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Sob a pedra, o sangue

Cecília Caetano, Giovanna Marçal, Mateus Del'Amore e Pamela Lima

Dum lado cana de açúcar

Do outro lado o cafezal

Ao centro senhores sentados

Vendo a colheita do algodão branco

Sendo colhidos por mãos negras

(Jorge Ben Jor, Zumbi, 1974)

A história de Zenga não está nos arquivos oficiais. Ela é uma reconstrução possível, criada a partir de padrões históricos, entrevistas, documentos fragmentados e memórias orais.

 

No século XVIII, às margens do Rio Congo, nas redondezas da cidade de Boma, vivia Zenga, um jovem da realeza nos tempos do rei do Congo Anzinga a Ancua, do Clã Kilukeni. Zenga, por volta de seus 14 anos de idade, gostava de pescar e nadar no rio com seus primos e irmãos. Vivia em uma cabana bem feita, com arranjos, enfeites e pedras ornadas pela sua mãe, Zuri, uma mulher carinhosa e afetuosa, que era o seio da família de Zenga. 

 

Algum tempo depois, em uma tarde quente, na costa oeste do continente africano, apareceu um homem branco, vindo pelas margens do Rio Congo. Era um navegador português, por nome de Diogo Cão, com uma tripulação de uns 20 homens, também lusitanos. Eles estavam no continente em uma missão de explorar territórios e propagar suas crenças. Depois deste encontro, nada mais foi igual na terra de Zenga. Ele percebia, dia após dia, a influência daqueles homens no comportamento de seus conterrâneos. Eles, que antes cultuavam seus próprios deuses, estavam sendo levados para um estranho ritual no rio Congo, aprendendo uma fé diferente e mudando seus nomes. Até mesmo seu tio Anzinga a Ancua mudou seu nome para João I, em homenagem ao rei João II de Portugal. Com a inesperada mudança do seu tio, que era a pessoa mais importante do reino, tudo acabou mudando.

Kênio, morador da Prainha, com uma pepita de ouro na mão, nos lembra que o garimpo ainda marca a memória, a identidade e permanência de muitas famílias em Mariana. Foto: André Luís Costa 

 Ilustração antiga, do século XVI, mostrando uma cerimônia no Reino do Congo. No centro, o rei está sentado em um trono elevado, cercado por autoridades e religiosos. À frente, soldados africanos e europeus armados participam do evento. Ao fundo, há montanhas, árvores e um céu claro. A cena mistura elementos africanos e europeus, como vestimentas tradicionais e símbolos cristãos.

Gravura do século XVI que representa uma cerimônia no Reino do Congo (Kongo), baseada nos relatos de Duarte Lopes e publicada por Filippo Pigafetta em 1591. A imagem revela o contato entre africanos e europeus e a presença do cristianismo no Congo pré-colonial. Crédito: Olfert Dapper "Naukeurige Beschrijvinge der Afrikaensche Gewesten"

Os forasteiros conquistaram um certo poder sobre os habitantes do reino, seus territórios, suas mulheres e suas criações e posses. Zenga observava tudo aquilo com uma mistura de preocupação e medo, assustado com essas pessoas que, aos poucos, estavam tomando para si tudo o que era dele e de sua família. 

 

O perigo crescia no reino. A tripulação portuguesa já não se limitava aos vinte homens iniciais; seu número crescia, e com eles, a audácia. Eles passaram a ver o sequestro das mulheres da realeza como uma forma de poder. Zuri era um alvo. Zenga despertou e, vendo a mãe ser amordaçada e levada à distância, estava determinado a lutar com bravura para reconquistar a liberdade dela.

 

Zenga conseguiu desferir um golpe rápido, tirando um dos homens de combate por um instante. Mas o contra-ataque foi instantâneo. Estando sozinho, ele não teve tempo de se defender. Um segundo raptor interveio de imediato, dominando-o e o amarrando. Em seguida, golpeou sua cabeça que o fez perder os sentidos. O despertar de Zenga foi lento e doloroso. Ao sair do apagão, ele se viu em um lugar escuro, úmido e dominado por um cheiro nauseante. O ambiente era preenchido por um coro desolador de vozes, murmúrios, choros abafados e preces silenciosas. Uma fresta de luz que passava pela madeira permitiu que ele reconhecesse que estava em um porão, acorrentado, junto a outras dezenas de pessoas de seu povo, o bakongo,  enquanto tentava se desprender, sem sucesso, das correntes que os prendiam. Ele não sabia, mas havia sido raptado e estava em um navio negreiro rumo ao Brasil, a colônia mais rica de Portugal. Levava de seu reino, apenas um amuleto de pedra malaquita em seu pescoço, feito pela sua mãe.

 Pintura histórica que retrata o interior de um navio negreiro. O espaço é fechado e escuro, com dezenas de pessoas negras escravizadas amontoadas no chão e em prateleiras de madeira, muitas delas sem roupas, sentadas ou deitadas, demonstrando cansaço e sofrimento. Alguns homens brancos, vestidos, circulam pelo local com lanternas e instrumentos, observando as pessoas aprisionadas.

Imagem de um navio negreiro, utilizado no tráfico transatlântico de africanos escravizados entre os séculos XVI e XIX. Crédito: Johann Moritz Rugendas, "Navio Negreiro" 1830. 

 Mapa do Oceano Atlântico Sul mostrando partes do continente africano à direita e da América do Sul à esquerda e um trajeto transatlântico marcado por uma linha pontilhada. O percurso parte da costa da África Central, com destaque para a região da República Democrática do Congo e segue pelo oceano até o litoral do Brasil, com chegada marcada à região do Rio de Janeiro.

Mapa do caminho percorrido por Zenga no Navio Negreiro. Foto: Reprodução/Google Maps. Imagem tratada por Inteligência Artificial.

Depois de meses de viagem, marcados pela fome atroz e pelo horror de ver amigos e parentes sendo arremessados nas águas frias do Atlântico, Zenga finalmente chegou às margens do Rio de Janeiro. Era uma tarde escaldante. O sol brasileiro não aquecia, mas ardia em sua pele exausta, e o brilho intenso da praia ofuscava brutalmente sua visão, quase cega pela escuridão do porão. Estava em um mercado negreiro na Rua do Valongo, Zona Portuária do Rio Janeiro, um dos portos que mais recebeu pessoas escravizadas do Brasil, e em todas as Américas. Zenga ficou lá por menos de dois dias e foi rapidamente vendido para um senhor português. Esse senhor, era dono de terras em Campo dos Goytacazes, para onde Zenga foi levado para trabalhar nos engenhos de açúcar. 

 Cena do período colonial brasileiro. Em um espaço aberto, aparecem várias pessoas negras escravizadas, muitas sentadas ou agachadas no chão, algumas com correntes, enquanto homens brancos, vestidos com roupas da época e chapéus, observam e interagem entre si.

Imagem histórica que sugere relações de poder e organização social no Brasil colonial, sem identificação precisa do evento retratado. Foto:  Johann Moritz Rugendas/ Domínio Público

Zenga, apesar dos maus tratos, foi se tornando um homem forte, robusto, e, pelo fato de ter sido criado em uma realeza, sabia diversos ofícios, desde ferraria, serraria, plantio a trabalhos manuais. Foi se destacando no engenho, onde também sofreu nas duras mãos dos senhores brancos, mas nunca deixava de cultuar suas raízes, sempre realizando rodas de cantos com seus amigos e cozinhando para eles na senzala.

 

Sempre lembrava de sua mãe, Zuri, de seus irmãos, de sua vida nas terras verdes e vívidas do Congo e das brincadeiras com seus primos. Zenga aprendeu português com facilidade e escrevia seu dia a dia no engenho em um caderninho de couro. Foi batizado no Brasil, e recebeu um nome: Calhau. Quando Zenga completou vinte e dois anos, o senhor de engenho morreu. Com a perda do proprietário, os escravizados foram deslocados para o interior do Brasil, na famosa Eldorado Vila do Carmo. A primeira vila do estado que posteriormente se chamaria Minas Gerais, devido a abundância e variedade de minérios. 

Imagem de um mapa ilustrado, com aparência de pergaminho envelhecido. O mapa mostra parte do Sudeste do Brasil, destacando cidades de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Estão identificadas, Belo Horizonte, Ouro Preto, Juiz de Fora, Governador Valadares, Ipatinga, Vitória, Campos dos Goytacazes e Rio de Janeiro. Há dois marcadores de localização: um em Ouro Preto (MG) e outro em Campos dos Goytacazes (RJ), ligados por uma linha pontilhada que sugere um trajeto.

Mapa do caminho percorrido por Zenga no Brasil Colônia. Foto: Reprodução/Google Maps. Imagem tratada por Inteligência Artificial.

Em seu trabalho forçado, Zenga moldou os calçamentos de pedra das ruas, ajudou na construção dos casarões históricos e até na construção de uma das igrejas mais famosas, a Igreja de São Francisco de Assis. Também ajudou a serrar e lixar as madeiras utilizadas por Manuel da Costa Ataíde em suas pinturas mais famosas no estilo rococó. Nos becos estreitos, o silêncio não mentia, quem ergueu aquele chão não está nas placas de bronze.

 Forro da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, em Mariana/MG. No centro, aparece uma figura religiosa feminina sentada sobre nuvens, cercada por anjos e elementos celestiais.

A pintura do teto da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos em Mariana, que retrata a Assunção da Virgem Maria, foi feita por Manoel da Costa Ataíde (Mestre Ataíde), por volta de 1823, utilizando a técnica de têmpera, e é uma das obras mais importantes do barroco mineiro. Foto: Marcel Gautherot / IPHAN

Imagem em preto e branco da Igreja de São Pedro ainda em construção. A fachada possui portas em arco, janelas altas e detalhes arquitetônicos típicos do período barroco

Imagem histórica da Igreja de São Pedro, em Mariana (MG), evidencia a importância do patrimônio arquitetônico religioso do século XVIII em Minas Gerais. A construção, iniciada em 1731, integra o conjunto de bens que narram a formação urbana, cultural e simbólica da cidade. Foto: Amador De Souza / Arquivo Público Mineiro

Naquela época, Zenga, assim como seus irmãos africanos, tinha apenas a igreja como espaço religioso permitido. Era ali que cultuavam os santos dos brancos e, de forma mais sutil, os que atravessaram o oceano com eles, guardados na memória e no corpo. A fé precisava ser exercida nos limites do que era autorizado, mas também dentro do que era possível. Como forma de resistência, força e espiritualidade, surgiu a ideia de construir uma igreja própria, um território onde a devoção negra pudesse existir sem perseguição. Assim nasceu a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, santa protetora dos escravizados. Após muito suor e trabalho, em 1758, a construção que simbolizava a ancestralidade africana foi finalmente concluída.

 

Séculos depois, o símbolo desse espaço ainda ecoa na memória de quem reconhece a igreja não apenas como patrimônio arquitetônico, mas como abrigo histórico de um povo que teve a fé negada e perseguida até os dias atuais. 

Mais do que um templo, a Igreja do Rosário se articulava a uma rede de organização e sobrevivência coletiva. As irmandades negras funcionavam como espaços de sociabilidade, proteção e transmissão de memória, sustentando práticas religiosas, culturais e políticas diante à exclusão.

Essa leitura é compartilhada por quem entende a construção do Rosário como um gesto de enfrentamento ao racismo estrutural. “A Igreja do Rosário dos Pretos foi construída pelos negros para os negros, porque eles não podiam entrar nas outras igrejas” afirma Waldemar Malta. Para ele, a irmandade sempre extrapolou o campo religioso: “Foi, e continua sendo, um espaço de luta, de união e de resistência do povo preto.”

Fotografia em preto e branco da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em Mariana/MG. A igreja possui fachada simétrica, pintada em tons claros, com uma porta central de madeira trabalhada e janelas alinhadas acima. No topo, há um frontão simples com uma cruz central. Duas torres laterais abrigam sinos e são finalizadas com pequenos telhados piramidais.

A Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, construída em 1758, é um marco da presença e da organização da população negra em Ouro Preto. Erguida por irmandades formadas por homens e mulheres negros, livres e escravizados, o templo foi espaço de fé, sociabilidade, resistencia e afirmação identitária em um contexto de exclusão racial nas igrejas oficiais da época.  Foto: Sylvio de Vasconcellos / IPHAN

Fotografia em tom sépia do interior da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em Mariana/MG. O espaço é amplo e simétrico, com paredes claras e pé-direito alto. No centro, um grande lustre pende do teto, iluminado por uma abertura circular superior. No fundo da nave, há uma porta de madeira trabalhada, acima da qual se encontra o coro com guarda-corpo em madeira. Nas laterais, púlpitos elevados e janelas retangulares permitem a entrada de luz natural.

A Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos foi construída por pessoas escravizadas para poderem exercer sua fé. Símbolo de resistência e força. Foto: Marcel Gautherot / Acervo Instituto Moreira Salles

Zenga e seus companheiros realizavam os trabalhos de forma árdua, sofrida, debaixo de sol e chuva. Nas inaugurações, os nomes citados eram apenas dos homens brancos. Seus amigos, que morreram durante as construções e viviam em condições insalubres, derramaram o próprio sangue sob as pedras-sabão e as tábuas, trabalhando sem parar, pois a morte daquelas pessoas já fazia parte da rotina. Seus companheiros trabalhavam na extração de minério, nos ofícios e na construção das ferramentas e dos materiais utilizados nas obras daqueles edifícios grandiosos que durariam mais de centenas de anos e que posteriormente se tornaram patrimônio. Tudo construído pelas mãos negras e ensanguentadas dos escravizados, como no caso de Zenga, que foram brutalmente arrancados de seus territórios, atravessando um oceano para serem submetidos ao trabalho forçado e serem completamente apagados da história. 

 Um retrato fotográfico de busto, em preto e branco com tons de sépia, de um homem negro. Está posicionado em plano médio, com o olhar direcionado para o horizonte. Ele está com o torso nu, revelando uma constituição física magra e definida. Possui cabelos curtos e crespos e uma barba em estilo cavanhaque. O elemento mais marcante são as escarificações (marcas tribais) em seu rosto: duas linhas horizontais paralelas na bochecha direita e marcas semelhantes na têmpora.

Homem possivelmente escravizado na segunda metade do séc XIX. Créditos: Alberto Henschel, cerca de 1869, Recife, Pernambuco. Homem não identificado. Foto: Augusto Stahl/ Acervo Instituto Moreira Salles

“A gente sabe quem desenhou as plantas, mas quase nunca sabe quem colocou a mão na obra”, pontua Vittor Policarpo.

 

Zenga faleceu aos 50 anos, uma idade até bem vivida, tendo em consideração que a média de vida era apenas 25 anos no Brasil. Assim como seus amigos, ele foi enterrado nas terras ao lado da Igreja em que ajudou a construir.

O negro construiu, mas nunca teve
o nome reconhecido.

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Um nome herdado da memória

Mais de 300 anos depois, nasceu em Mariana um jovem. Natural do bairro Cabanas, na cidade, era filho de um pedreiro e de uma costureira. Seu nome? Zenga. Seu pai, um preto que gostava de história, leu um livro que mencionava de passagem o caso de um escravizado muito sabido, um futuro rei que fora raptado do Congo e trazido para as terras da Vila do Carmo, no século XVIII. Soube dessa história porque o colar de Zenga, a única coisa que trouxera do Congo, feito de pedra malaquita, fora encontrado no início do século XX no local onde hoje é o Jardim de Mariana (oficialmente Praça Gomes Freire). Foi encontrado por um arqueólogo que estudava objetos antigos utilizados pelos donos de ofício na cidade de Mariana, no período colonial. O objeto passou de mão em mão até chegar a um historiador que, interessado nele, soube pelo povo de Mariana que pertencia a Zenga. A pedra verde-esmeralda não passava batida, o que ajudou a encontrar o dono do colar.  Soube, assim,  que era um objeto proveniente das margens do Rio Congo, terra de Zenga. Seu pai, que ficou comovido pela história, batizou seu filho com esse nome. 

 

Movido por essa história, Zenga, hoje em dia, um garoto preto, marianense - e agora estudante de História da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) -, decidiu fazer uma pesquisa para seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). O tema? As histórias invisíveis dos negros escravizados que ajudaram a erguer essa cidade. Dado o processo de apuração de seu TCC sobre essa questão, as perguntas centrais eram: “Quem construiu esse patrimônio? Qual o lugar da memória nesse âmbito? Como resgatar essas histórias e essas pessoas apagadas pelo tempo e pela branquitude?” A investigação começou a partir da orientação do professor, que o incentivou a ir além, buscando documentos históricos, arquivos que pudessem contar algo, e a buscar as vozes que permanecem à margem da narrativa histórica dominante.  

 

Zenga então começou a investigar, completamente movido pela história do homem que deu origem ao seu nome. Ele tinha orgulho disso, e tinha a “sorte”, digamos entre aspas, de ter nascido no Brasil atual, um Brasil de políticas públicas. Era estudante de uma universidade federal, ingresso conquistado pelas cotas raciais. Vinha de uma família beneficiária do Bolsa Família, que conhecera o cuidado, e a falta dele, nas filas do Sistema Único de Saúde (SUS). Eram políticas erguidas para conter a desigualdade social e racial, tentativas de reparo num país ainda em ruínas. O caminho, porém, permanecia longo para que a justiça deixasse de ser promessa e se tornasse realidade. Ainda assim, estavam ali. Zenga carregava em si esse lugar: estudante, latino-americano, filho da periferia, onde a exploração não era conceito, mas rotina. E seria a partir desse papel, frágil e potente ao mesmo tempo, que ele avançaria. Sigamos, então. A história agora escolhe os passos de Zenga.

 

Zenga começou a compreender então, a história não se constrói apenas de documentos oficiais, mas também da memória oral que sobrevive há gerações, que tentam, de alguma forma, lutar pela preservação da memória negra no território. 

O patrimônio negro e a memória branca 

Em 1945, Mariana, a primeira capital de Minas Gerais e a única cidade histórica mineira com traçado planejado, foi declarada Monumento Nacional pelo Decreto-Lei nº 7.713 assinado pelo presidente Getúlio Vargas. Reza a lenda que o reconhecimento veio após um pedido de Dom Silvério, o primeiro arcebispo negro da história do Brasil, intelectual e poeta. Além disso, a cidade foi a pioneira em organização política, dentre elas a primeira Câmara de Vereadores, o primeiro bispado e um dos locais que mais recebeu escravizados no Brasil. Entre 1716 e 1735, a população escravizada cresceu de forma acelerada, saltando de 6.721 para 20.863 pessoas, submetidas a uma rotina marcada pela violência e pela precariedade, de acordo com Alisson Eugênio, professor do Departamento de História da Universidade Federal de Alfenas. 

Fotografia em preto e branco do conjunto arquitetônico e urbanístico histórico da cidade de Mariana. A imagem mostra uma vista panorâmica da cidade colonial, com diversas casas térreas e sobrados distribuídos ao longo de um terreno montanhoso. Igrejas e edifícios religiosos se destacam entre as construções, com torres e fachadas visíveis ao longe. Ao fundo, aparecem morros e montanhas, compondo a paisagem natural que envolve a cidade.

Registro histórico do conjunto arquitetônico e urbanístico de Mariana revela a formação da cidade a partir do século XVIII, marcada pela ocupação colonial, pela centralidade das igrejas e pela adaptação da malha urbana ao relevo montanhoso. Foto: Augusto Riedel / Instituto Moreira Salles

A formação do que vemos como patrimônio histórico atualmente se deu após um pedido do governo português. A Vila do Carmo teve sua planta elaborada pelo arquiteto português José Fernandes Pinto Alpoim. Em 1745, foi elevada à categoria de cidade, com o nome de Mariana, em homenagem à rainha Maria Ana de Áustria, esposa de D. João V. 

 

Mas o que é realmente patrimônio? 

 

A palavra Patrimônio vem do que o pai possuía em casa e o que era importante. Patrimônio vem do latim munus, que tem a ver com dinheiro, remuneração, monetário. “Muito do que a gente entende por Patrimônio é o que os modernistas definiram. São construções luso-brasileiras, de aspecto fortemente colonial, que tentam compreender a identidade brasileira a partir dessa matriz lusa. Mas, se falamos de uma identidade nacional brasileira, podemos realmente definir isso como brasileiro?” argumenta Vittor Policarpo.

 

Para historiadores e pesquisadores da área de patrimônio, como Vittor Policarpo, a obsessão em torno de Mariana como Patrimônio parte de uma visão branca e elitista, construída por artistas e intelectuais de São Paulo que, segundo eles, teriam acesso a um passado que já não existe e que deveria ser conservado. Nesse passado estaria o sentido do ser brasileiro: uma identidade nacional, de pertencimento, algo que definiria o que é ser mineiro ou o que se convencionou chamar de Barroco.

A noção de Patrimônio não é neutra.
Ela é construída a partir de escolhas:
o que se preserva, o que se esquece e
quem tem o poder de contar essa história.

(Vittor Policarpo)

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Quando pergunta-se a respeito dos construtores do patrimônio, de quem fez erguer esses edifícios históricos, de tamanha complexidade, nunca há dados a respeito. 

Sabemos que Alpoim fez a planta do Centro Histórico, que José Pereira Arouca foi o autor da planta da Igreja de Nossa Senhora do Carmo e responsável pela construção da Câmara, que Manuel Francisco Lisboa foi responsável pela Catedral da Sé, e Manuel da Costa Ataíde foi o responsável pela arte rococó presentes nas igrejas marianenses. Mas quem realmente foi a mão de obra desse patrimônio? 

Esse apagamento reflete uma sociedade racista
e patriarcal que, como tinha os negros como ‘propriedade’, acarretava no apagamento sistemático dessas pessoas colaborando para
a manutenção do poder da branquitude.

(Rogério Arruda)

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No sentido de que um Patrimônio vai guardar uma certa história nacional, uma certa identidade do que o Brasil era. Só que todo documento é feito por uma pessoa que tem um interesse político e em um contexto que também tem um interesse político. Não necessariamente retrata a realidade. Para Vittor Policarpo, o que entendemos hoje como Patrimônio foi definido a partir do olhar de elites brancas, que escolheram o que deveria ser preservado.

 

Essa dificuldade em encontrar documentos e fotografias dessas pessoas é um sintoma do apagamento da importância delas na construção do patrimônio. Podemos citar como um exemplo também o que ocorreu com as formas centenárias de mineração extraídas dos africanos para extrair o ouro: os brancos tomaram todas as habilidades de pessoas africanas e com elas adquiriam capital, sem dar nenhum retorno à elas, pois eram vistas como pessoas sem alma, indignas de receber qualquer benefício. 

Fotografia de um documento histórico manuscrito exposto sobre uma mesa inclinada, iluminada por luz direcionada. O papel apresenta escrita cursiva antiga, com tinta clara sobre um fundo arroxeado

Rolo de microfilme preserva registros do cotidiano da sociedade colonial mineira. Em documentos como esse, pesquisadores encontram informações que vão além dos grandes acontecimentos históricos, revelando transações corriqueiras como compra de ripas e vigas para construção, aquisição de cavalos e até contratos de compra e aluguel de pessoas escravizadas, evidenciando a dinâmica econômica e social do período. Foto: Mateus Del’Amore 

Por meio de dados obtidos através do artigo Trajetórias de vida e morte de escravos-mineiros (Mariana/MG: 1795-1819), do historiador Rafael de Freitas e Souza, que trata da vida insalubre dos negros escravizados na Mina da Passagem, pode-se ter um panorama da época. Ele cita a dificuldade em encontrar “fontes contínuas” para compreender a situação daquelas pessoas no território da Vila do Carmo. Ao realizar pesquisas para uma apuração eficiente de uma reportagem, Zenga encontrou muitas dificuldades, mesmo conversando com tanta gente. Tinha como objetivo buscar respostas e compreender as histórias e os contextos por meio de fontes, sendo elas pessoas, documentos ou fotografias. Mas nesse âmbito, a cidade de Mariana proporciona muitos desafios nessa reconstituição de trajetórias de vida.

O apagamento não acontece por acaso.
Ele é uma escolha. A história é contada
por quem tem poder para contar. 

(Vittor Policarpo)

De acordo com Vittor, Mariana não começou no Centro Histórico. O início da cidade está nos bairros hoje tratados como periferia, onde vivem majoritariamente pessoas negras, e principalmente mulheres.

 

Na segunda metade do século XVIII, havia na província de Minas Gerais aproximadamente sete mil pessoas escravizadas, que totalizavam cerca de 19 óbitos por dia, dentre as atividades de construção e de mineração, estimando sua vida útil de trabalho entre oito e doze anos. A maioria dos senhores possuía escravos, numa média entre cinco a dez, de acordo com a professora de história Aderlaine Patrícia de Souza. A construção do Patrimônio tinha que revelar a grandiosidade que a cidade possuía com a extração de ouro, por mão de obra também escravizada. Enquanto há uma ausência de documentos que comprovem a participação dessas pessoas na potência que Mariana era na época, há uma vasta documentação a respeito da ocupação inglesa no distrito de Passagem de Mariana, juntamente com a abrangência de dados e documentações de famílias portuguesas no território. 

Em registros encontrados pelo historiador Rafael Souza, pode-se observar que os escravizados recebiam como sobrenome o lugar de sua origem e além disso, as faixas etárias que mais aparecem são entre os 21 e os 30 anos, idades que “aguentavam” mais o trabalho pesado. A maioria tinha como origem Angola.

A memória que bate no tambor

Os escravizados que atuavam como pedreiros, atividade que exigia grande esforço físico, apresentavam maior propensão ao desenvolvimento de hérnias, em razão da pressão exercida pelas vísceras contra a parede abdominal, condição que podia levar à morte. Quando adoeciam, seu valor diminuía, sendo vendidos ou descartados. Além da mineração, a mão de obra escravizada foi fundamental para erguer igrejas, ruas e edifícios que hoje compõem o patrimônio histórico de Mariana.

 

Ao investigar quem construiu esses bens reconhecidos como patrimônio, Zenga passou meses vasculhando arquivos empoeirados, jornais antigos e documentos oficiais. Procurava nomes, registros, rastros materiais da presença negra na construção da cidade. Encontrou lacunas, silêncios e ausências. Nos papéis que celebram o patrimônio, quase nunca apareciam os corpos que o sustentavam.

 

Foi nesse vazio documental que Zenga se deparou com uma outra forma de arquivo: o Bloco Zé Pereira da Chácara. Com cerca de 180 anos de existência, o bloco não se apresenta apenas como manifestação festiva, mas como um patrimônio imaterial, sustentado pela memória oral, pela música e pela presença contínua de famílias negras que atravessaram gerações. Diferente de uma visão de Patrimônio que privilegia  igrejas, fachadas e traçados urbanos, o Zé Pereira preservou aquilo que os livros não registraram: nomes, histórias e vínculos comunitários.

 

Zenga percebeu, então, que a memória que buscava não estava apenas nos documentos oficiais, mas também na batida do tambor. O bloco funcionava como um arquivo vivo, capaz de manter viva a história de pessoas negras apagadas dos registros formais do patrimônio.

O que a fabulação revela

Zenga é um personagem ficcional, mas sua vida não é invenção pura. É uma reconstrução possível de fabulações baseadas em padrões históricos, práticas da época e lacunas gritantes deixadas pelos documentos oficiais, resguardados pela forma da memória oral. Recuperar essas narrativas é um gesto de reparação simbólica. É reconhecer o papel do negro na construção do Patrimônio não só em Minas Gerais, mas no Brasil, juntamente com a presença dos povos originários. A beleza das igrejas e das praças só existe porque milhares de homens e mulheres, arrancados da África, empregaram aqui sua força, sua técnica, sua arte e, sobretudo, sua vida.  Sob elas, há sangue, suor e nomes que não foram inscritos nas placas de bronze, mas que resistem na oralidade, no tambor, na fé e nos corpos negros que ainda habitam a cidade. Contar a história de Zenga é recusar o apagamento, o esquecimento e afirmar que o Patrimônio brasileiro não é apenas em pedra-sabão e ouro, mas em vidas negras arrancadas, exploradas e silenciadas. Enquanto esses nomes não forem ditos, a história continuará incompleta.

As pessoas escravizadas tiveram
um papel essencial na construção
do patrimônio histórico.

(Stephanno Gennaro)

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Zenga entrevistou, para o seu TCC, homens e mulheres negros militantes de Mariana, além de um engenheiro, um pesquisador, um artista, um arquiteto, um escritor e um jornalista. O trabalho foi concluído com êxito, mas representa apenas um pequeno passo em um país estruturalmente racista, onde ainda vigora um pacto de manutenção da branquitude. Os escravizados não existem mais como categoria legal, mas o trabalho análogo à escravidão permanece. Todos os dias, o Ministério do Trabalho resgata pessoas submetidas a essas condições, e a maioria delas é negra. São essas mesmas pessoas que seguem ocupando os postos mais precarizados: mulheres negras frequentemente relacionadas a  trabalhos domésticos e homens negros às construções, quase sempre recebendo salários miseráveis. Se antes a mão negra construiu cidades e extraiu o ouro, hoje ela limpa banheiros, ergue prédios e sustenta a base de uma economia que continua a não reconhecê-la plenamente. Ainda assim, políticas públicas de acesso à educação, de combate à desigualdade social e racial, e de reparação histórica representam caminhos possíveis. 

Um retrato fotográfico de uma mulher negra de pé e levemente voltada para a direita. Ela equilibra sobre a cabeça um grande tabuleiro de madeira repleto de frutas e usa trajes típicos das vendedoras africanas e afro-brasileiras. No rodapé da foto, lê-se a inscrição "CHRISTIANO JR. PHOT"

Registro fotográfico evidencia o trabalho de mulheres negras na economia urbana brasileira. A imagem revela práticas cotidianas de venda ambulante de alimentos, atividade fundamental para a subsistência de populações negras, muitas vezes submetidas à escravidão ou condições precárias de trabalho. Foto: Christiano Júnior/ Acervo Instituto Moreira Salles

As igrejas de Mariana não são feitas apenas de pedra sabão, e talha dourada, e sim de histórias negras invisíveis e de sangue preto. A fabulação surge não para substituir a história, mas para iluminar o que a história se recusou a registrar.  

 

Waldemar Malta acredita que “enquanto a gente não contar essa história, ela continua sendo apagada.” Durante semanas, nossa equipe reuniu relatos, memórias orais, registros fragmentados e aquilo que só a imaginação histórica pode resgatar. O resultado é esta fabulação jornalística que tenta devolver nome e memória a quem, por séculos, foi reduzido a números.

Apuração e fontes

A partir dessas entrevistas, o percurso se desdobrou em conversas com figuras que, em Mariana, são guardiãs de saberes e gestos. Pessoas reconhecidas por sua atuação educacional, cultural e política, cujas trajetórias atravessam a negritude, a ancestralidade e as camadas de silêncio deixadas pelo apagamento histórico. Entre essas vozes estão Aida Anacleto, historiadora e militante mineira; Vittor Policarpo, historiador e produtor cultural; e Waldemar Malta, escritor e antigo provedor da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Personagens reais de uma história, que muito provavelmente também teriam sido escutados por Zenga, caso seus caminhos se cruzassem.

 

A apuração também incluiu profissionais ligados à preservação do patrimônio histórico, como Genaro Stephanno, engenheiro de patrimônio; o jornalista e educador Leandro Santos; Rogério Arruda, doutor em História e pesquisador da fotografia histórica; e Darlan Malta, presidente da Organização Folclórica Zé Pereira da Chácara.

 

Além das entrevistas, Zenga buscou compreender o próprio processo de Patrimônio da cidade, investigando como se deram as escolhas sobre o que, quem e quais histórias seriam preservadas ao decorrer deste processo. Zenga também contou no decorrer da apuração com fontes documentais no museu Casa dos Contos, localizado em Ouro Preto, uma casa histórica com um grande acervo, transformada em museu com móveis, documentos e livros dos séculos XVIII e XIX, e do  Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).. 

 

Ao longo da apuração e escrita, ficou evidente que a participação da população negra na construção do patrimônio histórico de Mariana foi decisiva, embora sistematicamente apagada dos registros oficiais e presente na memória oral. A apuração de Zenga, portanto, não se limitou à coleta de dados  documentais, mas se organizou como um método de unir um feito político e histórico, cruzar a memória oral, pesquisa acadêmica e fabulação para tensionar a narrativa oficial e reescrever a história do negro como sujeito fundamental na história da cidade. 

Se a gente não falar, ninguém fala por nós.
(Waldemar Malta)

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Antigo documento manuscrito. O papel é claro, levemente amarelado, com linhas vermelhas verticais, semelhantes às de papel pautado antigo. Toda a página está preenchida por escrita cursiva em tinta escura, com letras alongadas, traços curvos e floreios típicos do século XIX. Algumas palavras estão sublinhadas e há linhas horizontais feitas à mão separando partes do texto. A escrita é contínua, sem ilustrações, revelando tratar-se de uma Carta de Alforria.

Uma carta de alforria era um registro oficial que confirmava a libertação de uma pessoa escravizada. Por meio desse documento, o senhor de escravos abria mão de seus direitos de posse, fazendo com que o escravizado passasse à condição de liberto. Era fundamental portar a carta para comprovar a liberdade e evitar o risco de ser escravizado novamente. A alforria podia ocorrer mediante pagamento, pela prestação de serviços ou ser concedida de forma gratuita e sem condições. Esse documento histórico foi encontrado no acervo do IPHAN Mariana, testemunho de memória e história. Foto: Giovanna Marçal

Antigo documento manuscrito, com papel amarelado e marcas do tempo, escrito em caligrafia cursiva característica do século XIX.

Livro Penhor de Escravos 1867, nº 5. Documento do acervo do IPHAN Mariana que registra nomes e características de pessoas submetidas ao sistema de penhor, revelando marcas da escravidão e da história social do período. Foto: Giovanna Marçal

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Produto editorial da disciplina Laboratório Integrado II: Grande Reportagem Multiplataforma, elaborado por estudantes do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto.

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