e demandas automatizadas sejam realizadas em segundos, supercomputadores precisam funcionar sem interrupção, 24 horas por dia. Para esse feito, é necessário um consumo imenso de energia elétrica e, principalmente, de água para resfriar as máquinas e evitar o superaquecimento.

No final do ano passado, a Casa dos Ventos, em parceria com a empresa Omnia WN Holding, anunciou a construção do centro de dados em Caucaia com capacidade inicial de 200 megawatts (MW) de potência de TI, podendo chegar à 300 MW, o equivalente ao consumo de energia de cerca de 2,2 milhões de pessoas, segundo dados do Idec (Instituto de Defesa dos Consumidores). A Casa dos Ventos recebeu autorização do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) para se conectar à rede elétrica nacional e projeta um investimento acima de R$ 50 bilhões. A infraestrutura vai ser entregue para a Big Tech chinesa ByteDance, empresa controladora do TikTok. Os dados processados, apesar de fisicamente localizados no Brasil, servirão para demanda externa.

Emílio Francesquini, doutor em Ciência da Computação e professor na Universidade Federal do ABC (UFABC), explica que, para se ter uma noção da dimensão dessa potência, podemos fazer uma comparação com um chuveiro elétrico. “Um chuveiro elétrico, o mais potente que você vai conseguir comprar, vai ser 7500W. Quando a gente fala de 1 MW, a gente tá falando de 1 milhão de watts, então, estamos falando de pelo menos uns 140 chuveiros, ligados ao mesmo tempo, no máximo”.

Ao mesmo tempo, a Usina Hidrelétrica de Itaipu, a maior do mundo em termos de capacidade instalada, possui uma capacidade máxima instalada de 14 mil MW. Levando em consideração o consumo médio de dez MW para uma cidade de 100 mil  habitantes, Itaipu seria capaz de abastecer 1.400 cidades como essa. Isso significa que, um único data center de mega porte, como os voltados à inteligência artificial, com potência mínima de 20 MW, consumiria o equivalente a duas dessas cidades, ou uma com o dobro de habitantes.

“Pensa em uma cidade com 200 mil habitantes, todas as pessoas usando energia para as coisas do dia a dia e, ao mesmo tempo, você tem um data center que gasta aquele tanto igual, é uma quantidade de energia enorme”

- Emílio Francesquini - Professor da UFABC

Enquanto grandes corporações do setor da tecnologia da informação disputam uma corrida para anexarem unidades em território nacional, comunidades tradicionais e especialistas acendem o alerta para o esgotamento de recursos naturais e conflitos territoriais. Em Caucaia, a construção do data center já avança sobre terras tradicionais do povo indígena Anacé e gera revolta e insegurança sobre o abastecimento hídrico e da posse de seu território.

O caso no Ceará não é isolado. Por conta de seu extenso território e grande potencial hídrico e grande reserva de energia renovável, o Brasil virou foco das Big Techs para a instalação de seus centros de dados. Além disso, é um país estrategicamente bem localizado, com cabos submarinos ligados à Europa e outros continentes, o que facilita a troca intercontinental de dados. Atualmente, de acordo com a Associação Brasileira de Data Centers (ABDC), o Brasil possui 128 instalações associadas. Entretanto, de acordo com o site Data Center Map, primeira ferramenta de pesquisa sobre o tema, o número de unidades já chegou em 206. Essa rápida crescente nos número é resultado de uma corrida veloz com valores exorbitantes que não se restringem somente ao Nordeste. A empresa Ascenty, maior provedora de serviços de data center e conectividade da América Latina, já anunciou um investimento de mais de

R$6 bilhões para construir quatro unidades focadas em inteligência artificial no estado de São Paulo.

O ponto central desse avanço na região paulista é o chamado complexo Sumaré 3. Suas obras começaram em março deste ano, e será a primeira unidade na América Latina projetada desde a concepção para suportar cargas de trabalho de inteligência artificial em larga escala. A empresa promete uma estrutura de resfriamento líquido direto no chip em circuito fechado, reduzindo consideravelmente o consumo de água no funcionamento. Em outro viés, a demanda energética necessária é altíssima e mantém o alerta sobre os limites de como o ecossistema brasileiro irá aguentar e sustentar todo o sistema de nuvem de dados em seu território.

As promessas de que todo esse investimento no setor tecnológico informacional no Brasil respeitará as comunidades e a realidade ambiental do país não atende à realidade atual. Em entrevista para a Revista Curinga, o Cacique Geral Roberto Anacé, do povo tradicional de Caucaia, afirmou que em nenhum momento sua comunidade foi consultada ou procurada para discutir o projeto de construção de um data center no território. A comunidade pouco sabe ou sequer tem a dimensão do que é um centro de dados, e o líder  relatou que só teve conhecimento do projeto da empresa Casa dos Ventos a partir de uma matéria produzida pelo The Intercept Brasil e ainda sente incerteza com o que está por vir. “Ainda hoje acredito que conhecemos apenas 10% ou 20% desse monstro que está chegando. E o chamamos de monstro justamente porque ainda não o conhecemos completamente. Isso faz parte da natureza humana: tendemos a demonizar aquilo que não conhecemos”, afirma.

O Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública da União (DPU), no entanto, realizaram, no último mês de maio, uma recomendação conjunta para que o licenciamento ambiental do data center Pecém, nome dado à instalação em Caucaia, cumpra novas medidas e que as atividades só se iniciem após o cumprimento delas. Segundo nota divulgada pelo MPF, a recomendação aponta fragilidades no licenciamento ambiental e cobra a realização de consulta ao povo indígena Anacé e a outras comunidades tradicionais. O órgão também exige o reforço no monitoramento hídrico, energético, arqueológico e socioambiental do empreendimento. Além disso, o projeto tem potencial para gerar impactos no território do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP), que, segundo a recomendação, já enfrenta múltiplas pressões socioambientais relacionadas à água, energia, solo, vegetação, ruído, calor, circulação logística e às comunidades locais e tradicionais.

Apesar dessas recomendações e dos questionamentos levantados por órgãos como o Ministério Público Federal (MPF) e por organizações da sociedade civil, a atuação da Superintendência Estadual do Meio Ambiente do Ceará (Semace) tem sido alvo de críticas pela condução do processo. Isso porque o órgão aprovou o licenciamento ambiental por meio de um procedimento simplificado, mesmo diante de indícios de alto impacto socioambiental e vale ressaltar que não houve qualquer consulta prévia ao povo indígena Anacé.

“Eles querem que o povo fique realmente nas mãos, precisando de água, precisando de energia, mas não fornecem nada disso” - Roberto Anacé

A ausência de respostas públicas consistentes e a continuidade das obras, mesmo sob investigação e contestação, reforçam a percepção de uma postura omissa por parte da Semace frente às denúncias e às demandas das comunidades afetadas. Esse cenário tem intensificado os conflitos, levando, inclusive, à ocupação do canteiro de obras por indígenas Anacé, que denunciam a violação de seus direitos territoriais e a falta de diálogo institucional. Ainda segundo o Cacique, há também uma tentativa de deslegitimar os motivos pelos quais a comunidade tem lutado em relação ao data center, “A toda paralisação e a toda ação que a gente faz, esse grupo que compõe o data center diz que muitas vezes a nossa luta não é isso, é pela demarcação. Sim, a nossa luta é pela demarcação, mas a nossa luta é para defendermos a fronteira de nossa demarcação, que a gente sabe que os seus tentáculos chegam dentro da nossa aldeia. O data center não respeitou os nossos protocolos em nenhuma vírgula, e o canteiro de obra está aberto”. Atualmente, o povo Anacé possui um protocolo oficial para consulta, consentimento prévio, livre e informado. O material encontra-se disponível e possui informações sobre quem são, objetivo do protocolo e quando o povo deve ser consultado, por exemplo.

O que é um data center?

A definição do site da International Business Machine (IBM), empresa pioneira na computação global, explica que os data center são locais físicos que abrigam máquinas de computação e sua infraestrutura. Essas máquinas são responsáveis por armazenar, processar e distribuir dados, executar tarefas, sendo que toda empresa precisa desse equipamento para executar qualquer ação na internet. “De maneira simplista, um data center nada mais é que um galpão gigante, onde você, por conveniência, reúne um monte de computadores juntos. Esse galpão precisa de uma fonte de energia robusta, pela quantidade de computadores que estão ali dentro, precisa ser um ambiente climatizado, com  aparelhos que cuidem do resfriamento do local. Você também precisa de uma conexão de internet robusta, porque basicamente tudo que o data center vai processar lá são requisições que vêm de usuários de outros lugares. Por exemplo, quando você faz uma busca no Google, provavelmente ele vai cair no data center do Google em São Paulo, mas talvez algumas coisas do seu processo tenham que ser feitas em outros data centers que estão espalhados pelo mundo”, explica o professor Emílio, doutor em Ciência da Computação.

Os centros de processamento de dados podem ser divididos em alguns tipos e variam de acordo com as demandas e cargas de trabalho. Nos últimos anos, além dos data centers tradicionais, que dão suporte à computação geral, aplicações empresariais e bancos de dados, por exemplo, surgiram aqueles especializados em Inteligência Artificial (IA). Enquanto os modelos tradicionais utilizam majoritariamente a Unidade Central de Processamento (CPU), as centrais voltadas para as IAs já contam com a Unidade de Processamento Gráfico (GPU), capazes de processar e executar inúmeros dados simultaneamente. Nos data centers modernos, CPUs e GPUs desempenham funções diferentes, mas complementares. As CPUs executam tarefas mais simples, de forma sequencial, enquanto as GPUs realizam tarefas de forma paralela e simultânea. Essa característica torna esse tipo de processador mais eficiente para demandas que envolvem inteligência artificial, já que ele possibilita a geração e reconhecimento de vídeos e imagens, identificação de linguagem humana e uma extensa gama de tarefas. Entretanto, há um grande gasto de energia elétrica para seu  funcionamento, água para o seu resfriamento e a manutenção é consideravelmente maior.

Design de arte: Johann Zanuzzi

“As GPUs de alto desempenho consomem muita energia, mas elas gastam menos energia por processamento do que uma CPU tradicional gastaria para fazer a mesma operação. Então as GPUs, em termos de economia de energia, são mais eficientes do que CPUs. Por outro lado, quando você bota milhares delas num lugar só, o uso de energia passa a ser realmente considerável. Não é simplesmente que ‘uma GPU gasta energia demais’, é um montão delas juntas que estão gastando energia demais, e a quantidade de GPUs que é necessária para usar a inteligência artificial é um número absurdo”, explica Emílio. 

Sem interrupção, os data centers são mantidos em funcionamento 24 horas por dia, durante sete dias por semana. Qualquer eventual erro pode derrubar ou interferir em processos realizados por milhões de pessoas e, por isso, as empresas possuem subestações e geradores exclusivamente dedicados à atividade. Quanto mais elaborada for a demanda computacional, maior o consumo de energia, e que com atividades realizadas pelas GPUs o gasto é relativamente maior se comparado com às máquinas tradicionais. Em decorrência desse fato, o acesso à energia virou um dos principais critérios para definir onde novos data centers serão instalados. O Brasil é um atrativo relevante para a instalação dos centros, já que possui sua matriz energética limpa baseada em hidrelétricas.

Um ponto sensível e grande impacto ambiental causado pelo funcionamento dos data centers de hiperescala, é o grande consumo de água para seu resfriamento. Durante a execução de suas tarefas, os processadores liberam muito calor e a temperatura da estrutura fica muito elevada. Para a sua manutenção e conservação, é necessário que os mesmos sejam resfriados de forma hídrica, em  que a água, em sua forma líquida, passe pelo data center e absorva o calor dos componentes, evitando assim o superaquecimento.

Para explicar esse processo, Francesquini divide o resfriamento de data center em três tipos:

Design de arte: Johann Zanuzzi

Mesmo com outras maneiras de realizar esse resfriamento, as alternativas se tornam pouco atrativas pelo valor alto de desenvolvimento, nesses casos, o planeta sofre as consequências da escolha pelo custo. Apesar das alternativas, Julia Catão, advogada e cientista social, explica sobre o aumento de energia e esgotamento dos recursos planetários nesses casos. “A indústria fala: ‘Não, mas agora a gente tem o sistema fechado de água, então a gente pode construir 10 vezes mais data center porque ele vai gastar menos água do que o sistema aberto. E aí com isso a gente já tem mais 20 data centers que aumentam o consumo de energia e você continua nessa lógica de crescimento que vai esgotando o mesmo planeta, no final das contas”. No Brasil, o uso de água ainda é bem baixo, já que são poucos os data centers de hiperescala em operação dedicados à inteligência artificial. Porém, esse cenário deve mudar com a investida das Big Techs pela instalação dos novos data centers de IA no território brasileiro.

Novos investimentos se chocam com emergência climática

Os impactos dessa expansão não se limitam apenas ao município cearense de Caucaia. Eles evidenciam um padrão que se repete em diversas regiões do país, atingindo territórios já fragilizados por crises ambientais recentes. Em Eldorado do Sul, no Rio Grande do Sul, onde enchentes históricas em 2024 deixaram grande parte da cidade submersa e expuseram a vulnerabilidade urbana diante de eventos climáticos extremos, um novo empreendimento do tipo surge como símbolo dessa contradição. O empreendimento, Scala AI City, da Scala data centers, prevê um distrito de data centers voltado à IA. E será instalado justamente em uma das poucas áreas que não foram atingidas pelas águas, o que, longe de representar apenas uma vantagem técnica, acirra disputas sobre o uso do solo em um território ainda em processo de reconstrução social e material. 

Apesar da distância territorial, as queixas no Rio Grande do Sul são as mesmas do povo Anacé do Ceará. O nosso grupo de repórteres conversou com Sirlei de Souza, de 63 anos, uma das líderes da comunidade de Charqueadas, localizada a menos de 4km do terreno do data center. Segundo ela, a comunidade local também não recebeu nenhum aviso prévio ou explicação sobre o que é um centro de dados. Ela disse que 80% da população não sabe do que se trata, a empresa simplesmente chegou, não deu “nem boa noite ou bom dia” para os moradores. As informações que Sirlei obteve foram por meio de notícias genéricas sobre a instalação de uma “microempresa” que traria benefícios, além de pesquisas próprias que ela realizou após o contato de terceiros, como Naira Hofmeister, repórter (Environmental Reporting Collective do Dirty Data), e a participação em audiências públicas com o deputado estadual Matheus Gomes (PSOL).

Sirlei menciona que a maior preocupação da comunidade que vive no loteamento de Guaíba City, em Charqueadas, é com o abastecimento de água e energia elétrica. Como a região depende de poços artesianos e o data center consumirá água e energia, há o temor que o lençol freático seja afetado rebaixando o nível de água e consequentemente deixando mais de 300 famílias com o abastecimento prejudicado. Além disso, a energia local já é precária e sofre com constantes quedas e dias inteiros sem luz, comenta a moradora.

Sobre o consumo de água do centro de dados, o relatório final da Subcomissão dos Data Centers (Subdata) da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul (ALRS) realizou um cálculo que compara o consumo de Eldorado do Sul como sendo muito menor do que o de um data center em circuito aberto. De acordo com o IBGE, estima-se que a população de Eldorado do Sul, de aproximadamente 41 mil habitantes, consuma cerca de 6.712 m³/dia. Comparado à capacidade de uma piscina olímpica, esse valor diário equivale a 2,7 piscinas. Caso um data center de 1,8 GW opere com sistema aberto, o consumo hídrico seria de aproximadamente 77.760 m³, equivalente ao enchimento de 31 piscinas olímpicas por dia. Já com um sistema fechado dimensionado no limite máximo indicado pelo Redata, a estimativa é de 2.160 m³, aproximadamente 0,86 piscina olímpica por dia. 

Há também a preocupação com o descarte incorreto da água utilizada para o resfriamento do data center, os moradores temem que ela seja diretamente descartada no solo e prejudique a produção de arroz orgânico dos assentamentos vizinhos e, consequentemente, afete a renda dessas famílias. Embora haja a promessa de criação de 3.500 empregos, a entrevistada aponta que isso ocorreria apenas na fase de construção. Depois disso, não haveria vagas para a população local, já que não há pessoas qualificadas na comunidade para esse tipo de trabalho, e a empresa não ofereceu cursos de capacitação.

Em Caucaia, o questionamento sobre os empregos é o mesmo. Segundo o cacique Roberto, a promessa não vale a longo prazo, e as vagas oferecidas são apenas braçais.

 “O único emprego para para cá, se nós tivéssemos no momento da invasão, seria só escravidão.”

- Cacique Roberto Anacé

“São os empregos braçais e quando terminar todos vão ser demitidos, porque eles não vão querer um pedreiro trabalhando no meio dos computadores, um servente trabalhando no meio dos computadores, ninguém tem perspectiva de ficar. Esse é um impacto que eu chamo de impacto sanfona, emprega todo mundo, depois desemprega. E depois vão dizer que ‘são todos favelados’, que ‘ninguém presta na favela’. Então, daqui um dia todo mundo dentro da minha aldeia é ladrão de terra, é ladrão de alguma coisa”, diz o cacique.

Recentemente, a Prefeitura de Caucaia chegou a disponibilizar vagas de trabalho voltadas para o novo data center. O anúncio, contudo, escancarou a realidade excludente: todas as oportunidades oferecidas eram destinadas exclusivamente à fase de construção civil, com serviços braçais e temporários. Para os moradores da região, restou o trabalho pesado nos canteiros de obras, já os empregos permanentes e qualificados na área de tecnologia e operação continuam nas mãos de profissionais de fora. Esse modelo de desenvolvimento, que deixa o lucro e a tecnologia com os de fora e o impacto ambiental com quem vive no território, atropela a própria existência de quem cuida da terra há gerações.

As vagas oferecidas são para as obras do data center e a preocupação local é que permaneça dessa maneira. Reprodução: Prefeitura de Caucaia. Design de arte: Johann Zanuzzi

Em entrevista para a Curinga, Júlia Catão conta que acompanhou de perto o processo do data center em Caucaia. Segundo ela, enquanto a mídia local anuncia cerca de 15 mil postos de emprego, no processo de licenciamento, constam 400 empregos na fase de construção, em dois turnos. “Isso é muito pouco, além disso, ‘data center’, que é uma palavra em inglês, você associa a inovação, a desenvolvimento. E nada mais é do que a casa de máquina, não tem gente lá desenvolvendo inteligência artificial”.

De acordo com Vitória Battisti, advogada que integrou a comissão técnica responsável pela elaboração do relatório da subcomissão sobre data centers no Rio Grande do Sul, através do Requerimento de Subcomissão nº 1/2025, de autoria do deputado Matheus Gomes,  um dos principais desafios relacionados à fiscalização e à transparência desses empreendimentos está na limitação orçamentária dos órgãos ambientais, como as secretarias estaduais, que não possuem recursos suficientes para acompanhar de forma contínua projetos de grande porte, dificultando o monitoramento de aspectos como consumo de energia e descarte de resíduos.

Ela  também aponta a existência de uma assimetria informacional, que impede tanto a população quanto parlamentares de acessarem informações básicas sobre os projetos, muitas vezes tratadas com pouca transparência pelo poder público. Outro problema destacado é a ausência de diretrizes nacionais, já que não há uma regulamentação unificada que estabeleça critérios mínimos para a instalação de data centers, deixando essa definição a cargo de cada estado. “Está cada vez mais claro que existe a necessidade de uma regulamentação específica para data centers diante da dimensão do empreendimento, assim, e que hoje as nossas normas talvez não deem conta”, avalia.

A falta de uma legislação específica também impacta a participação social, pois nem sempre são exigidos estudos ambientais mais rigorosos, como o Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA-RIMA), o que dispensa a realização de audiências públicas e reduz o envolvimento da sociedade. Por fim, Vitória ressaltou a carência de dados técnicos essenciais por parte do próprio Estado, como o mapeamento completo das águas subterrâneas, o que compromete a avaliação precisa dos impactos ambientais, especialmente no que diz respeito ao uso dos recursos hídricos.

Na cidade de Uberlândia, em Minas Gerais, a promessa de um data center também assusta a população e os pesquisadores locais. O projeto, anunciado pela empresa norte-americana RT-One, promete um investimento inicial de R$ 6 bilhões e cerca de dois mil empregos permanentes, segundo anúncio da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG), “O data center contará, na primeira etapa, com capacidade instalada de 100 MW, com plano de expansão para até 400 MW, operando com padrões internacionais de eficiência energética e utilizando 100% de energia renovável. A unidade também será a primeira do país a buscar certificação internacional de sustentabilidade”. No entanto, o projeto foi realizado sem nenhum tipo de licenciamento ambiental e enfrenta questionamento dos seus impactos, motivação da empresa, que não possui histórico de infraestruturas em tecnologia e um anúncio de outro centro em Maringá, no Paraná, que, possivelmente, irá extrair água do subsolo para resfriar o seu data center.

Pensando nisso, a advogada de direito digital e professora da Universidade de Uberlândia (UFU), Naiara Vilela, realizou uma proposta legislativa para implantação de data centers no município. O projeto surgiu a  partir de pesquisas sobre os avanços tecnológicos e o investimento que vem sendo realizado na cidade. Esse movimento gera preocupações em relação aos recursos necessários para manter essas estruturas. A proposta foi realizada através de um projeto de extensão da Faculdade de Direito da UFU, com participação dos alunos. “A gente não quer barrar o desenvolvimento tecnológico, mas também queremos ter uma sustentabilidade, algo que seja voltado também para a sociedade”, explica a professora.

De acordo com Naiara, o projeto do data center foi apresentado como um investimento de grande porte para Uberlândia, com potencial de transformar a cidade como um polo tecnológico e de infraestrutura digital. O município possui características estratégicas, como localização central, universidade com  graduação voltada para IA e, além de infraestrutura, logística e conectividade. O trabalho e os estudos produzidos têm o objetivo de  equilibrar o desenvolvimento tecnológico com o planejamento sustentável que envolve os impactos urbanos, energéticos, ambientais e hídricos causados pela instalação dos centros tecnológicos em questão.

Em fevereiro deste ano, a proposta foi protocolada à vereadora Amanda Gondim (PSOL), que levou o projeto para a Câmara Municipal de Uberlândia. A vereadora, que tem conduzido a discussão dos data centers no legislativo municipal, defende a criação de um marco legal com regras claras para o setor. Ainda este mês, em um seminário na Câmara dos Deputados, Amanda declarou que tanto a Prefeitura como a empresa responsável não forneceram informações sobre o investimento.

Além disso, a estimativa é de que o consumo de água pelo data center seja equivalente a 239,3 mil litros de água por dia, em Uberlândia, o consumo médio da população em 2025 foi de 259,99 litros de água, segundo dados da prefeitura. A vereadora aponta também inconsistências no projeto: “não existem documentos oficiais sobre esse empreendimento, essa empresa, que diz ter seis milhões para investir na cidade, é uma empresa de pequeno porte, que tem uma sede física em uma casa em São Paulo, e em uma galeria em um shopping nos Estados Unidos”, diz durante uma fala na Câmara. 

Segundo Naiara, Uberlândia também enfrenta problemas de escassez de água e na rede elétrica, com casos recorrentes de falta de energia, o que causa preocupação em relação aos impactos ambientais do data center, que precisam ser estudados levando em consideração a infraestrutura da cidade. “O desenvolvimento tecnológico precisa ser acompanhado de um planejamento a longo prazo. Então, no caso de abastecimento de água e de energia, as cidades precisam avaliar sua capacidade instalada ali antes de receber esse empreendimento de grande escala”, afirma.

A proposta apresentada na Câmara gira em torno de alguns princípios relacionados com a sustentabilidade e o meio ambiente. “Por exemplo: exigência de estudo prévio de impacto ambiental e urbano, que pode ser colocado na transparência dos indicadores de consumo de água e de energia; incentivo a adoção de fontes renováveis para a gente ter energia e também esse resfriamento; reutilização de água quando ela for tecnicamente viável; mecanismos de monitoramento contínuo; e também a participação social nesse processo de implantação".

Tanto Amanda como Naiara apontam que o objetivo não é frear o desenvolvimento digital, e sim fazer com que a legislação acompanhe os avanços tecnológicos. “O futuro digital que queremos construir depende das escolhas que fazemos hoje. Tecnologia e sustentabilidade não são caminhos opostos, eles podem caminhar juntos e  precisamos fazer parte do mesmo projeto dessa sociedade. Qual a sociedade que a gente quer deixar para o futuro?” aponta Naiara.

A falsa soberania digital

O projeto da Universidade Federal de Uberlândia tenta contornar um dilema que Brasília ainda não conseguiu. Enquanto iniciativas em diferentes locais  buscam proteger seus recursos por meio de iniciativas regulatórias dispersas. É o caso do Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter), criado em setembro de 2025 para suspender impostos federais e de importação de equipamentos para as Big Techs. A suspensão se converteria em alíquota zero (benefício fiscal no qual a lei determina que o percentual de um imposto seja de 0%)  após o cumprimento de compromissos de investimento em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), sustentabilidade, energia limpa e disponibilização de capacidade ao mercado interno.

O Projeto de Lei (PL), no entanto, segue no Senado com 13 emendas e requerimento de urgência, mas sem data definida para votação. A justificativa do PL aponta que o Brasil ocupa apenas a 10ª posição no mercado mundial de data centers, com participação de cerca de 2% do total global, além disso, a discussão entra na pauta de soberania nacional, já que a expansão do setor também está associada à necessidade de garantir que dados estratégicos sejam processados e armazenados em território nacional, como reforça os defensores do PL 278/2026.

Apesar desse discurso, a condução do PL tem levado à aceleração da tramitação, priorizando a concessão de incentivos fiscais a grandes empresas do setor sem uma avaliação aprofundada dos efeitos socioambientais, territoriais e tarifários associados à expansão dessas infraestruturas, como critica o Instituto de Defesa de Consumidores (Idec). Além disso, a permissão para uso de energia limpa no Redata é genérica e não possui delimitação de fontes de baixo impacto, apenas  estabelecendo  limites para o uso da água, sem critérios claros para o consumo de energia.

Outro ponto importante é que o projeto não prevê que os dados processados sejam nacionais. Segundo o PL, ao menos 10% dos serviços (armazenamento, processamento e tratamento de dados) deverão ser reservados para o mercado interno. Porém, esse número diminui em 20% em casos de empreendimentos nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Tudo isso significa que apesar do data center estar localizado fisicamente no Brasil, seus dados e serviços não serão, necessariamente, voltados à indústria nacional, o que coloca em pauta a fragilidade do projeto em relação a soberania digital.

 Julia Catão foi coordenadora do programa de consumo sustentável do Idec e acompanhou o PL de perto. Atualmente, é consultora, pesquisadora e ativista.

“Foi um processo que se deu completamente sem participação social, sem poder de influência da sociedade civil que já estava trabalhando no tema e acompanhando as discussões” - Júlia Catão

A narrativa do Redata, apesar de procurar um desenvolvimento digital, ignora questões ambientais. Além disso, a pauta da soberania digital tem sido discutida de maneira superficial, uma vez que o processamento de dados em território nacional não significa necessariamente seu uso por empresas ou instituições brasileiras. A instalação desses equipamentos também não significará o investimento em tecnologia nacional. 

Rodolfo Avelino, especialista em cibersegurança e membro do conselho da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS), da Latin American Cybersecurity Research Network, afirma como é importante para cada país exercer o controle sobre suas próprias infraestruturas digitais. 

“A soberania digital compreende a capacidade de uma nação ter autonomia tecnológica, ter uma uma gestão que não dependa de tecnologia externas, sobretudo as tecnologias que são aplicadas em infraestruturas críticas como segurança, como saúde, como educação.” 

- Rodolfo Avelino - membro do conselho da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS)

Caso um país seja dependente de tecnologias do exterior, ele se torna subordinado a interesses alheios e dependente de empresas estrangeiras que estão fora do seu domínio.

De acordo com o jornal Le Monde Diplomatique Brasil, atualmente, o país é um dos que mais produz dados no mundo, mas não tem soberania sobre eles. É uma das sociedades mais conectadas do mundo, mas depende de infraestrutura estrangeira. A soberania digital é justamente não depender dessas infraestruturas. O megacomplexo de Caucaia, por exemplo, operado pela Casa dos Ventos, processará dados da empresa ByteDance (controladora do TikTok), voltados para o mercado externo. Ou seja, o Brasil cede sua água, sua energia e seu território, mas o produto final, o processamento e a inteligência saem para o exterior.

Os usuários e consumidores dificilmente veem essa realidade que está além das telas. O que a corrida por recursos e territórios nas empresas do ramo da tecnologia da informação mostra é que a nuvem de armazenamento e processamento é muito mais física. Ela possui endereço, consome recursos essenciais e gera consequências em cada território que é instalada.

O desenvolvimento tecnológico ganha cada vez mais força, mas enquanto o país não definir regras ambientais e exigir contrapartidas sociais efetivas, o progresso no ramo digital continuará sendo construído sobre os recursos do presente. Para comunidades como as de Caucaia, o suposto progresso não pode vir em formato de monstro. Como observa Roberto, ele deveria, antes de tudo, garantir o direito básico de sua comunidade continuar existindo em sua própria terra, com energia de qualidade e água limpa.

“O meu povo não entende para que tanta pressa de viver tudo ao mesmo tempo. Esquecendo dos segredos que a vida nos traz, que é importante se descobrir, se é aprendizado, esquecer da tradicionalidade de quem de quem nós éramos. É deixar o espírito para trás.”

- Cacique Roberto Anacé

Data Centers verdes?

Apesar do discurso crescente sobre sustentabilidade, a expansão dos chamados data centers verdes levanta questionamentos sobre as práticas de greenwashing (estratégia em que as empresas promovem uma imagem ambientalmente responsável sem mudanças reais). Embora essas infraestruturas adotem medidas como a virtualização de servidores, uso de energias renováveis e reciclagem de equipamentos, especialistas apontam que tais iniciativas muitas vezes não compensam o alto consumo energético e o impacto ambiental desses empreendimentos.

Como explica Julia Catão, a crescente percepção da crise socioambiental pela população tem pressionado empresas a mudarem seus discursos. Segundo ela, para manter seus modelos de produção e lucro, essas empresas recorrem ao greenwashing, tentando encobrir práticas que contribuíram para os próprios problemas ambientais. Nesse contexto, surgem os “discursos verdes”, que funcionam como respostas superficiais a uma crise que já é sentida no cotidiano e ligada aos limites de sobrevivência do planeta.  “Eu acho que isso faz parte desse novo momento do mundo em que a gente está, em que, de algum jeito, é preciso ‘enverdecer’ as práticas industriais para que elas continuem existindo. Mas eu não acho que exista data center sustentável. O planeta é finito, e essa é uma infraestrutura que vai consumir água e energia”.

Na mesma linha, o especialista em vigilância e cibersegurança Rodolfo Avelino questiona a veracidade das promessas de sustentabilidade total dessas infraestruturas, “Embora eles estejam prometendo data centers verdes, movidos a energias renováveis, etc, isso é mentira, é impossível um data center funcionar a 100% do tempo a energia renovável”, afirma. Emílio Francesquini explica que parte do problema está no modo de vida moderno, em que os data center fazem parte do dia a dia. A partir disso, o professor aponta algumas alternativas de resiliência climática que poderiam diminuir os impactos dos data centers, desde escolhas pessoais, apesar de uma iniciativa fraca para o impacto dessas estruturas, atitudes legislativas, até soluções técnicas no desenvolvimento digital.

 “Por exemplo, cada busca que você faz no chatgpt você gastou uma garrafa d'água, isso envolve o modo de vida moderno, o nosso modo de vida hoje está muito ligado a tecnologia de comunicação e informação em geral e isso funciona em data centers” - Emílio Francesquini

Embora os centros de processamento de dados sejam importantes para a economia atual, esses empreendimentos ainda funcionam, em grande parte, sob as lacunas normativas que desconsideram suas vulnerabilidades e impactos, diante das mudanças climáticas. Assim, sem diretrizes claras que orientem a sua instalação, consumo de recursos e adaptação a eventos extremos, corre-se o risco de consolidar um modelo de desenvolvimento tecnológico, que ao mesmo tempo que sustenta financeiramente o hoje, compromete a segurança do futuro. Considerando que mesmo que as legislações avancem, elas possivelmente não são o suficiente para garantir um futuro sustentável.

Para Júlia Catão, a resiliência climática está no questionamento: “Ao que estamos dispostos a dar a nossa água, a nossa energia e aumentar as nossas emissões?” Segundo a cientista social, é preciso colocar o uso da inteligência artificial oposta à lógica de mega data centers na balança pelo uso de recursos, e não só isso, é preciso repensar esse modelo de instalação e a viabilidade dele no nosso território.

Se não existe a possibilidade de um data center 100% sustentável, vale o questionamento: seria possível um modelo de organização que processe os dados de outra maneira? Se não, como se preparar e evitar com que o planeta sofra as consequências dessa organização? Tanto em sua infraestrutura quanto em relação às populações, no ramo do desenvolvimento tecnológico informacional, o planejamento é mais importante do que vencer a corrida digital.

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A Curinga é um produto editorial da disciplina Laboratório Integrado II: Grande Reportagem Multiplataforma, elaborado por estudantes do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto. Confira a edição 41: Eventos Extremos e Resiliência Climática.

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