
Uma crise com gênero e cor
A crise climática não chega igual para todo mundo, ela tem gênero, raça e endereço
Eduarda Belchior, Mariana Amaral e Milene Latarulo
Eventos extremos dão luz a ineficiências estruturais da sociedade e dos governos que colocam grupos específicos em situação de vulnerabilidade. O conceito que nomeia esse tipo de ineficiência é o racismo ambiental, ele é a forma como o preconceito racial reflete na ocupação do território, por meio dessa nomenclatura entendemos a razão de pessoas que vivem em zonas periféricas, rurais e tradicionais são afetadas pelos impactos climáticos.
Nesta edição da Revista Curinga, o podcast “Uma Crise Com Gênero e Cor” traz uma reflexão sobre o tema a partir da vivência de mulheres negras e indígenas atingidas por dois dos principais eventos extremos que ocorreram nos últimos dez anos no estado de Minas Gerais: as enchentes de fevereiro de 2026, nas cidades de Ubá e Juiz de Fora, e o rompimento da Barragem de Fundão, que aconteceu em novembro de 2015 em Mariana.
Discutimos o racismo ambiental, as zonas de sacrifício e a invisibilidade das vítimas nos dados e nas políticas públicas. Além disso, conversamos sobre o protagonismo dessas mulheres na linha de frente da resistência, na organização de redes de apoio que lideram respostas emergenciais e em lutas por justiça climática.
Convidamos você a ouvir:
Confira também a galeria de fotos composta por imagens dos desastres que ocorreram nas cidades de Ubá e Juiz de Fora, da localidade de Pedras e do Quilombo de Gesteira, no município de Mariana.
Juiz de Fora
Os impactos das fortes chuvas que aconteceram entre os dias 23 e 24 de fevereiro de 2026 em Juiz de Fora, cidade localizada na Zona da Mata, região do estado de Minas Gerais, ainda não foram completamente mensurados. Durante esses dias, os quase 600 milímetros de volume da chuva fez o Rio Paraibuna, que corta a zona urbana da cidade, transbordar em vários pontos e provocou alagamentos severos e desmoronamentos em diferentes regiões da cidade. Nas áreas mais atingidas, morros desabaram, lugares ficaram com acesso interditado e pessoas tiveram que abandonar suas casas de maneira urgente. Ao todo, 65 pessoas faleceram na cidade por causa dessas enchentes.
Ubá
Ubá é uma cidade da Zona da Mata Mineira atingida pelas enchentes que aconteceram em fevereiro deste ano (2026), depois de sucessivas chuvas nos dias 23 e 24 de fevereiro de 2026. Esse foi um dos eventos extremos mais graves da história da cidade, com o registro de aproximadamente 174 milímetros de chuva em apenas três horas e meia. Semelhante ao que aconteceu na cidade vizinha (Juiz de Fora), o rio que corta a cidade (Rio Ubá) transbordou e inundou rapidamente a região central. Foram confirmados oito óbitos em decorrência das cheias. Além disso, cerca de 4.480 pessoas ficaram desalojadas.
Pedras
Pedras é uma localidade pertencente ao município de Mariana, Minas Gerais, que foi um dos 49 municípios atingidos pelo crime do rompimento da barragem de rejeitos da Samarco, Vale e BHP em 2015, considerado o maior crime socioambiental já registrado no Brasil. A comunidade rural fica localizada a cerca de 25 km da região do distrito de Bento Rodrigues, localidade na qual se encontrava a barragem. Os danos desse evento extremo não se restringem apenas à perda de bens materiais como casas e objetos pessoais. A vida nunca mais foi a mesma, pois os resíduos liberados pelo rompimento deixaram a terra do lugar improdutiva e os moradores tiveram que se mudar para outras regiões.
Quilombo de Gesteira
O Quilombo de Gesteira fica localizado na região do distrito de Campinas, no município de Mariana. A comunidade, assim como Pedras, foi atingida pelo rompimento da barragem da Samarco, Vale e BHP em 2015. O impacto dos rejeitos de minério de ferro foi devastador na comunidade tradicional. A lama de resíduos chegou a metros de altura e deixou a população ilhada por dias. Até hoje, quase onze anos depois, é possível ver as marcas da lama que quase destruiu uma comunidade inteira. Os rastros desse evento extremo servem como prova de um crime contra a dignidade humana, o meio ambiente e o patrimônio histórico-cultural da região.








